sábado, 12 de agosto de 2017

A melodia das coisas (III)

XI

E a arte mais não fez do que mostrar-nos a confusão na qual nos encontramos a maior parte do tempo. Ela angustiou-nos em vez de nos tornar calmos e silenciosos. Provou que cada um de nós vive nuam ilha; só que as ilhas não são suficientemente distantes para permanecermos solitários e tranquilos. Uma pessoa pode incomodar outra, assustá-la ou persegui-la com lanças - mas ninguém pode ajudar ninguém.

XII
Para passar de uma ilha para a outra só há uma possibilidade: saltos perigosos, nos quais se arrisca mais do que os pés. Daí resulta em terno vaivém de pulos, acompanhado de acasos e de situações ridículas, pois acontece duas pessoas saltarem uma para a outra, ao mesmo tempo, de tal modo que só se encontram no ar e, depois desta troca penosa, continuam tão longe - uma da outra - como antes.

XIII
Isto não é de modo nemhum surpreendente, pois, na realidade, as pontes conduzem a outras, que se transpõem com um belo passo solene, não em nós, mas atrás de nós, exactamente como nas paisagens de Fra Bartolomeo ou Leonardo da Vinci. E é assim que a vida se aguça, convergindo nas diferentes personalidades. Mas, de pico para pico, a vereda segue pelos vales mais amplos.

XIV
Quando duas ou três pessoas se reúnem, não é por isso que ficam juntas. Elas são como títeres cujos fios se encontram em diferentes mãos. Só quando uma mão os maipula a todos, eles ficam submetidos a uma acção comum que os obriga a fazer vénias ou a agredirem-se. E também as forças das pessoas se encontram ali, onde os seus fios terminam numa mão soberana que os segura. 

XV
Elas só se encontram na hora comum, na tempestade comum, naquela sala onde se reúnem. Só começam a entrar em contacto umas com as outras quando atrás delas se ergue um fundo. Têm de poder referir-se a uma pátria una. Têm de mostrar ao mesmo tempo umas às outras as credenciais que têm em sua posse e que encerram todas elas o sentido e o selo do mesmo príncipe. 


Notas sobre a melodia das coisas / Rainer Maria Rilke ; trad. Ana Falcão Bastos. - [Lisboa] : Licorne. 2012. - [22] p. ; 21 cm. - Tít. orig.: Notizen zur Melodie der Dinge. - ISBN 978-972-8661-79-3
Imagem:  Mãe e criançaFra Bartolomeo, Alta Renascença, Itália.

terça-feira, 20 de junho de 2017

O incêndio de Pedrogão - a informação e as imagens

Nas televisões, o incêndio de Pedrógão Grande resultou num avatar técnico-totalitário da “obra de arte total”, na qual se dá uma confrontação dialéctica das várias artes. Com as imagens captadas pelos drones, a SIC compôs um filme com uma banda sonora que não era a Cavalgada das Valquírias, o excerto de uma ópera de Wagner a que Francis Ford Coppola deu uma grandiosa forma cinematográfica em Apocalypse Now, mas tinha a pretensão da “grande arte” wagneriana.

Diz-se que os pilotos operadores dos drones, combatentes de uma guerra à distância, antes de disparar gritam de júbilo: “Oh, que belo alvo!” A nauseabunda estetização da catástrofe servida ao espectador — o “belo” cenário trágico resultante das montagens e encenações feitas nos estúdios das televisões — também mostra que alguém, certamente uma equipa, rejubilou com os seus belos alvos que lhes fornecem matéria para uma grande produção a baixo preço, para um filme-catástrofe que não precisa de efeitos especiais, só precisa de uma montagem bem ornamentada e música a condizer. 
Tudo devidamente sublinhado por textos, legendas e designações (por exemplo, “a estrada da morte”) que remetem para as grandes ficções de Hollywood. Às vezes, sobre essas imagens sobrepõe-se uma voz-off que lê um texto a imitar qualquer coisa de literário, a sublinhar a operação que reduz a tragédia real a uma opereta obscena. A estetização é uma violência exercida sobre as vítimas da catástrofe e, paradoxalmente, tem o efeito de uma anestesia aplicada ao espectador.

Para as televisões, para a maquinaria dos directos e ao vivo, uma catástrofe como esta é um momento do sublime. Se a emergência dessa categoria estética que é o sublime está relacionada com os sentimentos de medo e de terror perante algo que excede toda a medida, é preciso no entanto que a ameaça que eles representam seja suspensa para que da dor nasça o prazer. As reportagens da televisão, muito especialmente as imagens estetizadas que passam a servir de separadores ou de fechos do noticiário, procedem a esta conversão da dor em prazer. São maléficas e eticamente execráveis. Devemos perguntar como é que os jornalistas dos vários canais de televisão se relacionam com elas.

O sublime, como sabemos, tem a dimensão do irrepresentável, deixa a faculdade da imaginação e a fala aniquiladas perante algo que tem uma potência ou um tamanho desmesurados. Por isso, é sempre ocasião para o uso de meios retóricos curtos, mas enfáticos. Para não ficarem em silêncio, para não dizerem pura e simplesmente que não têm nada a dizer ou que tudo o que são capazes de dizer é trivial, os repórteres recorrem aos parcos meios linguísticos que têm à sua disposição. Por exemplo, a palavra “dantesco” (para além de uma certa dimensão, o incêndio é sempre “dantesco” e configura “o inferno”). E porque os processos de descrição, na televisão, consistem sobretudo em mostrar, em dar a ver, entra-se sem pudor na exibição das imagens obscenas. Como vimos, alguns repórteres nem hesitaram em aproximar-se dos cadáveres e oferecê-los aos espectadores como imagens ostensivas. Como uma personagem do filme de Francis Ford Coppola, eles poderiam dizer: “I love the smell of napalm in the morning.”

Face à falta de meios linguísticos (e de tempo para qualquer elaboração mais cuidada) e porque a televisão pratica quase como ideologia jornalística um realismo ingénuo que acaba por nunca produzir o desejado efeito de real, os repórteres ou debitam lugares-comuns que não têm nem valor expressivo nem descritivo, ou recorrem aos testemunhos. Põe-se um microfone e uma câmara diante de pessoas em estado de choque e pede-se-lhes que elas testemunhem, que elas descrevam, que elas superem a afasia em que a situação as colocou. A violência é inominável e a televisão torna-se patética, no duplo sentido da palavra: porque quer mostrar o pathos, dê por onde der; porque exibe a estupidez na mais elevada expressão.

Devemos novamente perguntar: a que coerção estão submetidos os jornalistas para que aceitem o papel de idiotas? Ou fazem-no voluntariamente? Os jornalistas tornam-se então indivíduos ávidos, paranóicos, como os amantes que não se satisfazem com um simples “amo-te”. Desconfiados com a declaração tão lacónica, achando que o amor é uma imensidão que precisa de se dizer com mais palavras, perguntam: “Amas-me como?” E o outro responde: “Amo-te como se fosses o mais doce dos frutos.” E aí começa um encadeamento de metáforas cristalizadas, de estereótipos. Assim são os jornalistas munidos de microfones e de câmaras: não desistem de querer extorquir as palavras e a alma aos seus interlocutores; não deixam de querer arrancar testemunhos a gente moribunda ou a viver a experiência dos limites.

Esta maquinaria é totalitária, expansiva, reduz tudo a uma peça integrada. Este jornalismo é um aparelho ao serviço da lógica da “partilha” da comunicação, da informação e da opinião da nossa época. A utilização dos drones realiza na perfeição esta atitude predadora de quem se acha munido do olho de Deus: o olho que abarca, na vertical, a totalidade do mundo. Era fatal que a televisão viesse a pôr ao seu serviço o drone de omnivisão, dotado de uma vista sinóptica, capaz de uma vigilância de largo alcance, “wide area surveillance”, como se diz na linguagem da guerra.

António Guerreiro, "As vítimas dos incêndios e da televisão", in Jornal Público, 19.06.17

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Não é uma crónica,...

Não perdoo à Igreja nunca ter pedido perdão aos portugueses pela sua colaboração activa com a Ditadura e as iniquidades decorrentes dela, a sua total indulgência, desde a primeira hora, com a injustiça, a crueldade, a desigualdade, a intolerância, os campos de concentração

(Tarrafal, São Nicolau)

a monstruosa polícia política, a violência da censura, o desprezo pelas mulheres, a guerra colonial, a perseguição aos estudantes, aos operários, aos camponeses, a desavergonhada defesa dos ricos, as missas para as criadas, as homilias em que exortavam à obediência aos patrões, a violência para com os sacerdotes e os bispos que ousaram levantar-se contra o Estado Novo, a forma como abençoaram as centenas de milhares de rapazes mandados para África combater as aspirações dos povos colonizados, mandando capelães abençoar aquele horror, apoiar aquele horror, santificar aquele horror

(eu estava lá e vi)

em nome da luta contra o comunismo ateu, em nome da defesa dos valores cristãos, em nome da tolerância, em nome de Cristo. Porque carga de água não tem sequer a simples dignidade de pedir desculpa? Porque carga de água finge esquecer-se? Porque carga de água este silêncio? Eu sou cristão e aprendi a ser fiel até à morte como está escrito no Livro e pergunto: como tem coragem de tocar na Bíblia, como tem coragem de ser hipócrita para com o Senhor? O capelão do meu batalhão em África era um pobre jesuíta que se queixava das instruções que o obrigavam a fazer a apologia do colonialismo em nome do Deus e não tenho a menor dúvida que Jesus o cuspiu da Sua boca. Porque não pede perdão por ter afastado tanta gente da Virtude com as suas atitudes, as suas homilias, até com a utilização ignóbil das pobres crianças de Fátima a quem Nossa Senhora pediu em português

(que outra língua saberiam elas?)

para rezarem pela conversão da Rússia comunista, elas que nem sabiam o que comunismo queria dizer, manobradas sem vergonha pela hierarquia eclesiástica. O que terá sofrido o nosso capelão

(Tenho de fazer isto, tenho de fazer isto, dizia ele)

obrigado a louvar a guerra santa, obrigado a prometer o Paraíso aos nossos mortos, criaturas inocentes condenadas a dois anos e tal de um sofrimento injusto. E a Igreja, passados mais de quarenta, permanece em silêncio, completamente alheada da sua culpa. Isto entende-se? Isto aceita-se? Isto apaga-se? Claro que os filhos das classes altas não iam para a guerra. Conheço filhos dessas classes altas poupados a África com desculpas inacreditáveis. Conheço os seus nomes e conheço as desculpas, desde “incompatibilidade psicológica com o Exército” (posso citar nomes) até “incontinência urinária” (posso citar nomes), até “pé chato” (posso citar nomes), até classificações aldrabadas durante a especialidade (posso citar nomes), e é impossível que a Igreja não soubesse disto. Soube, claro, colaborou. 

E até hoje nenhuma voz oficial dela se ergueu, nenhuma voz oficial dela protestou, nenhuma voz oficial dela pediu perdão a Portugal, nenhuma voz oficial dela pediu perdão aos portugueses, nunca os sucessivos cardeais roçaram sequer este assunto quanto mais falar nele. Pelo contrário: abençoaram o Estado Novo que perseguiu os sacerdotes que ousaram, ainda que só timidamente, levantar a voz contra isto tudo. Perseguiram-nos, expulsaram-nos fizeram-lhes a vida negra. Nem disso a Igreja a que pertenço tem vergonha? Um bocadinho de vergonha ao menos? Limitou-se a arranjar bispos castrenses que aceitaram, apadrinharam, foram cúmplices desta situação. Não temos uma Igreja de Cristo, temos, sob muitos aspectos, uma Igreja hipócrita e complacente. Cristo não foi nunca hipócrita nem complacente: Porque é que a Igreja portuguesa o é? 

Tenho o maior orgulho no meu País, não tenho o menor orgulho nesta Igreja. Se Cristo aqui estivesse vomitá-la-ia da sua boca por não ser fria nem quente. Meu Deus será que nem arrependimento existe? Será que pensa que a memória dos homens é curta? Será que pensa que os portugueses esquecem? Será que não se importa de ser vendilhão do Templo? Será que acredita que vai ficar impune aos olhos do Senhor? Será que imagina que o Senhor não sabe? Será que toma Deus por parvo? Será que cuida que São Paulo, por exemplo, não a varreria? Onde estão as palavras do Senhor? Os Seus ensinamentos? O Seu exemplo? Ainda que em linguagem aparentemente críptica Cristo foi sempre muito claro. E quem quiser ouvir que oiça. A ditadura acabou em 1974, há quarenta e três anos portanto. E nem uma voz até hoje? Nem um simples pedido de perdão, nem uma confissão fácil

– Errei

não existe nenhuma humildade honesta neste silêncio, não existe o simples assumir de uma culpa, de um erro formidável, de um silêncio indecente. Dói-me na alma que a minha Igreja, o meu Deus sejam amesquinhados e esquecidos pelos que se dizem Seus filhos. Tenho vergonha. Tenho nojo. Tenho pena de vós que pagareis por isto. Será que um simples pedido de desculpa não alivia a alma? Parece que não. Por isso, quando morrer, não quero a vossa hipocrisia em torno do meu caixão. Basta-me que a sombra de Cristo ou de um dos seus Anjos se apiede, mesmo de longe, ainda que de muito longe, da minha alma pecadora. Não quero nenhum fariseu junto ao nosso diálogo. Quereria um Homem Justo. Um Homem Justo bastava-me. Onde, na hierarquia da Igreja, da minha pobre Igreja, ele estará?

António Lobo Antunes, “isto não é uma crónica, é um vómito de indignação”. Visão. 8.06.2017.
Imagem - Copyright - Susana Monteiro

quinta-feira, 8 de junho de 2017

A melodia das coisas (II)

VI

Pensa, então, na própria vida. Recorda que as pessoas têm gestos abundantes e empolados e palavras incrivelmente grandiosas. Fossem elas, nem que por um instante, tão serenas e ricas como os belos santos de Marco Basaiti, deverias também encontrar atrás delas a paisagem que lhes é comum.

VII
E há também momentos em que, diante de ti, uma pessoa, calma e límpida, se destaca contra o fundo da sua magnificência. estes são raros instantes festivos, que tu nunca esqueces. A partir daí, amas esta pessoa. Isso significa que te empenhas a copiar com as tuas mãos ternas os contornos da sua personalidade, tal como a conheceste naquela hora.

VIII
A arte faz o mesmo. Ela é o amor mais vasto e mais desmedido. Ela é o amor de Deus. Não pode deter-se no indivíduo, que é apenas o portal da vida. Ela tem de passar através dele. Não pode ficar cansada. para se realizar plenamente tem de actuar onde todos - são um. E quando faz a sua dádiva a este um, todos são cumulados de uma riqueza ilimitada.

IX
Como a arte se encontra longe disto, pode ver-se no palco, onde ela diz ou pretende dizer como considera a vida, não o indivíduo no seu repouso ideal, mas o movimento e o relacionamento de muitos. Daqui resulta que ela simplesmente coloca as pessoas lado a lado, como faziam no Trecento, e deixa que sejam elas a criar laços entre si sobre o cinzento ou o dourado do fundo.

X
E por isso, eis também o que se passa. Elas tentam alcançar-se com palavras e gestos. Quase deslocam os braços, pois os gestos são demasiado limitados. Fazem esforços infinitos para lançar as sílabas umas às outras e, ao mesmo tempo, são péssimas jogadoras, que não sabem apanhar a bola. E assim passam o tempo, a curvar-se e a procurar - exactamente como na vida.

Notas sobre a melodia das coisas / Rainer Maria Rilke ; trad. Ana Falcão Bastos. - [Lisboa] : Licorne. 2012. - [22] p. ; 21 cm. - Tít. orig.: Notizen zur Melodie der Dinge. - ISBN 978-972-8661-79-3
Imagem: A morte de Cristo e dois anjos, Marco Basaiti, Alta Renascença, Itália.

O Homem como cinema (II)

É a descrição do substituto quotidiano do paraíso que Edgar Morin nos fala no seu livro, O Cinema: o homem imaginário.  O seu livro não é apenas a meditação sociológica mais subtil sobre "o homem como cinema" que nos foi dado ler, como a primeira grande tentativa de uma ontologia específica do Cinema. (...)
esta meditação vai de resto ao encontro de muitas análises e observações agudíssimas sobre a realidade fílmica levada a cabo por exemplo por José Augusto-França. O seu Charlot (1) é a mais séria e a única profundamente atenta às implicações mitológicas de um universo do cinema que existe em língua portuguesa e indirectamente um escalão no caminho que conduz até à obra de Edgar Morin.

O autor das Stars repensa a realidade humana implicada no factor Cinema, na sua totalidade, tomando-a a sério, não por simples moda nem por desejo de concorrer com esteas universitários célebres, mas por uma meditada vivência das revelações profundas sobre o comportamento de toda uma época e da imaginação humana em geral que o estudo de  homo cinematograficus é capaz de nos fornecer.

Livros como o de Edgar Morin são os únicos que podem acabar com a "doença infantil da reflexão cinematográfica" em que têm nadado nos últimos anos gerações de entusiastas. A discussão de "cienma", mormente a dos "cine-clubes", tornou-se no mundo inteiro o refúgio de um fácil conhecimento verbal, a ocasião única oferecida a falhados de toda a espécie para participar com pouco suor em logomaquias intermináveis.
Como no tonel das Danaides a realidade fílmica  é "dobrada" por um autêntico vazio, o dissolvente supremo que é essa tentativa universal de devorar um texto límpido por uma meditação abusiva e vã, cujo único fim parece ser apenas o de destruir "o filme" para deixar em seu lugar o mútuo fervor daqueles para quem todo o espectáculo é pretexto para se darem em espectáculo.

O cúmulo desse autêntico ritual da impotência é a dissolução praticada pelos "iniciados" em ideologias famosas, a tal ponto drogados que os seus "críticos" mais não são que o resplendor alucinado ou a ressaca triste do olhar pervertido que oferecem a todos a matéria cinematográfica. A bem dizer já não vêm os filmes, sobrepõem à visão o delírio que os distingue do espectador ingénuo e, sem o saber, eles que se dão como os íntimos do novo deus são os seus ateus perfeitos. Esses desmistificadores, ou que como tal se imaginam, são os mistificadores supremos. E sem remédio pois se julgam ao abrigo de toda a mistificação.

A análise de Edgar Morin antepõe aos fáceis juízos abstractos uma adesão à magia original que a realidade fílmica significa. É de dentro de uma fascinação essencial ao Cinema que ele nos fala e, por isso, reconhecemos na sua análise a voz adequada à vivência mas típica do homem contemporâneo. A ideia central de Edgar Morin não consiste em expressar, segundo um método que participa ao mesmo das investigações fenomenológicas e da dialéctica, a aparência banal dessa fascinação cuja existência se confunde com o Cinema mesmo.

A ela dedica Morin, na peugada de outros, excelentes comentários. mas é o mecanismo dessa fascinação que lhe interessa. Uma reflexão sobre os avatares desse fascínio, desde o extáctico da velha fotografia ao dinamismo do cinema, leva-nos à essência desse mecanismo do fascínio. E o paradoxo supremo aparece: a fascinação mesma do Cinema reside no fantástico da realidade quotidiana. O Cinema leva ao paroxismo a fascinação arcaica do duplo, o incrível desdobramento da indesdobrável. Realidade que faz dela, enfim, uma coisa possuída, um sonho acordado.

O "cinema " que desde sempre nós transportámos connosco, a fabulosa fonte de exaltação e terror e deslumbramento que cada qual explora em silêncio, ei-la participada por todos, tornada essa aventura da sala escura, esse êxtase comum. Através dele reencontramos a comunidade há muito fragmentada. Assim, o anel mágico da participação arcaica apagada pela nossa existência civilizada e o anel mágico da participação passa em silêncio de mão em mão. Que maior triunfo que a "sala escura" fascinada pela luz divina da imaginação?

O Cinema é o nosso teatro de sombras chinesas sem verdadeira origem, mais um desses deuses que no século XVIII veio do oriente para encantar a nossa perpétua infância. Um texto de um aficionado barcelonês dos teatrinhos de sombras por certo contaria Edgar Morin. Toda a mitologia que ele...

(1) José Augusto-França, Charlie Chaplin, o 'self-made-myth',1954, Lisboa, edições Inquérito
Eduardo Lourenço, "O Homem como Cinema", in Jornal de Letras, 23.11.2016

quarta-feira, 7 de junho de 2017

A melodia das coisas (I)

I
Não estamos mesmo antes no princípio, vê tu.
Como antes de tudo. Com
Mil e um sonhos atrás de nós e 
sem acto

II
Não consigo imaginar conhecimento mais ditoso
do que este:
que temos de tornar-nos iniciadores.
Alguém que escreve a primeira palavra a seguir a um
travessão
secular.

III
Ocorre-me isto: nesta observação: que nós continuamos sempre a pintar as pessoas sobre um fundo dourado, como os Primitivos italianos. Elas erguem-se diante de algo indeterminado. às vezes dourado, às vezes também cinzento. à luz, por vezes, e frequentemente com uma escuridão insondável atrás delas.

IV
Isto compreende-se. para reconhecer as pessoas, foi preciso isolá-las. mas depois de uma longa experiência é sensato pôr de novo em relação as contemplações isoladas e acompanhar os seus gestos mais amplos com um olhar amadurecido.

V
Compara uma pintura sobre fundo dourado do Trecento com uma das inúmeras composições mais tardias dos antigos mestres italianos, onde as figuras se reúnem numa Santa Conversazione diante da paisagem luminosa no ar límpido da Umbria. O fundo dourado isola cada uma dessas figuras, a paisagem resplandece atrás delas, como uma alma comum, da qual extraem o seu sorriso e o seu amor.

Notas sobre a melodia das coisas / Rainer Maria Rilke ; trad. Ana Falcão Bastos. - [Lisboa] : Licorne. 2012. - [22] p. ; 21 cm. - Tít. orig.: Notizen zur Melodie der Dinge. - ISBN 978-972-8661-79-3

terça-feira, 6 de junho de 2017

O Homem como cinema (I)

O cinema é criador de uma vida surreal" (Apollinaire)

O homem imaginário está em toda a parte. Não existe  outro. este imaginário substancial que é o núcleo ardente do homem exactamente porque é, a sua realidade escapa à imaginação. Pois a única definição do imaginário é uma só: realidade do irreal. É através da presença maciça do Irreal que nós pisamos o continente insólito da imaginação. Distingue-se do puro sonho a estranha vigília com que o acompanhamos. Aí somos e à segunda potência vivemos o que jamais seremos ou viveremos. Esta não-vida é, em negro ou rosa, a mais profunda vida essencial.

Desde sempre os homens souberam dar-se em espectáculo esta não-vida maravilhosa. A nuvem e o pássaro cumprem no azul as metamorfoses de um corpo prisioneiro da gravidade. O mar enrola-se por nós em vagas surdas da nossa concha de silêncio. Tudo é símbolo pois [o] nosso centro está em toda a parte e o círculo não acaba em parte alguma. esta viagem sem termo, engano de engano entre a imaginação e vida, a literatura a foi por nós durante séculos de prodigioso silêncio.
Viajámos da Ítaca à Índia, erramos a vida inteira nos navios dos mil Ulisses por onde todos os aedos nos embarcaram. Sempre nesse silêncio de leitura, silêncio devorando o silêncio, espaço mágico do sonho escrito onde o universo inteiro encontrou, enfim, o seu espelho. As bodas deslumbrantes, os terrores imaginários da nossa vida a sós, imaginação consigo mesma, tiveram por paredes o silêncio puro do espectador solitário.

Em silêncio, gerações de leitores devoraram os sorrisos, o êxtase, as lágrimas dos paraísos literários. Só a poucos, como ao amante de Francesca, a morte deliciosa encontrou de lábios unidos sobre o texto do Sonho. Esse milagre externo estava reservado às ilusões do tablado e às aventuras cantadas da Ópera. O espectador podia viver no palco a aventura sentada do camarim. Tudo é tapete mágico para quem voa. Mas era um voo lento o do palco e do canto. Os amigos e os impacientes caminhavam à sua frente. Faltava um sonho para sonhar a meias que nos levasse de rastos, a respiração definitivamente suspensa atrás das suas asas indiferentes à distância, ao impossível e à morte e ao além dela. Faltava-nos, em suma, o Cinema.

Eduardo Lourenço, "O Homem como Cinema", in Jornal de Letras, 23.11.2016