terça-feira, 20 de junho de 2017

O incêndio de Pedrogão - a informação e as imagens

Nas televisões, o incêndio de Pedrógão Grande resultou num avatar técnico-totalitário da “obra de arte total”, na qual se dá uma confrontação dialéctica das várias artes. Com as imagens captadas pelos drones, a SIC compôs um filme com uma banda sonora que não era a Cavalgada das Valquírias, o excerto de uma ópera de Wagner a que Francis Ford Coppola deu uma grandiosa forma cinematográfica em Apocalypse Now, mas tinha a pretensão da “grande arte” wagneriana.

Diz-se que os pilotos operadores dos drones, combatentes de uma guerra à distância, antes de disparar gritam de júbilo: “Oh, que belo alvo!” A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. 
Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador.

Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime. Se a emergência dessa categoria estética que é o sublime está relacionada com os sentimentos de medo e de terror perante algo que excede toda a medida, é preciso no entanto que a ameaça que eles representam seja suspensa para que da dor nasça o prazer. As reportagens da televisão, muito especialmente as imagens estetizadas que passam a servir de separadores ou de fechos do noticiário, procedem a esta conversão da dor em prazer. São maléficas e eticamente execráveis. Devemos perguntar como é que os jornalistas dos vários canais de televisão se relacionam com elas.

O sublime, como sabemos, tem a dimensão do irrepresentável, deixa a faculdade da imaginação e a fala aniquiladas perante algo que tem uma potência ou um tamanho desmesurados. Por isso, é sempre ocasião para o uso de meios retóricos curtos, mas enfáticos. Para não ficarem em silêncio, para não dizerem pura e simplesmente que não têm nada a dizer ou que tudo o que são capazes de dizer é trivial, os repórteres recorrem aos parcos meios linguísticos que têm à sua disposição. Por exemplo, a palavra “dantesco” (para além de uma certa dimensão, o incêndio é sempre “dantesco” e configura “o inferno”). E porque os processos de descrição, na televisão, consistem sobretudo em mostrar, em dar a ver, entra-se sem pudor na exibição das imagens obscenas. Como vimos, alguns repórteres nem hesitaram em aproximar-se dos cadáveres e oferecê-los aos espectadores como imagens ostensivas. Como uma personagem do filme de Francis Ford Coppola, eles poderiam dizer: “I love the smell of napalm in the morning.”

Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão.

Devemos novamente perguntar: a que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.


Esta maquinaria é totalitária, expansiva, reduz tudo a uma peça integrada. Este jornalismo é um aparelho ao serviço da lógica da “partilha” da comunicação, da informação e da opinião da nossa época. A utilização dos drones realiza na perfeição esta atitude predadora de quem se acha munido do olho de Deus: o olho que abarca, na vertical, a totalidade do mundo. Era fatal que a televisão viesse a pôr ao seu serviço o drone de omnivisão, dotado de uma vista sinóptica, capaz de uma vigilância de largo alcance, “wide area surveillance”, como se diz na linguagem da guerra.

António Guerreiro, "As vítimas dos incêndios e da televisão", in Jornal Público, 19.06.17

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Não é uma crónica,...

Não perdoo à Igreja nunca ter pedido perdão aos portugueses pela sua colaboração activa com a Ditadura e as iniquidades decorrentes dela, a sua total indulgência, desde a primeira hora, com a injustiça, a crueldade, a desigualdade, a intolerância, os campos de concentração

(Tarrafal, São Nicolau)

a monstruosa polícia política, a violência da censura, o desprezo pelas mulheres, a guerra colonial, a perseguição aos estudantes, aos operários, aos camponeses, a desavergonhada defesa dos ricos, as missas para as criadas, as homilias em que exortavam à obediência aos patrões, a violência para com os sacerdotes e os bispos que ousaram levantar-se contra o Estado Novo, a forma como abençoaram as centenas de milhares de rapazes mandados para África combater as aspirações dos povos colonizados, mandando capelães abençoar aquele horror, apoiar aquele horror, santificar aquele horror

(eu estava lá e vi)

em nome da luta contra o comunismo ateu, em nome da defesa dos valores cristãos, em nome da tolerância, em nome de Cristo. Porque carga de água não tem sequer a simples dignidade de pedir desculpa? Porque carga de água finge esquecer-se? Porque carga de água este silêncio? Eu sou cristão e aprendi a ser fiel até à morte como está escrito no Livro e pergunto: como tem coragem de tocar na Bíblia, como tem coragem de ser hipócrita para com o Senhor? O capelão do meu batalhão em África era um pobre jesuíta que se queixava das instruções que o obrigavam a fazer a apologia do colonialismo em nome do Deus e não tenho a menor dúvida que Jesus o cuspiu da Sua boca. Porque não pede perdão por ter afastado tanta gente da Virtude com as suas atitudes, as suas homilias, até com a utilização ignóbil das pobres crianças de Fátima a quem Nossa Senhora pediu em português

(que outra língua saberiam elas?)

para rezarem pela conversão da Rússia comunista, elas que nem sabiam o que comunismo queria dizer, manobradas sem vergonha pela hierarquia eclesiástica. O que terá sofrido o nosso capelão

(Tenho de fazer isto, tenho de fazer isto, dizia ele)

obrigado a louvar a guerra santa, obrigado a prometer o Paraíso aos nossos mortos, criaturas inocentes condenadas a dois anos e tal de um sofrimento injusto. E a Igreja, passados mais de quarenta, permanece em silêncio, completamente alheada da sua culpa. Isto entende-se? Isto aceita-se? Isto apaga-se? Claro que os filhos das classes altas não iam para a guerra. Conheço filhos dessas classes altas poupados a África com desculpas inacreditáveis. Conheço os seus nomes e conheço as desculpas, desde “incompatibilidade psicológica com o Exército” (posso citar nomes) até “incontinência urinária” (posso citar nomes), até “pé chato” (posso citar nomes), até classificações aldrabadas durante a especialidade (posso citar nomes), e é impossível que a Igreja não soubesse disto. Soube, claro, colaborou. 

E até hoje nenhuma voz oficial dela se ergueu, nenhuma voz oficial dela protestou, nenhuma voz oficial dela pediu perdão a Portugal, nenhuma voz oficial dela pediu perdão aos portugueses, nunca os sucessivos cardeais roçaram sequer este assunto quanto mais falar nele. Pelo contrário: abençoaram o Estado Novo que perseguiu os sacerdotes que ousaram, ainda que só timidamente, levantar a voz contra isto tudo. Perseguiram-nos, expulsaram-nos fizeram-lhes a vida negra. Nem disso a Igreja a que pertenço tem vergonha? Um bocadinho de vergonha ao menos? Limitou-se a arranjar bispos castrenses que aceitaram, apadrinharam, foram cúmplices desta situação. Não temos uma Igreja de Cristo, temos, sob muitos aspectos, uma Igreja hipócrita e complacente. Cristo não foi nunca hipócrita nem complacente: Porque é que a Igreja portuguesa o é? 

Tenho o maior orgulho no meu País, não tenho o menor orgulho nesta Igreja. Se Cristo aqui estivesse vomitá-la-ia da sua boca por não ser fria nem quente. Meu Deus será que nem arrependimento existe? Será que pensa que a memória dos homens é curta? Será que pensa que os portugueses esquecem? Será que não se importa de ser vendilhão do Templo? Será que acredita que vai ficar impune aos olhos do Senhor? Será que imagina que o Senhor não sabe? Será que toma Deus por parvo? Será que cuida que São Paulo, por exemplo, não a varreria? Onde estão as palavras do Senhor? Os Seus ensinamentos? O Seu exemplo? Ainda que em linguagem aparentemente críptica Cristo foi sempre muito claro. E quem quiser ouvir que oiça. A ditadura acabou em 1974, há quarenta e três anos portanto. E nem uma voz até hoje? Nem um simples pedido de perdão, nem uma confissão fácil

– Errei

não existe nenhuma humildade honesta neste silêncio, não existe o simples assumir de uma culpa, de um erro formidável, de um silêncio indecente. Dói-me na alma que a minha Igreja, o meu Deus sejam amesquinhados e esquecidos pelos que se dizem Seus filhos. Tenho vergonha. Tenho nojo. Tenho pena de vós que pagareis por isto. Será que um simples pedido de desculpa não alivia a alma? Parece que não. Por isso, quando morrer, não quero a vossa hipocrisia em torno do meu caixão. Basta-me que a sombra de Cristo ou de um dos seus Anjos se apiede, mesmo de longe, ainda que de muito longe, da minha alma pecadora. Não quero nenhum fariseu junto ao nosso diálogo. Quereria um Homem Justo. Um Homem Justo bastava-me. Onde, na hierarquia da Igreja, da minha pobre Igreja, ele estará?


António Lobo Antunes, “isto não é uma crónica, é um vómito de indignação”. Visão. 8.06.2017.
Imagem - Copyright - Susana Monteiro

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A melodia das coisas (II)

VI

Pensa, então, na própria vida. Recorda que as pessoas têm gestos abundantes e empolados e palavras incrivelmente grandiosas. Fossem elas, nem que por um instante, tão serenas e ricas como os belos santos de Marco Basaiti, deverias também encontrar atrás delas a paisagem que lhes é comum.

VII
E há também momentos em que, diante de ti, uma pessoa, calma e límpida, se destaca contra o fundo da sua magnificência. estes são raros instantes festivos, que tu nunca esqueces. A partir daí, amas esta pessoa. Isso significa que te empenhas a copiar com as tuas mãos ternas os contornos da sua personalidade, tal como a conheceste naquela hora.

VIII
A arte faz o mesmo. Ela é o amor mais vasto e mais desmedido. Ela é o amor de Deus. Não pode deter-se no indivíduo, que é apenas o portal da vida. Ela tem de passar através dele. Não pode ficar cansada. para se realizar plenamente tem de actuar onde todos - são um. E quando faz a sua dádiva a este um, todos são cumulados de uma riqueza ilimitada.

IX
Como a arte se encontra longe disto, pode ver-se no palco, onde ela diz ou pretende dizer como considera a vida, não o indivíduo no seu repouso ideal, mas o movimento e o relacionamento de muitos. Daqui resulta que ela simplesmente coloca as pessoas lado a lado, como faziam no Trecento, e deixa que sejam elas a criar laços entre si sobre o cinzento ou o dourado do fundo.

X
E por isso, eis também o que se passa. Elas tentam alcançar-se com palavras e gestos. Quase deslocam os braços, pois os gestos são demasiado limitados. Fazem esforços infinitos para lançar as sílabas umas às outras e, ao mesmo tempo, são péssimas jogadoras, que não sabem apanhar a bola. E assim passam o tempo, a curvar-se e a procurar - exactamente como na vida.


Notas sobre a melodia das coisas / Rainer Maria Rilke ; trad. Ana Falcão Bastos. - [Lisboa] : Licorne. 2012. - [22] p. ; 21 cm. - Tít. orig.: Notizen zur Melodie der Dinge. - ISBN 978-972-8661-79-3
Imagem: A morte de Cristo e dois anjos, Marco Basaiti, Alta Renascença, Itália.

O Homem como cinema (II)

É a descrição do substituto quotidiano do paraíso que Edgar Morin nos fala no seu livro, O Cinema: o homem imaginário.  O seu livro não é apenas a meditação sociológica mais subtil sobre "o homem como cinema" que nos foi dado ler, como a primeira grande tentativa de uma ontologia específica do Cinema. (...)
esta meditação vai de resto ao encontro de muitas análises e observações agudíssimas sobre a realidade fílmica levada a cabo por exemplo por José Augusto-França. O seu Charlot (1) é a mais séria e a única profundamente atenta às implicações mitológicas de um universo do cinema que existe em língua portuguesa e indirectamente um escalão no caminho que conduz até à obra de Edgar Morin.

O autor das Stars repensa a realidade humana implicada no factor Cinema, na sua totalidade, tomando-a a sério, não por simples moda nem por desejo de concorrer com esteas universitários célebres, mas por uma meditada vivência das revelações profundas sobre o comportamento de toda uma época e da imaginação humana em geral que o estudo de  homo cinematograficus é capaz de nos fornecer.

Livros como o de Edgar Morin são os únicos que podem acabar com a "doença infantil da reflexão cinematográfica" em que têm nadado nos últimos anos gerações de entusiastas. A discussão de "cienma", mormente a dos "cine-clubes", tornou-se no mundo inteiro o refúgio de um fácil conhecimento verbal, a ocasião única oferecida a falhados de toda a espécie para participar com pouco suor em logomaquias intermináveis.
Como no tonel das Danaides a realidade fílmica  é "dobrada" por um autêntico vazio, o dissolvente supremo que é essa tentativa universal de devorar um texto límpido por uma meditação abusiva e vã, cujo único fim parece ser apenas o de destruir "o filme" para deixar em seu lugar o mútuo fervor daqueles para quem todo o espectáculo é pretexto para se darem em espectáculo.

O cúmulo desse autêntico ritual da impotência é a dissolução praticada pelos "iniciados" em ideologias famosas, a tal ponto drogados que os seus "críticos" mais não são que o resplendor alucinado ou a ressaca triste do olhar pervertido que oferecem a todos a matéria cinematográfica. A bem dizer já não vêm os filmes, sobrepõem à visão o delírio que os distingue do espectador ingénuo e, sem o saber, eles que se dão como os íntimos do novo deus são os seus ateus perfeitos. Esses desmistificadores, ou que como tal se imaginam, são os mistificadores supremos. E sem remédio pois se julgam ao abrigo de toda a mistificação.

A análise de Edgar Morin antepõe aos fáceis juízos abstractos uma adesão à magia original que a realidade fílmica significa. É de dentro de uma fascinação essencial ao Cinema que ele nos fala e, por isso, reconhecemos na sua análise a voz adequada à vivência mas típica do homem contemporâneo. A ideia central de Edgar Morin não consiste em expressar, segundo um método que participa ao mesmo das investigações fenomenológicas e da dialéctica, a aparência banal dessa fascinação cuja existência se confunde com o Cinema mesmo.

A ela dedica Morin, na peugada de outros, excelentes comentários. mas é o mecanismo dessa fascinação que lhe interessa. Uma reflexão sobre os avatares desse fascínio, desde o extáctico da velha fotografia ao dinamismo do cinema, leva-nos à essência desse mecanismo do fascínio. E o paradoxo supremo aparece: a fascinação mesma do Cinema reside no fantástico da realidade quotidiana. O Cinema leva ao paroxismo a fascinação arcaica do duplo, o incrível desdobramento da indesdobrável. Realidade que faz dela, enfim, uma coisa possuída, um sonho acordado.

O "cinema " que desde sempre nós transportámos connosco, a fabulosa fonte de exaltação e terror e deslumbramento que cada qual explora em silêncio, ei-la participada por todos, tornada essa aventura da sala escura, esse êxtase comum. Através dele reencontramos a comunidade há muito fragmentada. Assim, o anel mágico da participação arcaica apagada pela nossa existência civilizada e o anel mágico da participação passa em silêncio de mão em mão. Que maior triunfo que a "sala escura" fascinada pela luz divina da imaginação?

O Cinema é o nosso teatro de sombras chinesas sem verdadeira origem, mais um desses deuses que no século XVIII veio do oriente para encantar a nossa perpétua infância. Um texto de um aficionado barcelonês dos teatrinhos de sombras por certo contaria Edgar Morin. Toda a mitologia que ele...

(1) José Augusto-França, Charlie Chaplin, o 'self-made-myth',1954, Lisboa, edições Inquérito
Eduardo Lourenço, "O Homem como Cinema", in Jornal de Letras, 23.11.2016

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A melodia das coisas (I)

I
Não estamos mesmo antes no princípio, vê tu.
Como antes de tudo. Com
Mil e um sonhos atrás de nós e 
sem acto

II
Não consigo imaginar conhecimento mais ditoso
do que este:
que temos de tornar-nos iniciadores.
Alguém que escreve a primeira palavra a seguir a um
travessão
secular.

III
Ocorre-me isto: nesta observação: que nós continuamos sempre a pintar as pessoas sobre um fundo dourado, como os Primitivos italianos. Elas erguem-se diante de algo indeterminado. às vezes dourado, às vezes também cinzento. à luz, por vezes, e frequentemente com uma escuridão insondável atrás delas.

IV
Isto compreende-se. para reconhecer as pessoas, foi preciso isolá-las. mas depois de uma longa experiência é sensato pôr de novo em relação as contemplações isoladas e acompanhar os seus gestos mais amplos com um olhar amadurecido.

V
Compara uma pintura sobre fundo dourado do Trecento com uma das inúmeras composições mais tardias dos antigos mestres italianos, onde as figuras se reúnem numa Santa Conversazione diante da paisagem luminosa no ar límpido da Umbria. O fundo dourado isola cada uma dessas figuras, a paisagem resplandece atrás delas, como uma alma comum, da qual extraem o seu sorriso e o seu amor.

Notas sobre a melodia das coisas / Rainer Maria Rilke ; trad. Ana Falcão Bastos. - [Lisboa] : Licorne. 2012. - [22] p. ; 21 cm. - Tít. orig.: Notizen zur Melodie der Dinge. - ISBN 978-972-8661-79-3

terça-feira, 6 de junho de 2017

O Homem como cinema (I)

O cinema é criador de uma vida surreal" (Apollinaire)

O homem imaginário está em toda a parte. Não existe  outro. este imaginário substancial que é o núcleo ardente do homem exactamente porque é, a sua realidade escapa à imaginação. Pois a única definição do imaginário é uma só: realidade do irreal. É através da presença maciça do Irreal que nós pisamos o continente insólito da imaginação. Distingue-se do puro sonho a estranha vigília com que o acompanhamos. Aí somos e à segunda potência vivemos o que jamais seremos ou viveremos. Esta não-vida é, em negro ou rosa, a mais profunda vida essencial.

Desde sempre os homens souberam dar-se em espectáculo esta não-vida maravilhosa. A nuvem e o pássaro cumprem no azul as metamorfoses de um corpo prisioneiro da gravidade. O mar enrola-se por nós em vagas surdas da nossa concha de silêncio. Tudo é símbolo pois [o] nosso centro está em toda a parte e o círculo não acaba em parte alguma. esta viagem sem termo, engano de engano entre a imaginação e vida, a literatura a foi por nós durante séculos de prodigioso silêncio.
Viajámos da Ítaca à Índia, erramos a vida inteira nos navios dos mil Ulisses por onde todos os aedos nos embarcaram. Sempre nesse silêncio de leitura, silêncio devorando o silêncio, espaço mágico do sonho escrito onde o universo inteiro encontrou, enfim, o seu espelho. As bodas deslumbrantes, os terrores imaginários da nossa vida a sós, imaginação consigo mesma, tiveram por paredes o silêncio puro do espectador solitário.

Em silêncio, gerações de leitores devoraram os sorrisos, o êxtase, as lágrimas dos paraísos literários. Só a poucos, como ao amante de Francesca, a morte deliciosa encontrou de lábios unidos sobre o texto do Sonho. Esse milagre externo estava reservado às ilusões do tablado e às aventuras cantadas da Ópera. O espectador podia viver no palco a aventura sentada do camarim. Tudo é tapete mágico para quem voa. Mas era um voo lento o do palco e do canto. Os amigos e os impacientes caminhavam à sua frente. Faltava um sonho para sonhar a meias que nos levasse de rastos, a respiração definitivamente suspensa atrás das suas asas indiferentes à distância, ao impossível e à morte e ao além dela. Faltava-nos, em suma, o Cinema.

Eduardo Lourenço, "O Homem como Cinema", in Jornal de Letras, 23.11.2016

sábado, 3 de junho de 2017

O País do costume...

All I have is a voice
To undo the unfolded lie ( W. H. Auden)

A história é antiga. É aliás a única narrativa que a política, palavra sem nobreza neste País consegue construir. Todos as ouvimos, todos sabemos como o esquema político se alimenta de desígnios que são favores praticados para os ganhos estratégicos de empresas que se confundem com interesses particulares dos que foram convidados a geri-las.

A história é antiga. É feita de acrobatas de ocasião, figuras bem vestidas que ignoram o que é a cidadania, ou o que importa para construir uma comunidade de pessoas. História pequena feita das novas formas de totalitarismo social e cultural, praticada por janotas que passeiam nos media uma narrativa de enganos, o empreendorismo galante, capaz de grandes feitos, mas sem o sentido humano das pessoas.

A história é antiga e feita de pequenos actores, onde se representa uma cegueira para as multidões, o sentido irrevogável do sucesso, onde toda a nobreza de espírito se desconhece. Narrativa conhecida e sempre a justificar-se na cor do dinheiro que pequenos iluminados concentram, como se fossem portadores de qualquer capacidade de transformar a sociedade.

A história é antiga. Partidos alimentam chefes de fila que depois agradecem, do alto da sua benevolência. Encontrar em Portugal um banco que não esteja sob suspeita de corrupção ou má gestão é um milagre absoluto. O BES foi essa revelação que nem um património de família importa, antes e sempre a ganância total. 

A EDP que pratica a energia, das  mais caras da Europa é um dos casos mais gritantes de favorecimento. Como as casas construídas neste país são mal calafetadas, pois a generosidade do sr. Mexia é intemporal, é uma pena, ele próprio não calafetar a sua empresa a uma ética de respeito pelo território e pelas pessoas. Estamos em Portugal. Isso é pedir de mais.

Os favores praticados há mais de uma década por sucessivos governos são exemplares. A EDP do senhor Mexia foi amplamante favorecida nos contratos de rendas. Com esse esclarecido da gestão pública, dado pelo nome de José Sócrates, a EDP passou a ter a garantia de construir as barragens que lhe apetecesse, independentemente, de todas as questões ambientais, patrimoniais e de memória envolvidas. Até as chancelarias souberam ser instrumentadas para o superior interesse da EDP.

Ainda ressoam no ar as palavras proféticas de um dos sábios de economia, o jornalista Camilo Lourenço que declarava, entre piadas de infantis jornalistas e música cor-de-rosa que o senhor Mexia era o "CEO do Universo", quem sabe de todas as galáxias. Percebe-se bem onde alguns constroem o seu grande potencial empreendedor.

Portugal é isto. Um conjunto de iletrados funcionais de democracia, onde se patrocinam as relações entre empresas, política e rede de influências. Não mudou muita coisa. Tudo na mesma, a aprência de democracia. Exemplo maior será igualmente o de Daniel Proença Carvalho, um iluminado que consegue ser advogado de figuras politicas de óbvia corrupção e ao mesmo tempo liderar um grupo de comunicação social. As televisões e jornais cor-de-rosa ainda conseguem entrevistar algumas dessas figuras. Não se apoquentem. O desfile de palavras velhas do senhor advogado em salas fechadas à luz ilumina todas as dúvidas. 

A decadência do País é longa. Mantém-se numa crise espiritual, onde não se reconhecem valores culturais, onde a educação não serve para transmistir uma herança civilizacional e onde ninguém sabe responder à importante questão, qual é o nosso ideal de sociedade, que valores temos? Perguntas inoportunas, num país que se vê ao espelho e só vê passado.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Leituras - Marcovaldo

"Basta começar a não aceitar o próprio estado presente e sabe-se lá aonde chegar: agora Marcovaldo para dormir precisava de qualquer coisa, que ele não sabia bem o quê, já nem um autêntico silêncio completo lhe bastava, mas sim um fundo de rumores mais macio que o próprio silêncio, uma leve brisa que passa pelo mais denso do bosque, ou um sussurro de água que brota e se perde..." (1)

Marcovaldo, ou as estações na cidade é um pequeno livro de Italo Calvino que nos dá a dimensão do homem prisioneiro na cidade, quase fechado ao mundo natural. Marcovaldo é o registo da sobrevivência de grupos humanos, entre casas modestas, o trabalho mal pago e uma burocracia dos ambientes. Marcovaldo é o retrato da cidade massificada, das ausentes possibilidades de viver em comunhão com a natureza, esse mundo de plástico e veneno que tudo destrói, os sonhos mais simples, a vida mais perfeita.

São as cidades burocratizadas, as metrópoles do consumo, como um valor de vida, de espelho face a todos os outros. A esperança, a fazer sonhar Marcovaldo, tantos como ele, de que também circulará nas suas necessidades, o escasso dinheiro e o acesso a bens essenciais. Cidades de egoísmo, de desfile de vaidades e da abnegação dos excluídos. Marcovaldo, ou as estações na cidade é uma sátira construída com o uso da ironia para desvendar tipos humanos, formas de urbanidade e a sua viagem em espaços, apenas aparentemente abertos.

Cidades com o natural na sua periferia, como um jardim zoológico, onde o silêncio e o verde estão domesticados, para a distância do olhar, evasivos passos de instantes. Cidades sem imaginação, percorrida por multidões, onde pequenas mudanças climáticas faziam sonhar Marcovaldo com o quotidiano liberto da prisão em que se funda. Cidades servidas por pessoas que alimentam um fluxo de necessidades, de desejos alheios e que não lhes devolvem o sonho, uma equilibrada forma de humanidade.

Cidades de imagens, de ruído, onde nada redime vidas, "de uma tristeza desbotada e pardacenta". E, no entanto uma simples planta podia num canto esquecido compor com as gotas de água um verde brilhante, alargar o natural nos sonhos de um Homem. Esse homem mal pago, de carências múltiplas e que via em pequenos momentos uma outra cidade, "uma cidade de cascas de árvore e escamas e nervuras por baixo da cidade de tinta e alcatrão e vinho e estuque" (2). Marcovaldo, um homem perdido na cidade, era esse homem à sua margem que imaginava os olhos dessa invisibilidade, a luz mais cadente do sonho.

(1; 2) - Italo Calvino. (2014). Marcovaldo, ou as estações na cidade. Lisboa: Teorema.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Leituras - LisboaLeipzig1

“Gostaria que sobrevivesse a afirmação que nós somos epifanias do mistério, e mistério que nos nossos balbuciamentos se desenrola.” (1)

A palavra foi-nos dada como ferramenta, como oportunidade viva de nomear as coisas, de encontrar formas de identificar a melodia das coisas e fazê-las integrar no que vemos. A palavra é tanto isso, como a expressão de uma Beleza, um quadro dourado de musas, aquilo que nos encanta, como um assombro, sem que o saibamos explicar. A palavra é esse artefacto de composição e esse deslumbramento. 

Com Maria Gabriela Llansol a palavra é uma narrativa à descoberta do corpo e de como ele se desenha naquilo que ela chamou "cenas fulgor", por onde observamos as formas de um mistério, a força ser ser e o Belo. Palavras, como um oráculo que fascinam e nos interrogam. Palavras difíceis, para habitantes da noite, ou viajantes de estrelas invertidas. Palavras belas a procurar decifrar a visão e o que nela nos afasta uns dos outros, uma forma de incomunicabilidade, quase uma ferida que separa a ternura do orgulho.

Essa "história silenciosa", onde o amante das coisas se esqueceu de apresentar a contemplação da miragem, o desejo mais de uma epifania. Tudo isso, os bens da terra: "o conhecimento, a abundância, a generosidade, o prazer do amante e a alegria de viver." (2)

(1; 2) - Maria Gabriela Llansol. (1988). LisboaLeipzig1. Lisboa: Rolim.

sábado, 20 de maio de 2017

Crescemos 20 centímetros, ..., mas encolhemos...

Isto de ser desmancha-prazeres não é propriamente muito agradável, mas lá terá de ser. A Pátria está mais uma vez a atravessar um espasmo nacionalista por causa da vitória dos irmãos Sobral na Eurovisão. Isto é por surtos, agora vai haver 15 dias de celebrações, cheias de grandes frases, cheias de peito feito, por parte de quase toda a gente que nem sabia que Salvador Sobral existia. Como agora se diz, “as redes sociais fervem”, e, quando elas “fervem”, a comunicação social, que devia ser menos excitável, perde o equilíbrio. 

Subitamente tudo parece possível, o interesse pelo português sobe em flecha, o lirismo passa a receita universal, Portugal é o maior, e duas pessoas, os irmãos Sobral, passam do anonimato para heróis nacionais. É bom, é cómodo para toda a gente, mas, com a excepção dos irmãos e de quem os ajudou e apoiou, este sucesso tem a característica habitual do modo como nos “auto-estimamos” com o trabalho e a dedicação dos outros, ou seja, sem trabalho próprio, sem esforço — cai-nos no céu. É por isso que é politicamente útil e utilitário, porque civicamente barato e psicologicamente agradável.

Ninguém o disse melhor que o senhor Presidente da República, que afirmou que “a vitória na Eurovisão deu 'mais 20 centímetros' aos portugueses”. Sim, excelente, andamos todos com mais 20 centímetros, mas onde é que está o metro e meio que perdemos como nação há 20 anos para cá, com a perda de poderes do Parlamento português, com a assinatura de tratados como o Orçamental, com a subjugação a um modelo de crescimento medíocre em nome das “regras europeias”, com acordos como o Acordo Ortográfico, que fez proliferar as normas da ortografia do português, em vez de as unificar, ficando nós com a mais pobre, com os cortes no ensino da língua e da projecção da cultura, com a ênfase na diplomacia económica e o definhar das instituições como o Instituto Camões?

O mais grave de tudo é que os 20 centímetros que o Salvador Sobral trouxe são em grande parte mérito dele, e o metro e meio que perdemos é demérito nosso. Foi o resultado de uma política de dolo que a União Europeia usou, com destaque para ao Tratado de Lisboa, que tirou às escondidas e sem debate público poderes que ninguém conscientemente deu à União, em detrimento da soberania nacional, foi o resultado dos desastres de Sócrates que nos levaram ao resgate e da política para forçar eleições em 2011 do PSD, foi o resultado da nossa apatia cívica face ao que é verdadeiramente importante, em contraste com as excitações futebolísticas. Foi o resultado de um sistema político no qual a dimensão cultural, histórica e expressiva da língua e da sua ortografia foi deitada ao lixo, por uma espécie de engenharia diplomática que se revelou um desastre, ficando todos pior do que o que estavam.

Nós gostamos da vida fácil, anómica, civicamente alheia e, salvo raras excepções, não somos voluntários para quase nada, não temos causas a não ser as mediáticas nestes surtos, somos mais clubistas do que patrióticos, deixamos estragar o que de bom ainda temos, mostramos uma indiferença egoísta face ao trabalho dos outros, a quem atribuímos sempre más intenções, exibimos a nossa ignorância com cada vez com mais arrogância, possuímos a atitude da aldeia, punindo a iniciativa, porque há sempre alguma coisa que está mal, e depois vampirizamos, para alimentar a nossa “auto-estima”, o trabalho e o mérito alheio. Há razões sociais para ser assim, a mais importante é que somos muito mais pobres do que aquilo que pensamos que somos, e temos um caminho ainda longo até termos essa força cívica que faz as nações fortes. Se fosse assim, não “engolíamos” o que engolimos, por inércia, por preguiça, ou porque protestamos pouco e mal.

Eu não tenho muitas ilusões sobre o que ocorreu nos anos imediatamente a seguir ao 25 de Abril. Sei o papel que tinham estudantes que se descobriam proletários e como muitas organizações com nomes pomposos e revolucionários eram uma inexistência e, acima de tudo, nem eram “de trabalhadores”, nem “populares”, muito menos “proletárias”. Sei também do autoritarismo que percorria muitas ideias políticas, do enorme machismo e sexismo existente, das inúmeras ficções, teatros e enganos desses anos do final da década de 70. Mas estou neste momento a organizar mais de mil fotografias desses anos tiradas por militância e não pela arte da imagem, e que só em parte tinham intenção documental. E essas fotografias revelam um momento excepcional da vida portuguesa, menos político do que pensávamos na altura, mas mais social, altruísta e, à falta de melhor palavra, esperançoso. De facto, o passado é um país estrangeiro.

Numa das fotos, um operário da construção civil conserta o telhado de uma casa ocupada para uma associação popular. Percebe-se que sabe o que faz, não é um estudante trasvestido de operário. Veste pobremente, usa bóina e tem os sapatos certos para andar em cima de um telhado. Está a trabalhar de graça, talvez pela causa que iria dar nome à casa ocupada, talvez porque arranjou novos amigos e uma forma de companhia a que nunca tinha tido acesso, ou talvez porque sentia que o seu trabalho tinha uma dignidade diferente. Ou talvez por coisa nenhuma, mas estava. 
Noutra fotografia, uma mulher de bata, que se percebe ser igualmente pobre, talvez dona de casa, talvez operária, talvez trabalhando na limpeza, rega umas plantas envasadas em latas, também numa associação popular, daquelas que proliferaram nesses anos. Talvez ela apenas gostasse de flores e lhe custasse o desprezo a que, em nome da revolução, eram votadas, talvez já as regasse antes e não queria que morressem. Seja o que for. Estas faces e estes corpos teriam certamente as mais genuínas das emoções pela vitória de Salvador Sobral na Eurovisão. Mas não se ficavam por aqui, tinham algumas esperanças que nós não ousamos ter. E temo que os espasmos nacionalistas com as canções e com o futebol tenham ocupado algumas dessas esperanças, transformando-as em egoísmos.

Nunca me esqueci de um dos mais notáveis ensaios de E. P. Thompson sobre um livro de George Orwell, chamado The Road to Wigan Pier. Thompson refere a profunda empatia que Orwell tinha perante uma visão fugaz da tristeza e solidão de uma mulher num dos subúrbios operários do Norte de Inglaterra, apanhados pela Depressão e pelo desemprego. É para esse olhar e para o “movimento” da atitude de Orwell que me volto nestes dias como antídoto para a facilidade e para o facilitismo social, para as profundas perdas de dignidade e soberania, de liberdade e autonomia, que aceitamos todos os dias por preguiça mediatizada, por “auto-estima” de plástico. Tenho consciência de que há muitas contradições, ou sentidos contraditórios, neste artigo. Às vezes é assim.
José Pacheco Pereira, "Crescemos 20 centímetros com a vitória na Eurovisão, mas encolhemos metro e meio nos últimos anos", in Público, 20.05.17

domingo, 14 de maio de 2017

Leituras - Fantasmagorias

"Como é bela uma rua no Inverno! Ao mesmo tempo explícita e obscura. Aqui, é possível traçar vagamente avenidas direitas e simétricas feitas de portas e janelas; aqui, debaixo dos cendeeiros, flutuam ilhas de luz coada, por onde passam, rapidamente iluminados, homens e mulheres que, apesar de toda a sua miséria e desmazelo, transportam qualquer coisa de irreal, um ar de triunfo, como se tivessem fugido da vida, de modo que a vida, iludida por quem a despojou, erra sem eles. Mas, mesmo asssim, ainda estamos a deslizar suavemente pela superfície das coisas." (1)

Em diferentes latitudes, a cidade surgirá no século XX como uma grande metrópole, onde uma atmosfera definirá grandeza e misérias humanas, ruínas e sonho, imaginário do fantasmagórico. Virginia Woolf viu na Londres dos anos vinte do século XX, "um poema", "uma história" que se revela nos seus passeios pelas suas ruas e espaços. A cidade e Londres em particular foi para a autora de As Ondas uma personagem essencial da narrativa literária por ela criada nas primeiras décadas do século XX.

Já em Mrs. Dalloway Virginia Woolf nos revela essa deambulação pela cidade, o reconhecimento de ruas, a sua toponímia, a sua atmosfera, onde circulam personagens de diferentes tempos que se inscrevem como uma intimidade. A cidade como elemento formador de uma memória, onde circulam os espaços afectivos de diferentes pessoas, onde cada um se defronta com um mundo interior inacessível e um exterior, capaz  de construir uma evasão no tempo. 

A cidade integra-se num movimento social e cultural e faz das suas ruas, dos seus edifícios um construtor de vivências. Estas manifestam-se entre a multidão que habita um urbanismo explosivo de verticalidade, espaços concentrados de um efémero, por onde a fantasmagoria se ininue de um modo persistente. A atmosfera de fantasmagoria apreende-se na iluminação pública, ainda a criar atmosferas de imprecisão, de indefenível, ou dessa junção de real e visonário, um estado preparatório de um pensamento.

A cidade formula uma atmosfera, onde estruturas físicas paracem dotadas para uma certa forma de viagem que se realiza na descoberta de objectos e que eles próprios são indutores da ideia de evasão, mas também instrumentos de um registo como o lápis ou os livros de uma livraria antiga. Viagem em si por aquilo que ela desvenda, pela recuperação de um tempo que se perdeu e a sua integração no presente, no quotidiano que se vive. Viagem que edifica um pequeno momento de ternidade, quando essas relíquias se erguem para nós.

(1) Virgina Woolf. (2016). Fantasmagorias. Lisboa: Feitoria dos Livros.

domingo, 7 de maio de 2017

O País das aparências

A Democracia precisa de uma contínua forma de esclarecimento, de denúncia da mediocridade que esconde o pensamento ideológico feito da aparência com que alguns querem impor a sua realidade. Tempos houve em que se pensou que a informação era a ferramenta condutora de um esclarecimento da sociedade e nesse sentido um instrumento de transformação social e cultural. Bastava pois ter os meios que a função de cidadania seria incentivada. 

A edição do jornal Expresso de 06.05.17 e as declarações de Rui Moreira num evento social revela-nos a aparência com que a informação é dada nos circuitos de media, a aparência acrítica da realidade. Miguel Sousa Tavares numa linguagem dominada por imensa animosidade, para não lhe dar outro nome, faz aquilo em que os comentadores são hábeis, o seu portefólio de ideias, onde se adivinham palavras ouvidas noutros espaços. Às vezes superam-se. Foi o caso. As ideias surgiram num tom pouco amistoso sobre o que já sabemos. A Função Pública é formada por um monte de preguiçosos, com férias constantes, o investimento no emprego de precários um desperdício luxoso de recursos, a extrema esquerda e direita caminham para valores idênticos e aos mortos não é devido nenhum reconhecimento.

Todo o seu discurso é uma argumentação maniqueísta que não reconhece a diversidade conjuntural, nem o diferente papel que diferentes grupos podem ter na sociedade. O texto não é um comentário sobre a realidade, é uma opção ideológica. É um direito seu, embora nada explique sobre as diferentes arestas de uma sociedade. O jornal Público também já tem esta vertente em que se adivinham as palavras sábias de comentadores. O Expresso parece querer lá chegar. Sendo legítimo nada tem a ver com informação.

No caderno principal do conhecido semanário, na penúltima página, um think thank despreza a legítima vontade dos cidadãos querem proteger a costa portuguesa, com um artigo de linguagem arrogante, cujo título denuncia uma vez mais uma ideia maniqueísta sobre os outros, Com o título, "... é a economia, estúpido!", é um panfleto pelo comérico do petróleo e do gaz que possa existir na costa portuguesa e revela como os direitos dos cidadãos devem estar hipotecados aos interesses económicos de grupos económicos. Esta será mais uma história de sucesso, dos "espertos", nessa longa epopeia da história da energia que na EDP tem servido a epifania nacional.

Na luta essencial para revelar as aparências do discurso, Rui Moreira deu um contributo de gigante. Afirmações de excepcional cidadania, "de que poderemos voltar a ter uma ditadura", ou "que o 28 de Maio de 1926 foi aceite por todo o povo", revela-nos um discurso feito de um desconhecimento da história e a sua utilização em contextos que só se podem relacionar com uma ideia ideológica.

A candidatura do autarca há quatro anos à Câmara Municipal do Porto foi uma lufada de ar fresco e quase nos fez acreditar que a cidadania por ser cumprida na gestão pública, como uma possibilidade das pessoas. A sua candidatura fez-nos  ter a esperança que cidadãos independentes podiam chegar sem lógicas partidárias a lugares importantes da gestão da sociedade. Rui Moreira esqueceu-se de várias coisas essenciais.

Esqueceu-se que é o Porto que lhe dá dimensão, que é ele que lhe permite construir uma ideia aberta e participada da cidade. Acabou, infelizemente, por cair naquilo que os políticos lusos são mestres, a utilização do poder para a sua própria imagem, o eu que supera qualquer conjunto. Estes três casos dão conta dessa ideia de "iluminação" sobre os outros que nada vêem. A independência de pensamento é tão rara em Portugal, como a água no deserto. Não é por acaso que vivemos na amnésia, a incapaz forma de reflectir sobre a realidade. Todos os dias os media são este show de cidadania. História à sombra da ideologia, o particular como visão do geral, a arrogante esquecimento pelas pessoas, um coração sem respiração.

Imagem - Copyright - Milene Seita

segunda-feira, 1 de maio de 2017

Leituras - Gente Independente

 “(…) estou de acordo com o nosso rei das montanhas em que se olharmos para os ideais das guerras com um olho e para todos aqueles homens e mulheres que são destituídos de vida e de saúde com o outro, então não é de admirar que às vezes nos visite o pensamento de que porventura seria melhor que os homens se esforçassem mais por poupar vidas humanas em lugar de ideais. Porque se os ideais não visam fomentar a vida humana aqui na Terra, mas matar homens aos milhares, ora então podemos perguntar-nos se neste caso não seria mais plausível ficarmos completamente destituídos de ideais, embora uma vida assim fosse naturalmente vazia. Porquê, se os ideais não são a vida e a vida não são os ideais? Logo, o que são os ideais? E o que é a vida?

O Independent considera-o o livro do século e mesmo sabendo que as generalizações são muito redutoras e feitas por vezes de apreciações  precipitadas, neste caso é uma classificação que se compreende pela dimensão da escrita que encontramos, no livro de Halldór Laxness, Gente Independente. O livro publicado em 1935 e que permitiu a Lalldór Laxness o Nobel da Literatura em 1955 é uma epopeia que embora partindo de uma situação particular, a Islândia do início do século XX e a sua história torna-se uma narrativa universal por aquilo que envolve a sua construção.
Gente Independente tem em Bjartur uma criação fantástica que o coloca ao lado de um leque de personagens essenciais da Literatura. Bjartur tem um sonho, ser um homem independente, pois para ele, o maior desejo do homem é a sua liberdade. A liberdade carece de independência e assim a sua maior conquista na vida é construir essa independência. Ao lado de Bjartur existem um conjunto de personagens que nos dão um retrato da Islândia e uma forma de vida muito particular.

Gente Independente é uma composição humana à procura de um sentido humano da independência numa terra de condições geográficas muito difíceis, mas também de conquista de um modo de felicidade na terra dos homens. As análises da vida social são integradas num esforço humano de superação e numa descrição de paisagens naturais de grande beleza, de grande afirmação do mundo natural.
Gente Independente é um livro monumental, pela dimensão,  pela temática, pela interrogação ao mundo social, pela dureza de muitas das opções feitas, das vidas vividas, mas é também um livro especialmente terno. Gente Independente consegue ser comovente na história de um homem, de uma natureza irónica fascinante, uma pronunciação de verdadeira liberdade, o pensamento criador de uma acção, mas também revoltante por aquilo que nos faz viver.

A leitura do livro não é fácil pois a dimensão dos parágrafos e as tensões propostas na luta das personagens implicam muito esforço. É um grande livro que nos faz emergir numa atmosfera que em muitas circunstâncias queremos pertencer, sobretudo estar junto de Bjartur e da sua luta estóica, indómita pela conquista de um ideal a que tenta juntar um sentido de compaixão e de amor pela família. 

A luta de Bjartur é a tentativa de construir uma vida livre e digna. O final do livro acaba por ser uma decepção, pois após a conquista da sua independência, a formulação de algum conforto retira-lhe a liberdade. Fica a esperança sempre a reconstruir as perdas e o que sobra dela. Um livro mágico e de uma beleza estonteante, no sentido mais puro que a Literatura pode ser. Gente Independente acaba por ser uma metáfora real sobre a Islândia, o gelo e o fogo. E nesse sentido Bjartur é a sua melhor forma de a compreender, o homem e a natureza, o social e a liberdade.

domingo, 30 de abril de 2017

Leituras - O estado do bosque

Espanta-me sentir que o verde-azulado da paisagem é mais belo do que alguma vez foi. Rosas espalhadas pelo vale. Chega até mim o seu perfume. As pétalas são como brasas no gelo. Não sei explicar, mas tudo ganha uma beleza  que antes não tinha. Silenciosas espaços abertos."

José Tolentino Mendonça cultiva uma sabedoria que se alimenta dos textos que fizeram a tradição cultural do Ocidente e lhe deram um conteúdo civilizacional. O mundo grego, naturalmente, a herança latina, o antigo e o novo Testamento e um sentido próprio de encontrar o silêncio, os feixes de luz nos espaços que fazem a vida do homem. A sua poesia interroga a memória, a casa, os espaços do mundo, como formas de conhecimento. 

Se a poesia é a formulação de uma paisagem que se acende sobre o vivido, o observado, o sentido, a de Tolentino Mendonça dá conta desse processo. O que não deixa de ser um enigma num homem que veste os rituais e os símbolos de uma religião, que tem ela própria sido demasiadas vezes insensível à respiração humana.

O estado do bosque expressa essa procura pela essência do que o Homem vive, das suas experiências e a busca de uma aprendizagem feita entre os elementos físicos do mundo. Texto de natureza dramática, O estado do bosque dá-nos sete cenas e cnco personagens, fazendo a recuperação de um tempo primordial, o que afasta a técnica, a massificação de comportamentos para nos iluminar na beleza que nos rodeia, na luz ao nosso dispor. 

E, se nessa luz mora uma tranquilidade, nós nos religamos a uma profunda ligação ao mundo e por isso mesmo um conhecimento que nos leva a ver "o rosto de Deus". E é evidente que esta religação não se  alberga em templos feitos por homens , mas na estrelas que nos iluminam. Iluminação de um universo que nos acolhe, que diferentes povos conhecem em línguas, como cantos, estrelas de um cosmos. "Canopus", ou "Kali Nub", onde "o mundo parece abrir-se" (p.61).

É a sua descoberta em cada homem, essa estrela, como também uma casa, um bosque, uma palavra, uma linguagem onde repousem o brilho da vida que se torna a anunciação de uma esperança. Aquela que proclama em nós uma viagem,  o amplo conhecimento do mundo. O estado do bosque  é um pequeno livro cheio de imagens sobre o que somos em civilizações sitiadas por muitos nadas, com pessoas em sentimento de vazio. Este pequeno texto dá-nos um conjunto de sinais que são o da nossa própria respiração.

Afinal, esse caminho descoberto no natural, a viagem no interior do coração conduzirá a essa essência fundamental: "Tu és a árvore. Tu és o sopro do bosque. Tu és o cheiro forte e amargo dos fetos. Tu és a linha de névoa flutuante. Não digas: aprendo a caminhar na escuridão. Diz somente: sou" (p. 32). Livro publicado há já três anos, O estado do bosque é um texto dramático que vale a pena descobrir, ou reler. Nele encontramos uma sabedoria para iluminar tempos perdidos em tecnologia, em écrans de pouco brilho interior.  

José Tolentino Mendonça. (2013). O estado do bosque. Lisboa: Assírio & Alvim.

domingo, 16 de abril de 2017

Leituras - As mães da Síria

A linguagem foi uma criação de uma civilização, de um homem, de uma forma de dar nomes às coisas. Os nomes das coisas eram a forma de compreender algo, era o reconhecimento das coisas, o sentido estético de uma forma que era igualmente uma experiência. O desastre humanitário na Síria, o modo como se aproveita a vida humana para os mais funestos objectivos faz-nos recordar que a linguagem já não é capaz de nomear o maior desastre contra a vida humana. Alepo é a morte da lingugam, pois não há formas de reconhecer a vida. Isabel Aguiar, de um modo alegórico disse-o, com a melhor forma possível. A ABC News, empresa de media dos Estados Unidos patrocina uma banda desenhada sobre esse desastre. É uma outra forma de fazer compreender o incompreensível.

"Talvez um vento áspero vindo do deserto
Transporte o meu coração para um mais além
Onde jejuarei para sempre
...
Cidade do mundo a mais antiga
Neste princípio escaldante de Julho
Morrerei numa pérpetua aliança
Aos astros e aos planetas
...
Quero ser uma árvore queimada nesta tempestade
Que a todos mata
Desde as formigas aos confins do género humano
Tudo é alquimia de sofrimento
...
Pão do sangue do cordeiro
Amassado com sal insano
...
Tudo é chama infernal que não saberei quando cessa".

Isabel Aguiar. (2016). "VI", in As mães da Síria. Lisboa: Licorne.