segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Leituras - O velho e o mar

As nuvens por cima da terra erguiam-se  agora como serranias, e a costa era apenas uma longa linha verde com os montes azul-cinzentos por detrás. A água era agora de um azul-escuro, tão escuro que era quase púrpura. (p. 31)

O velho e o mar publicado em 1952 é um dos livros marcantes do século XX e da obra de um grande escritor, Ernest Hemingway. Santiago, velho pescador desafia-se a si próprio para compreender o mar, os peixes e o modo como os encontrar. Desafio tornado essência de vida, no combate entre o pescador e um peixe enorme, um espadarte, numa luta difícil em que qualquer desfecho resultará sempre na perda do outro. 

O velho e o mar é uma aventura poética, sobrehumana de luta pela sobrevivência, de vitória sobre o perigo, ainda que dessa vitória se perca tudo. O velho e o mar coloca em confronto a natureza e a humanidade, revelando a dignidade desses mundos, as suas características, a sua beleza, mesmo que rodeada de perigos sublimes. O velho e o mar descreve essa luta de superação das próprias forças, a do pescador, a de  um pessimismo céptico pelo que não seja experimentado e a solitária luta individual. 

É ainda  um livro sobre a dignidade e majestade da luta humana, mas também das águas e dos seus habitantes graciosos, ainda que ferozes e combativos e dessa ignorância dos que passam e não compreendem - os turistas. E finalmente O velho e o mar é um livro de uma linguagem muito descritiva, cheia de cores e cheiros, uma escrita fotográfica com os rios de emoções numa luta essencial - ver e pensar o mundo.

domingo, 23 de agosto de 2015

Eleições Legislativas - 2015 (9)

Há uma parte da oposição a este Governo e à coligação que ainda não percebeu no que está metida. (...)  

Mas vejo as coisas porque percebo do que, do lado da coligação, se é capaz de fazer quando se lhes toca nos interesses vitais, e estas eleições tocam em demasiadas coisas vitais para não serem travadas com todas as armas, e algumas são bem feias de se ver. Agressivos de um lado, frouxos do outro. 

E vejo os exércitos juntarem-se, com armas e bagagens, muito ódio social, porque é um combate social e político que se vai travar e o ódio mobiliza as hostes, e muita agressividade. Do outro lado, salamaleques, um medo pânico de falar de "mudança", a quase total ausência de críticas ao Governo, o emaranhar-se em explicações e desculpas. Sempre na defensiva, sempre ao lado, sempre a perder. 

Uma parte da oposição prefere objectivamente que tudo continue na mesma para manter o bastião da identidade, outra passa o tempo em actividades burocráticas e escolásticas, para o interior das suas contínuas divisões, enquanto o "maior partido da oposição" se entretém a mendigar "confiança" certamente porque não consegue lidar com os rabos de palha que vieram de 2011. 

O caso do PS é parecido com aqueles generais franceses de luvas de pelica a almoçar foie gras e champanhe, bem longe da frente, num castelo qualquer, com todo o tempo do mundo, enquanto os seus poilus morriam que nem tordos, ou fugiam para a retaguarda misturando-se com os civis, dependendo de que guerra se tratava. O modo como está o PS é devastador para toda a oposição, afecta as candidaturas presidenciais, permite o ascenso de candidaturas patrocinadas no seio do PS pela coligação, tem o duplo efeito de esmorecer e radicalizar, ambos processos de isolamento que abrem caminho para a assertividade e o espírito ofensivo da coligação. 

A propaganda da coligação, assente num castelo de cartas que ruirá ao mais pequeno vento, como aliás o ex-amigo próximo, o FMI, diz, não é desmontada com clareza e frontalidade, porque os compromissos nacionais e europeus do PS são demasiados. A maioria muito expressiva dos portugueses que recusam este Governo, um dado sempre constante nas sondagens, não encontra no sistema político uma resposta. E, mesmo que existissem novos partidos que dessem corpo a esse descontentamento, a maioria dos partidos representados no parlamento, não quer competição e encarrega-se de os calar na comunicação social, com a colaboração da comunicação social. 

Por seu lado, os portugueses que sofreram, sofrem e sofrerão a crise estão cada vez mais invisíveis. Não desapareceram, o seu sofrimento social aumenta com a passagem do tempo, mas não conseguem ultrapassar o ecrã do "sucesso" que 10 mil ministros e secretários de Estado fazem todos os dias. Num dia são as mulheres, noutro dia são as crianças, no terceiro dia são os velhinhos. É só caridade e bondade a rodos. Com a cumplicidade acrítica de muitos que na comunicação social andaram a louvar as virtudes do "ajustamento" e por isso selam o seu destino também com o destino da coligação. O PS, por sua vez, como andou estes anos todos a fugir da contestação social, continua a preferir os salões. 

José Pacheco Pereira, "PARA QUEM AINDA NÃO PERCEBEU NO QUE ESTÁ METIDO". Abrupto. 14.08.15.
Imagem - © Victoria Ivanova

Eleições Legislativas - 2015 (8) - Ler para compreender (VII)

Foi o consenso em orno deste bem-estar - liberdade, trabalho, Estado social e lazer - que permitiu a estabilidade política, estabilidade que, num aparente paradoxo, levou à destruição desse mesmo consenso. Quer isto dizer que os direitos em Portugal dependem de fortes lutas sociais. E os momentos de estabilidade política, o maior dos quais entre 1987 e 2010, foram os momentos de erosão dos mesmos direitos, pela confiança que a população depositou no Estado e pela escassez de activismo político que deu carta-branca ao poder. Sem esse compreensão é impossível sabermos de onde vimos e para onde vamos. (p. 33)

Para onde vai Portugal é um livro que tenta combinar o ensaio com a análise histórica procurando discutir que caminhos de sociedade se podem concretizar nos futuros anos. O livro inicia-se com o lançamento de uma questão, para onde vai o País? O livro procura oferecer um conjunto de reflexões sobre as possibilidades de um desenvolvimento económico ou de manter e agravar a regressão social. Procura analisar o significado político do Estado social e de como o emprego é uma ferramenta de desenvolvimento do País. Para onde vai Portugal faz uma análise sobre um dos mistérios da história contemporânea portuguesa, a baixa participação política dos portugueses e o modo como as organizações sindicais não conduzem uma participação de denúncia de injustas agregando pessoas em movimentos de protestos. O livro organiza-se nos seguintes capítulos:
  • Cap. 1 - Tudo o que é sólido desfaz-se no ar;
  • Cap. 2 - Para onde vai Portugal?;
  • Cap. 3 - O "Memorando de Entendimento": acumulação por expropriação;
  • Cap. 4 - Para que serve um Estado se não é social?;
  • Cap. 5 - Pão e poesia, sexo e amor: o espectro da humanidade.
  • Cap. 6 - De onde vimos?

Para onde vai Portugal procura muito discutir os fundamentos de uma sociedade bloqueada. Procura incentivar a construção de linhas de relacionamento de sociedade de maior partilha e discussão com as pessoas. Neste sentido promove muito um diálogo ao serviço de um compromisso social transformador. Discute os valores e os costumes e a necessidade de prevenir conflitos sociais que se irão avolumar por uma caminho que tem sido o de capturar a riqueza do trabalho e dá-lo a grupos controlados ao poder.

Esquece um pouco os aspectos simbólicos, como os que Eduardo Lourenço ou José Gil têm enunciado, um real que não se assume no quotidiano. É sem dúvida um livro sobre caminhos que importa pensar. As eleições legislativas são momentos de escolhas e as propostas de Raquel Varela dão um imenso contributo para que sejamos uma sociedade decente e solidária para com os famintos e os audazes de caminhos de felicidade. O livro revela um conhecimento profundo da História Contemporânea e isso dá-lhe linhas de análise que fundamentam um caminho que importa analisar e construir.

Eleições Legislativas - 2015 (7) - Ler para compreender (VI)

No reino da austeridade nunca há cortes cegos. Os seus ideólogos têm sempre uma retórica de justificação preparada que serve acima de tudo para dar uma aparência técnica a decisões que não são senão escolhas políticas. Despedir não é despedir, é racionalizar e isso é a ferramenta de um domínio ideológico sobre as pessoas. A elite económica de Portugal viveu e vive claramente a cima das nossas possibilidades. Capturou o Estado e faz dele o alicerce da sua acumulação de riqueza, descapitalizando-o para o exercício das funções que uma sociedade frágil e pobre exige. Zomba da lei e do interesse público. E, no fim, ainda tem o desplante de fazer para a sociedade que os alimenta a apologia da miséria. (Págs. 70, 71 e 76).

Linhas Vermelhas é um dos livros mais interessantes saídos nos últimos meses sobre a realidade económica, social e política do País. Linhas Vermelhas no sentido de um farol de mínimo de decência e dignidade que não deve ser transposto. O livro do professor de Coimbra na área dos estudos sociais organiza uma reflexão sobre algo essencial e que os media costumam ignorar, para benefício do governo, a linguagem e o que ela esconde, e o âmago de uma construção ideológica que parte do discurso da crise para implementar o seu modelo neoliberal contra as pessoas e de favorecimento dos grupos monopolistas e agentes políticos que os servem. O livro organiza-se em sete capítulos, a saber:
  • Cap. 1 - De como aqui chegar ( A Dívida como principal referência da luta política e a austeridade como ferramenta ideológica e política);
  • Cap. 2 -Quem é o interesse nacional (Do discurso oficial do empobrecimento, da diminuição dos custos do trabalho como construção ideológica);
  • Cap. 3 - A crise-como-política (A dupla centralidade do discurso da dívida, como reconfiguração de Portugal e a sua periferização no campo europeu e o dispositivo de redução da resistência social e a alteração preversa dos contratos de trabalho); 
  • Cap. 4 - A governação europeia de Portugal (O modelo de apropriação por governos de direita na formulação ou nas práticas e a sua instrumentação pela União Europeia para a construção de um domínio político e esvaziamento da cidadania);
  • Cap. 5 - O mundo inteiro (Os povos esquecidos perante uma ideia de miséria cultural e social - o Eurocentrismo);
  • Cap. 6 - Em sentido contrário (Conhecer a realidade, aprender a sua formulação para romper e procurar uma nova ética para uma nova óptica, ou a necessidade de um desobediência organizada e solidária contra uma Europa, em nome da defesa dos que não têm voz, contra a insustentável pobreza);
  • Cap. 7 - Conta-me como  será (Do País pobre, do esvaziamento político da democracia e da anulação das pessoas como elementos culturais e humanos).
Linhas Vermelhas desmonta com eficácia a incompatibilidade de um discurso político que ilude as pessoas ao assumir coerência entre mercados e democracia. É esta que se desmonora com a destruição da dimensão económica e que conduz a um enigmático autoritarismo social. Linhas Vermelhas no sentido mais racional conduz o discurso necessário para que as esquerdas se repensem e sejam um espaço de discussão para a ideia essencial de reestruturar a dívida. 

O País só poderá ser uma democracia real se essas alternativas tiverem alguma expressão. E como vemos, a ausência de discurso de fractura com o que empobreceu os cidadãos tomado pelo PS sem discussão do que é decisivo para as pessoas revela que o caminho é outro. O de pensar a decência e combater uma narrativa ideológica de desprezo pelos valores humanos e a vida colectiva que tenha sentido para todos. Linhas Vermelhas é um contributo para pensar as alternativas e fazer com que as eleições sejam mais que alternância sem alteração substantiva de nada.

sábado, 22 de agosto de 2015

Eleições Legislativas - 2015 (6) - Ler para compreender (V)

Os povos serão cultos na medida em que entre eles crescer o número dos que se negam a aceitar qualquer benefício dos que podem; dos que se mantêm sempre vigilantes em defesa dos oprimidos, não porque tenham este ou aquele credo político, mas por isso mesmo, porque são oprimidos e neles se quebram as leis da humanidade e da razão; dos que se levantam, sinceros e corajosos, ante as ordens injustas, não também porque saem de um dos campos em luta, mas por serem injustas; dos que acima de tudo defendem o direito de pensar e de ser digno. (1)
(1) - Agostinho da Silva, O Terceiro Caminho, Diário de Alcestes [1945], in Textos e Ensaios Filosóficos I, p. 217.
É um livro pequeno, sintético de um desastre chamado Portugal e aquilo que do PS ao CDS tem sido feito contra uma identidade nacional e o que importa mudar para que a pátria de Camões possa realmente ser chamado de País. Paulo Morais, desde 2011, quando saiu da vereação da habitação, da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia iniciou um campanha cívica capaz de desmontar o que de mais prejudicial tem negado uma vida de dignidade a largos milhões de portugueses. Esse factor em que ele insiste tem o nome de corrupção. É de facto nela directa e indirectamente que processos de ilícitos se deitam na indiferença política das maiorias, nas leis formuladas e não praticadas, numa sociedade esquecida de crianças, de velhos e de representação do seu próprio território.
O livro organiza-se em alguns tópicos, a saber:
  • Os princípios constitucionais;
  • O funcionamento das Instituições;
  • A corrupção e a pobreza do país;
  • A destruição do património - as privatizações;
  • A mentira e a transparência na política.
Partindo de um quadro que conhecemos e que resulta numa sociedade controlada por partidos, sem representação institucional nas pessoas, com uma justiça também ela assimétrica, Paulo Morais em Janela do Futuro, propõe um conjunto de ideias. Estas implicam coragem, uma Presidência da República que realmente represente institucionalmente um País, um programa anti-corrupção e uma transparência, capazes de devolver aos cidadãos as possibilidades de contribuir para uma sociedade de todos. 
É um livro que se lê como um programa de mudança. Participar na construção de alternativas que não sejam a manutenção dos privilégios dos instalados no poder político e na finança implicam também que as pessoas participem. São os povos esclarecidos, os que lutam contra a injustiça, os que podem mudar e influenciar a sua vida e a dos outros. Este conjunto de mudanças essenciais implicam um conhecimento e uma atitude de todos nós. É essencial a participação de todos, para contrariar os privilégios que os partidos do sistema têm provocado em minorias não eleitas.

Eleições Legislativas - 2015 (5) - Ler para compreender (IV)

A ideologia de empresa neoliberal constrói com o silêncio e a auto-exploração novas formas de capitalismo, diferentes mecanismos de coação sobre as pessoas, sobre a liberdade, sobre o fundamento mais antropológico do ser humano. A ideologia neoliberal transforma cada um, quando incapaz de metas estabelecidas no ser desprezível, responsável pelo fracasso de um sistema que se fundamenta a si próprio pelo lucro, a maximização do poder dominado nas empresas e relacionado com os agentes políticos. É o domínio do biopoder que Deleuze e Foucault afloraram, mas que tomou dimensões ainda mais trágicas para a decência e para uma civilização que ainda se possa dizer humana. 

Nesta dominação psicológica de biopoder recursos nacionais têm sido destruídos para a construção de um domínio ideológico centrado em empresas que se comportam sem valores éticos, os psicopatas para quem não existe comunidade, apenas negócios. Estes centrados numa estratégia essencial de privatizar tudo, revelam todo um corpo de cedência de interesses a grupos monopolistas e em prejuízos para o Estado que devem ser onerados pelos cidadãos. A cartilha é conhecida. É importante ter os dados e saber os autores dessa estratégia suicida para o País, como comunidade de pessoas. Mariana Mortágua e Jorge Costa dão-nos um livro que desmonta esse processo feiro no País desde os finais do século XX, justamente Privataria.

Os programas de privatização buscavam os seguintes objectivos:
  • promover o reforço de competitividade da economia portuguesa;
  • dinamizar o mercado de capitais;
  • reestruturar e reforçar os sectores produtivos da economia nacional;
  • melhorar a situação financeira de empresas incluídas no sector público;
  • contribuir para a redução da dívida pública;
  • diminuir o peso do Estado na captação de recursos financeiros;
  • defender os interesses patrimoniais do Estado. (p. 156)  
Qualquer cidadão informado e que tenha por aqui vivido nas últimas três décadas conhece o que tem sido a transparência das políticas seguidas por PS, PSD / CDS que é basicamente a mesma, a da destruição de um património que poderia garantir formas e recursos de desenvolvimento sustentado. A classe política saída do golpe militar do 25 de Abril não tem ideias próprias, segue em décadas de atraso o que vê lá fora. There is no alternative é pois caminho de uma esquerda sem esquerda, à direita da avidez antiga. Privataria apresenta-nos os dados e os nomes. Os privilégios da banca e os monopólios favorecidos, a GALP, a CIMPOR, a EDP, a PT, a ANA, o BPN, os CTT e a TAP, e os sagrados nomes dos iluminados, nas ligações que do PS ao CDS corporizaram um saque ao País.

Privataria demonstra o que sabíamos. Elas foram a estratégia para criar um regime económico de favorecimento a poucos grupos económicos que consolidaram o seu poder e alimentaram relações de promiscuidade com os agentes políticos. O actual Presidente da República, o seu partido, o excelso gestor Ferreira do Amaral, mas também o PS com a inefável coerência de Jorge Coelho, ou a Mota Engil ou a estratégia universal de competência do Srº Bava e dos agentes no governo, os CEO do milénio tudo se comprova. A lista é só estrelas dos media e da comunicação cor-de-rosa em que o país é fértil. Somos pobres porque somos desgovernados por interesses mesquinhos.

Privataria revela o que foi a privatização em quarenta anos de regime pós- Estado Novo. Um crime contra o país, praticado consciente e reiteradamente (p. 156). A opção de destruir as capacidades produtivas iniciadas pelo deslumbrante srº economista,  a destruição do sector público, o endividamento para o estado e as rendas para os protegidos accionistas levou a uma dívida pública de níveis nunca atingidos ao longo de todo o século (p. 156). É o brilhantismo do neoliberalismo ou a desastrada incompetência de uma terceira via que o engenheiro Sócrates alimentou em vaidades sem nexo. 

Na verdade nenhuma privatização melhorou o desempenho da empresa que foi vendida, porque e essa é outra mentira dos neoliberais. Em igualdade de funcionamento os privados fazem sempre pior. A privatização é um crime contra o País porque altera substancialmente o modo como os preços são definidos, como os serviços são prestados e rompe com os interesses / direitos públicos. Porque em muitos casos tratam-se direitos de comunidades, sim quer falemos de comboios, de saúde ou de serviços de correios. 

A privatização fez aumentar as desigualdades entre as pessoas, destruiu formas evidentes de coesão nacional e alterou negativamente a própria identidade do território. O neoliberalismo, receita do PSD / CDS para o País e aceite em formatos de incerteza e pouca convição pelo PS conduzem a uma sociedade  que Byung-Chul Han designou Psicopolítica, ou  seja a construção de territórios onde as pessoas sujeitas a um domínio de informação praticam comportamentos condicionados em níveis subconscientes por um poder totalitário, embora pareça formalmente livre. O neoliberalismo é incompatível com uma ideia de liberdade, onde existem pessoas que não são sujeitos, mas "apenas uma existência floral: simples abertura à luz". (1)

(1) B Strauss, Litcher des Toren. Der Idiot und seine Zeit, p. 175, citado de Byung- Chul Han. (2015). Psicolopoítica. Relógio DÁgua, p. 156. 

Eleições Legislativas - 2015 (4) - Ler para compreender (III)

Os primeiros anos do século XX escreveram as linhas de uma narrativa que daria aos neo-liberais as portas do seu saque civilizacional. A social-democracia terminava a sua respiração e a esquerda, a que institucionalmente gosta de se chamar isso oferecia à direita a velha avidez na qual esta sempre se reviu. O que vivemos é a construção de um mundo de psicopatas dominados por empresas e agentes, onde os direitos humanos são não só irrelevantes, como matéria-prima de desprezo.

Nessa história de horrores conduzida por bem falantes e ainda melhor vestidos, a política como um guarda-fato de eleição vale a pena identificar  os que se conduzem pelo espírito do tempo. Votar numas eleições é muito saber que escolhas de valores humanos estão em discussão e embora os candidatos gostem do silêncio em salas de talheres barulhentos e louça fina não é difícil perceber essa atmosfera. O caso dos submarinos é um deles.

Ele comprova como as empresas e um Estado distraído promovem o sono da cidadania, retirando fundos essenciais ao que mais importa, justamente as pessoas. É evidente ao mais simplório dos indivíduos que um país como Portugal não tem nenhuma necessidade de ter armas de guerra sofisticadas como submarinos, excepto quando se pretende fazer a narrativa da glória e do poder feito em si, não na decência de milhares de cidadãos. A direita tem reconhecidamente uma simbologia de vaidade e políticos vaidosos expressam sumptuosamente os seus delírios. 

Os Psicopatas, no seu sentido empresarial é alimentado em negócios cuja virtude de maximização, apenas deve procurar ao lado de todo o lucro, que todos os mecanismos de realização apareçam não revelados. O arquivamento de processos em que se prova, não que ilícitos não tenham acontecido, mas apenas que os dados encontrados não permitem uma conclusão já é suficiente.  José Magalhães dá-nos em Submarinos.PT um livro que expõe todo o processo judicial decorrente da compra pelo Estado Português feita pelo governo PSD/CDS a um consórcio alemão de um conjunto de submarinos. Existem muitas lacunas no apuramento dos dados. Eis os mais significaticos:
  • A condenação na Alemanha não trouxe elementos para o processo em Portugal, por via de um pacto de justiça local;
  • A linha de pagamentos devidos ao Fisco tem uma rota de labirinto construída para dificultar o processo de averiguação;
  • Os depósitos feitos em offshores demorou anos a ser revelados e mesmo assim nunca abriu o horizonte do fim do percurso;
  • Houve destruição de provas dentro e no âmbito do Estado Português;
  • Houve falta de comunicação em tempo útil entre o Ministério Público, o Tribunal de Contas e o Parlamento;
  • Não há justificação pertinente para ter sido o Banco Espírito Santo, o financiador do projecto, "pelo desaparecimento de documentos e pelo anúncio pelo pai do negócio que o vencedor foi escolhido por leilão" (p. 18).
Apesar do Ministério Público ter suplantado em eficácia o Parlamento, que em mais um inquérito ficou a planetas da desenvoltura de investigação necessária, o processo dos submarinos revela que figuras do Estado e seus actos podem ser encobertos pela própria organização de entidades que na justiça têm estatuto e funcionamento diferenciado.  Uma pergunta final?

Bastará então a qualquer protagonista de um negócio entre Privados, Estado e Banca poder recorrendo a formas de construção em sociedades que sujeitas a algumas leis estrangeiras permitam  ultrapassar a lei penal contornando e iludindo passos essenciais do mesmo? E desta pergunta, uma constatação, uma ideia que a oposição esclarecida do PS não se vê fazer. Que peso têm estes pagamentos, estes gastos desmesurados num instrumento de guerra e glória no peso da balança comercial e do déficit do País? 

Seria importante fazer essa pergunta a quem liderou este processo e todos dias nos celebra de inteligência e verdade, com a sua ideia de que a esquerda gasta o que não tem, com o dinheiro dos outros.Não é possível fazer escolhas sem conhecer a realidade, as sombras de figuras envernizadas em faz-de-conta, sem a imóvel paixão do dinheiro e do poder que atravessam uma política sem decência pelas pessoas. Think of it!

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Eleições Legislativas - 2015 (3) - Ler para compreender (II)

The Corporation, file canadiano de 2005 dá-nos uma imagem de grandes empresas que dominam hoje grande parte das decisões que se tomam neste planeta. A Monsanto tenta impedir agricultores indianos de produzirem  as suas sementes. A Carlyle compra presidentes. A Halliburton vende guerras. Centenas de empresas patenteiam códigos genéticos, fazendo da nossa identidade o maior negócio do futuro. Estes monstros económicos são um perigo para as nossas democracias, para a nossa liberdade e para a nossa saúde. São estas obras de Frankenstein que aqueles que se dizem liberais vêem como modelo para as nossas vidas. Psicopatas.


Fernando Pessoa deixou-nos das suas múltiplas marcas a ideia essencial e transformadora que o pensamento, a capacidade de pensar e compreender o que nos rodeia como a mais viva forma de exprimir a inteligência. Daniel Oliveira é um jornalista que se tem dedicado a comentar a realidade, a analisá-la e perceber como os dias da sociedade são definidos. Antes de se terem propostas ou ideias genuínas é preciso possuir algo que uma grande maioria dos comentadores revela em profunda ausência - honestidade intelectual. Daniel Oliveira tem a graça de achar que a política pode ser um campo de luta de argumentos para o esclarecimento que nos pode ajudar a perceber os mecanismos ocultos de formas sociais onde não notemos a justiça, o cosmopolitismo, os princípios fundamentais da liberdade. 
A Década dos Psicopatas é um livro de crónicas, uma selecção de entre as muitas que Daniel Oliveira vem escrevendo no Expresso há já um conjunto significativo de anos. O livro está organizado em cinco capítulos com temáticas específicas:
  1. Românticos e Avençados -  A crise na era dos liberais;
  2. O Espírito da Igualdade -  Estado social e redistribuição;
  3. O dia da Marmota -  Portugal político;
  4. Leões e cordeiros -  O estado do mundo;
  5. A marcha dos pinguins -  Costumes, civilização e media. 

Daniel Oliveira resgata neste livro uma luta por ideias, um rigor pelos factos com que pretende influenciar o real. Vemos nele essa imaginação da alma que procura compreender o modo como vivemos e nesse sentido abrir caminhos para o conhecimento dos outros. O estado deplorável do País, as más escolhas, as cartilhas copiadas, "There is no alternative", as instituições sem soberania pela sua própria ausência cívica estão aqui retratadas. 



A Década dos Psicopatas é um livro a ler pela irreverência com que nos detalha os costumes, a desigualdade social, a pobreza e as falsas argumentações de uma cidadania que se pretende destruir. Sem conhecer não é possível pensar em alternativas. É isso que os partidos se esquecem. Falar das pessoas e das suas dificuldades. Se erramos persistentemente em sombras e em dar voz a quem não nos quer dar voz é apenas e ainda pelo esquecimento que votamos ao mais essencial. A Década dos Psicopatas é um livro para o compreender. Já fez o mais importante - chegar até nós!

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Eleições Legislativas - 2015 (2) - Ler para compreender (I)

O que fazer com este País é um livro cujo título no primeiro relance pode não nos dar toda a ideia de informação e conhecimento que poderíamos procurar, pois saem muitos livros que pretendem apresentar soluções para a gestão política, económica e cultural de Portugal no actual momento. Lendo-o ficamos com a clara impressão que se trata de um grande livro, um objecto para conhecer a realidade nacional e europeia e poder assim exercer a cidadania de uma forma crítica e esclarecida. 

Ricardo Paes Mamede vai sendo conhecido por algumas intervenções ocasionais nos media e talvez mais ainda pela sua participação no blogue Ladrões de Biblicletas onde com outros elementos tem procurado usar os seus conhecimentos na área da economia para que possamos compreender a realidade do momento e ter a informação capaz de fazer escolhas acima da ideologia.

O seu livro O que fazer com este País faz uma análise detalhada e substantiva sobre o quadro causal de Portugal se ter tornado um País de grande clivagem social, com zonas de pobreza significativa para grandes faixas da população. Analisa as escolhas feitas, os erros de cabotagem do ponto de vista das escolhas económicas e como a União Europeia se tornou uma ilusão para a garantia da solidariedade e da coesão dos países periféricos. Com recurso a fontes de informação diversificadas permite a qualquer leitor compreender como é necessário conhecer, não para todos concordarem sobre os mesmos caminhos, mas para discutirmos as alternativas para sermos pessoas que pertencem a uma sociedade decente. 

O que fazer com este País é um documento essencial para olhar para as eleições legislativas e compreendermos que as escolhas se fazem com base em opções e que a realidade que alguns constroem com o medo e a chantagem psicológica conduz a resultados já conhecidos e que nada dizer ou apenas querer fazer diferente, mas não o enunciar é outra forma de desperdiçar a força essencial que o voto deve ter. De todos os livros editados em vésperas de eleições parece-me ser o que melhor nos ajuda a compreender o que está em jogo. Discute a sociedade portuguesa, os seus bloqueios, as más escolhas do passado e o que podemos reivindicar e a legitimidade de quem governa depende dessa discussão.

Atento à questão essencial da desigualdade social debruça-se sobre os problemas estruturais do País e indica linhas de acção suportadas nos desafios que se enfrentam, na gestão de recursos que importa aprimorar e na discussão das regras que importa afrontar, pois não existe maior valor que a dignidade humana da vida colectiva de uma sociedade. A opinião que podemos construir e o modo como o discutimos será uma força de exigência à cidadania esquecida de uma classe política conformada. Percebemos com dados funcionais da organização económica e social que os velhos dogmas das maiorias absolutas não nos servem. Precisamos de compromissos e eles são essenciais para colocar em evidência a diversidade de valores. 

Tony Judt ou José Gomes Ferreira já tinham chamado a atenção para a ilusão de uma Europa solidária e em O que fazer com este País, Ricardo Paes Mamede explica-nos como a diversidade das economias na zona Euro coloca em falência uma formulação civilizacional que em Portugal foi muito reduzida no tempo. Antes de se pensar numa estratégia de ruptura com a zona euro, importa exigir um debate sobre as condições dessa participação e essa é uma das responsabilidades da classe política, mas também dos comentadores e jornalistas que demasiadas vezes se esquecem das questões essenciais. O que fazer com este País dá-nos a informação para o exigirmos e para exercermos a cidadania da participação política de uma forma mais empenhada e construtiva. É pois, um livro a ler.

terça-feira, 18 de agosto de 2015

Leituras avulsas (5)




A mentira e o cinismo como forma de construir o poder, eliminando a memória e vendo os cidadãos como criancinhas sem a possibilidade de pensar. Criar a narrativa do medo como se nada existisse sem o milagre dos que venderam a cultura, a sociedade, as pessoas, os jovens, os idosos e os sonhos à incrível força do mal, eles que se julgam o bem. Esse infindável tormento do espírito em que todos sabemos ser apenas dos seus privilégios e do mundo de uma República assente no poder do dinheiro e da ambição dos vaidosos que nunca se comprometem com a dignidade das pessoas.

Eleições Legislativas - 2015 (1) - O que nos faz votar?

Desde sempre que nos perseguimos
[os portugueses aos portugueses]
com veneno e brutalidade

- Vasco Pulido Valente. Público. 20.07.14 -

Somos convencionalmente pobres porque somos formalmente indisciplinados e incapazes de vermos as ferramentas que a Ciência dos Homens criou para a nossa bem-aventurança na experiência de viver o que nos foi dado exprimir. Estamos eternamente perdidos em saudades do que não conhecemos porque não vivemos os princípios simbólicos da experiência política, a democracia como forma de construir um País de esperança e solidariedade.

Há muitos factos, planetas de ideologia e sobre mantos de palavras velhas, muitos procuram a escravidão antiga. Os mesmos de sempre, pois ninguém muda por decreto. O futuro de todos os pensadores foi imaginarem uma forma de soberania, a que nos é dada pelo voto, pela escolha de pessoas, pela representação de ideias. As eleições podem ser a forma mais possível de exprimir vontades e sonhos. Para isso é preciso sedimentar aquilo que a revolução americana ensinou, a razão, como fundamento das escolhas. É aí que reside a soberania das pessoas, não no medo, nem na ideologia. É essa batalha que importa travar.

A razão está muitas vezes ofuscadas por narrativas que se modelam em falsidades ou em ocultação da verdade. A informação é essencial para que os cidadãos possam pelo debate lógico formalizar opiniões que sustentam uma soberania de pessoas, não de apenas o poder em si. Abraham Lincoln formalizou essa ideia na crença essencial que são os materiais desse conhecimento que com o respeito pelas Leis permitiram  a moralidade de sustentar uma Democracia. O primado da razão como Thomas Jefferson sublinhava depende de uma sociedade com estruturas intermédias, o que ele chamava os contrapesos. Portugal, como sabemos não os tem e por isso a sua fragilidade cívica é tão gritante.

As imagens vieram desvirtuar o conhecimento da realidade, porque se dá mais peso à imagem do que ao acontecimento, não se aprofundando as questões que a permitem compreender. E porque os media da imagem em Portugal estão dominados por comentadores que quase exclusivamente comentam a realidade a partir da sua ideologia. O que se espera de um militante de um partido a comentar a realidade se não utilizá-la em proveito próprio? 

Se Portugal nunca foi exemplo para o que Kenneth Galbraith chamava o plano das ideias, hoje as campanhas publicitárias induzem mensagens de pura mentira enganando eleitores e não colocando em questão o essencial. Como País em que cada partido se faz sempre contra os outros, em que cada plano cultural se joga contra outro, sem o compreender e aproveitar, há uma guerra latente antiga e estúpida na sociedade portuguesa.

É essencial levantar as questões mais importantes para as próximas eleições legislativas, acima das certezas de bissetriz de alguns, como uma religião e a descrença de outros, sem uma ideia clara para tornar a vida das pessoas algo de decente. É isso que tentaremos fazer nos próximos posts. É possível votar tendo consciência do que será feito, pois como disse Jon Stewart os criadores de aparência são desleixados e é fácil compreender os mecanismos mentais de formas de totalitarismo que se escondem em sorrisos de plástico. Começaremos pelos livros, pois existem fontes de informação que vale a pena conhecer. A realidade é o que nós construímos e não a velha e rançosa cartilha neo-liberal, there is no alternative. Think of it!

domingo, 16 de agosto de 2015

A democracia de gabinete

O século XX em Portugal não tem outra figura à altura do que foi o essencial do século, a luta contra a doença do espírito mais profunda, o Nazismo. O "herói" de Bordéus explicou a quem o souber perceber que em determinadas horas, apenas a consciência nos serve de utensílio. O exercício do bem ou a crença que as acções se moldam pelo valor do espírito devolve-nos o valor ético da liberdade de participação. Um homem que compreendeu que é o valor universal de humanidade que nos deve guiar. A quantos podemos reclamar esta consciência da Humanidade? Poucos. Muito poucos.

Como País sepultado no passado, como um conto de fadas para alimentar a inconsciência, não damos valor aos exemplos de cidadania corajosa. Não praticamos pois, os bons exemplos, dos que foram melhores e criativos. Não sabemos aproveitar a sua memória como inspiração, a sua coragem como força de acção. Nem mesmo quando falamos de quem arriscou tudo pela sua sobrevivência, continuando sempre, numa perseguição pelo sonho maior de salvar vidas, acima de qualquer decreto, de qualquer visão totalitária do ser humano.

Gostamos de exaltar os pequenos feitos da aventura momentânea em discursos de circunstância, onde tantos passeiam a sua ignorância, o real feito de vaidades e de chico-espertismo. O Estado ocupado por classes políticas esclarecidas não reclama este património de coragem dos que souberam caminhar com graça e sabedoria. Preferimos os gastos desnecessários, atitudes culturais de gosto duvidoso em gestos de povo predestinado e aqui temos um exemplo inspirador a que não se liga. Um homem que soube combinar solidariedade cristã com humanismo, na amizade aos mais carenciados, aos que nada tinham revelando os quadros mentais do País de Salazar é dispensado.

Não é assim de admirar que um embaixador, o da Argentina, um ser de nome Henrique Silveira Borges decidiu que não podia aprovar o que não conhecia, uma cerimónia de reconhecimento público pelo esforço humanitário de Aristides de Sousa Mendes. Correndo entre desculpas e silêncios o senhor embaixador não se podia dar ao trabalho de conhecer o trabalho e empenho de outros, como a Fundação Sousa Mendes na Argentina, O Centro Comunitário Sergio Karakachoff, O Observatório Internacional dos Dirteitos Humanos entre outros. Um ser superior está centrado em si, não nos outros. O seu exemplo está à altura do País, da sua falta de memória. O País que mais devia enaltecer uma memória foi o que mais fez para a sua não realização. Mas nada de mais. Um democrata sem dúvida ao nível do governo que representa.

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Coragem

Lembra-se de mim? Creio que sim. Sim, sou eu. Conhecemo-nos. Fomos colegas, embora você tivesse feito sempre tudo o que podia para me ignorar. E porquê? Porque mesmo nessa altura eu tinha feito um juramento de fidelidade - era por essa que vocês, intelectuais livres, me olhavam com desprezo. Seremos pessoas menores quando estamos dispostas a curvarmo-nos perante a autoridade? Muitas vezes tentei começar uma conversa  consigo e com os seus amigos, isto é, uma conversa socrática: nós pessoas cultas, juntas, buscando a verdade de acordo com as leis da dialéctica.(...)

Primeira questão. Porque é que nós, que conhecemos os clássicos, que somos sensatos, deveríamos esforçar-nos por um mundo melhor? Não seremos aqueles que deviam ter mais juízo? Responda-me! Quem está a lamentar constantemente a estupidez intelectual das épocas, a queixar-se de que é o dinheiro que mata toda a moral? Exactamente, Francisco Petrarca, nas suas cartas inigualáveis. Há setecentos anos, meu amigo. Setecentos anos. Desde então houve alguma época, ou mesmo um ano, em que esta queixa não fosse feita? Foi feito algum progresso real a este respeito? Sabemos a resposta. Você é tão nobre quando se trata da sua amada verdade, e no entanto não tolera a autoridade. Porquê esta necessidade absoluta de liberdade e da democracia? (...)

Porque despreza o fascismo? Será a sua democracia realmente assim melhor? Serão os seus líderes melhores do que os da nossa utopia fascista? Não sou estúpido: vamos perder esta guerra. Mais um ano, talvez dois, mas depois esta aventura acaba. Não tenho nenhum problema com isso. As nossas ideias irão ficar, as pessoas irão aprender com o que sabemos. Preste atenção às minhas palavras: 'a democracia será restaurada de um lado ao outro do globo' com um grande sentido de drama. E depois o que acontece? Fomos nós que inventámos o poder da propaganda, das imagens, e a embriaguez que provém de se fazer parte das massas. Fomos nós que compreendemos que as pessoas estão mais interessadas na aparência do que na substância. Imagens agradáveis e retórica - esse, meu amigo, é o nosso legado e ninguém lhe escapará.  

O que verdadeiramente não entendo é como você pode pensar que a democracia e a sua cultura podem coexistir? As massas não estão interessadas, porque as suas cabeças não querem questões e as suas barrigas querem ser alimentadas. Os políticos não estão interessados, porque o seu poder depende da estupidez das massas. E os verdadeiramente poderosos, os que têm o dinheiro, não estão interessados, porque a cultura custa dinheiro. (...) Quer melhorar o mundo. Alguma vez reparou que, assim que estão no poder, todos os revolucionários, sejam jacobinos ou marxistas, só querem uma coisa: mais poder? E alguma vez reparou que assim que os pobres deste mundo adquirem algum dinheiro, só querem uma coisa: mais dinheiro? Mais poder, mais dinheiro; (...)

Se o mundo não pode ser melhorado - e certamente estas últimas décadas terão, espero, mostrado que tal nunca acontecerá - então só uma conclusão pode estar certa: obedece ao poder governante; adapta-te, e tenta acumular tanto poder para ti quanto possível. (...) Um país moderno não quer mais terra: um país moderno quer novos mercados. Todos os povos estrangeiros merecem respeito desde que comprem as nossas coisas. Poder económico - é esse o poder do futuro, meu amigo. 

Texto imaginado na prisão de Roma em Fevereiro de 1944, perto da morte, entre Leone Ginzburg e o homem que suporta a ideia civilizacional da falta de nobreza de espírito que alimenta o mundo contemporâneo.

Fonte: Rob Riemen. (2012). Nobreza de espírito, um ideal esquecido. Bizâncio, págs. 147, 149 e 151.

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

Jorge Amado

A fronteira entre ficção e não ficção mais se pa­rece com uma ponte fácil de atravessar. Mais di­fícil é dizer quando começa a imaginação e onde termina a experiência, ou quando tudo não passa de relações de boa vizinhança. Se isso tudo é ver­dade, no caso de Jorge Amado esse limite ténue vira quase certeza. Suas personagens são todas retiradas de exemplos do quotidiano e baseadas nos amigos de primeira hora. Elas podem ser encontradas sem dificuldade no salão do sobra­do, na delegacia, na casa de fazenda, no bote­quim e na rua. Quem de nós já não topou mais de um tipo, e até na própria família, que parecia pedir para entrar num romance de Jorge?

Por outro lado, os nomes de pessoas e lugares que nasceram dos livros de Jorge Amado hoje viraram logradouros conhecidos, sobretudo na Bahia. Assim, ninguém sabe dizer onde começa o mito e quando termina a realidade, e nem vale a pena tentar deslindar. E isso em grande parte porque as personagens de Jorge não apenas possuem feições, gestos e modos de falar próprios, mas também biogra­fias e mais completas do que as de muitas fi­guras históricas, e porque em seus enredos se entre tecem a invenção, a observação e a memó­ria. Ele recria o existente, faz do real ficção. E vice-versa. Passa, portanto, por aquele teste que singulariza os grandes romancistas, os roman­cistas realmente grandes: faz emergir do mundo das palavras personagens que não se apartam de nossa memória e de nosso convívio. Saem de seus livros e ficam connosco.

Jorge Amado é também uma espécie de divul­gador de uma determinada maneira de inter­pretar o Brasil. Numa época em que a mistura de raças era entendida como um grande proble­ma, já nosso autor, nas obras que foi criando, se transformou num grande defensor da mestiça­gem. E não só da cultural. Jorge, sem descuidar dos brancos e dos negros, tinha especial carinho pelos mulatos, cafuzos, caboclos e mestiços in­definidos. A sua Bahia é antes de tudo lugar de confluência, onde indivíduos vindos de todas as partes do mundo não só se acotovelam, se confundem e se transformam em baianos, mas também se casam fora de seu grupo. Mas não se imagine que aqui mestiçagem é sinónimo de integração e da falta de conflito. Ao contrário, por aqui inclusão combina com exclusão social e um mundo complexo toma forma a partir do conjunto de seus vários livros.

Não por acaso, em sua obra, se torna nítida a percepção de Salvador como, ao mesmo tempo, a mais portuguesa e a mais africana das nossas cidades. Para ele, a mais brasileira, e não só por sua lusitanidade, negritude e mestiçagem, mas por vários outros importantes motivos, entre os quais se destaca o amor pela festa. A exaltação da festa percorre, implícita ou explicitamente, toda a obra de Jorge Amado. A festa surge como uma espécie de ritual a congregar diferentes grupos, que suprimem, mesmo que por momentos con­tingentes, suas diferenças sociais. Nesse espaço da festa, comungam o catolicismo com os rituais do candomblé, a festa profana com a festa sacra, as comemorações de rua com as celebrações de dentro de casa, os espaços públicos com os pri­vados. Porém, nesse grande ambiente o grande mote é a própria Bahia ou, melhor, uma certa habilidade que aparece como exemplo de mistu­ra e de convivência de grupos, no melhor e único dos sentidos.

Nesses tempos actuais, em que novamente o tema da exclusão social anda na pauta do dia, a obra de Jorge Amado surge como um alento a lembrar uma determinada forma de convivên­cia que, sem ser uma democracia racial, sempre aspirou por ela. É certo que nos livros de Jorge a violência do paternalismo, do compadrio, dos meninos sem lar, da falta de recursos aparece de maneira directa e sem concessões. No entan­to, transparece também uma maneira singular de convivência cultural, que não significa o final das hierarquias ou da desigualdade, mas sina­liza para certas estruturas, as quais, marcadas pelo tempo, insistem em reaparecer.
Seus romances falam de tempos em que não se afastavam os pobres para a periferia e os mor­ros das cidades, em que as portas-e-janelas e até mesmo as choupanas se erguiam lado a lado das moradas-inteiras, dos sobrados e dos casarões em centro de jardim. Por outro lado, os seus habitantes não só se cumprimentavam, mas se conheciam e muitas vezes compartilhavam as tristezas e as alegrias. Aí está o universo dos ro­mances de Jorge Amado, nos quais, a despeito da tensão presente, transparece uma alegria que transborda das mais diferentes e inusitadas si­tuações. 

Talvez porque, no mundo de Jorge, os deuses, que se misturam connosco e chegam em certos momentos a nos dar o braço, sabem fazer passar pela urdidura da injustiça, da mágoa e da pobreza a trama da festa e da alegria. O que temos é, assim, uma obra marcada pela ambivalência, que, antes de se mostrar contra­ditória, chama pela reflexão. Violência convive com cordialidade, alegria com tensão, liberdade com cerceamento, riqueza com indigência.

Qualquer vida é feita de muitos pedaços, nem sempre harmoniosos. Nos livros de Jorge Ama­do ela surge tensa e repleta de ambiguidades. E talvez por isso incomode e leve ao contínuo di­álogo. Não há receita fácil na literatura dele, e um mundo distante do dia-a-dia de muitos de nós (repleto de termos estranhos retirados dos lugarejos do interior da Bahia e de situações por vezes inusitadas) acaba sendo percebido como próximo e identificado. Nosso autor é mesmo um grande mago que faz do longe, perto; e do estranho, familiar

Lilia Schwarcz, Companhia das Letras, (Via Blimunda 03.08.2010)

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Um governo de medo e mentira (X) - A propaganda

Os tweets de um secretário de Estado chamado Bruno Maçães têm sido alvo de chacota generalizada na Internet, mas não é o seu contributo para o anedotário destes dias de lixo que é relevante. Eles significam muitas outras coisas, bem mais graves do que as inanidades que escreve: vão fundo ao pensamento débil de quem nos governa e mostram a perigosidade social de meia dúzia de ideias extremistas na mão de quem tem poder e que, sem mudarem nada, estragam o país por muitos anos.

Que ele canta como um pássaro de curtos trinados, que é o que significa tweets, isso é verdade. Mas que dificilmente se pode encontrar melhor exemplo da gigantesca arrogância e presunção de um conjunto de conselheiros de Passos Coelho, em que tudo transpira a uma gigantesca auto-suficiência e assertividade, associada a uma profunda ignorância do que é Portugal, a sua história e as suas pessoas, o povo, nós todos, o único “nós” que tem sentido. 
Como todos os revolucionários são adâmicos, acham que o mundo começou com eles e vai acabar com eles, seja como paladinos de um combate mundial contra o Mal, quer como heróis consumidos num Armagedão de perversidade alheia, de preguiça colectiva, de pieguice generalizada, da maus costumes despesistas, de hábitos de vida de rico nuns miseráveis que acham que têm direitos e não sabem economia, ou seja, nas chamas do socialismo, da coligação do Papa Francisco com Obama, com Cavaco, com o Tribunal Constitucional, com os “socráticos” e com os ressabiados “velhos do Restelo” do PSD e CDS que só pensam nas suas pensões milionárias. Essa junção pestífera de demónios representa as mil cabeças do Diabo. Sim, eles viram o Exorcista em pequenos e têm medo do Diabo.

A metade de Passos Coelho que não foi feita por Relvas foi feita por homens como Maçães, combinando na mesma criação a esperteza aparelhística e o mundo das negociatas e das cunhas, com as altas esferas académicas sempre dispostas a fazerem de dr. Strangelove. Ou seja, o dr. sem ser dr., junto com o Professor Doutor. Infelizmente, a história tem muitos exemplos destes e dão sempre torto. Mas eles nunca querem saber de história. 
Num desses trinados, em inglês como convém, Maçães escreve que “todos os dias lhe lembram o muito que os 35 anos de hegemonia socialista em Portugal fizeram de mal ao país. Felizmente podemos hoje dizer que esses dias acabaram”. É o equivalente ao “I think I saw a pussycat”, sendo que o “pussycat” que quer comer o passarinho é o socialismo, “I did, I did”, ele viu 35 anos de “pussycat”.

Comecemos pelo cálculo, que Maçães certamente fez na sua mente, dos 35 anos. Imagino que o fez para o período posterior ao 25 de Abril, porque presumo também que não o fez incluindo os santos governos dos Professores Salazar e Marcelo Caetano, embora, com este tipo de extremistas, nunca se saiba. Podem perfeitamente achar que o Salazar dos Planos de Fomento e o Marcelo Caetano das “conversas em família”, eram perigosamente socializantes. Nunca se sabe. Porém, vamos admitir que o cálculo dos 35 anos começa depois de 1974, ou seja, houve cinco anos de não-socialismo, ou de anti-socialismo desde essa altura. Onde é que estão esses cinco anos?

Retiremos para já dois anos, ou seja, os do governo de que faz parte, que também presumo não seja socialista, mas, de novo, com estes extremistas nunca se sabe. Pode ser que ele se ache em missão gloriosa de infiltração no meio de um governo de socialistas... moderados. Não me admirava. Bom, mas vamos dar o benefício da dúvida de que Maçães não inclui o Governo Passos Coelho, mesmo apesar da ditadura fiscal socialista, na dita categoria. Faltam pois dois gloriosos anos sem socialismo.

Onde estão? Não deve ser nenhum governo provisório, nem o VI de Pinheiro de Azevedo, sobre o qual ele não deve saber nada, como nada sabe da nossa história recente quanto mais a antiga. Vamos pois aos governos constitucionais. Serão os governos da AD, de Francisco Sá Carneiro e depois Balsemão, três anos mal contados? Duvido. Sá Carneiro era um “social-democrata”, ou seja, um perigoso socialista envergonhado, e Balsemão um tenebroso socialista, encarregado pelo grupo de Bilderberg e pela conspiração maçónica universal, de dar suporte mediático aos socialistas portugueses para que eles nunca abandonem o poder.

Será que Cavaco serve para encontrar os três anos que faltam? Duvido, até porque Cavaco foi primeiro-ministro durante dez anos e, portanto, teria sete de socialismo, tantos quanto Jacob serviu Labão por causa de Raquel, e este em vez da amada lhe dava Lia, ou seja, o socialismo de novo. Mas não pode ser. Nas “análises” que este Governo faz todos os dias, Cavaco é o digno percursor de Sócrates, numa linha de continuidade sem falhas, incluindo os momentos menores de Guterres, o esquecido pelos anátemas. Sobra Durão Barroso e Santana Lopes, o breve. São três anos de 2002 a 2005, que davam para encaixar no prazo. Porém, Barroso será sempre suspeito, um ex-MRPP reciclado, merecedor de menos consideração do que os ex-trotskistas americanos que deram excelentes teóricos conservadores. Mas isso é na América. Talvez fique Lopes, embora o seu lado muito distributivo seja suspeito.

Difícil. Há aqui gato nos 35 anos, há aqui pussycat. E a razão é muito simples: os 35 anos de Maçães não encaixam em nada porque ele queria dizer 40 e não teve coragem de dizer, pelo menos neste tweet, porque o diz nos outros. Para ele, há o 25 de Abril, essa revolução comunista que condenou o país ao socialismo, e depois a vitória de Passos Coelho, ou melhor ainda, a chegada da troika moralizadora, que implantou à força de “inevitabilidade” uma nova revolução de bons costumes, punição para os de baixo, porta-aviões para os justos empreendedores.

Os 35 anos de Maçães são uma variante de uma necessidade de recriar um fio da história sem diferenças, igual para todos, de Soares a Barroso, de Vasco Gonçalves a Cavaco, toda “hegemonicamente socialista” para legitimar e radicalizar a ruptura. Esta é a questão mais interessante e mais perigosa, porque é essa que acaba por ter circulação mediática e entrar na cabeça das pessoas, para quem a crise é também um risco de meter dentro da cabeça muito lixo, porque esta versão imbecil da história tem sucesso populista.

"Eles são todos iguais”, “eles são todos culpados”, foi a “classe política abrilista” que nos fez chegar onde chegámos, como se tudo o que aconteceu desde o 25 de Abril fosse apenas um intróito para a bancarrota socrática. Há apenas uma explicação e é a explicação útil para extremistas como Maçães: a de que desde 1974 há uma única linha de continuidade, em que tudo o que aconteceu, com todos os seus intervenientes, é apenas uma linha única a da governação “despesista”, que culmina em Sócrates mas que tem como antecessores Mário Soares e, principalmente, Cavaco Silva.

A guerra ideológica mais importante deste Governo não é com Sócrates, é com Cavaco Silva, o inimigo íntimo, porque é de dentro. Ele é o verdadeiro “criador do Monstro”, Sócrates foi apenas um discípulo menor que tem a vantagem de ter levado o Monstro à sua conclusão natural, a bancarrota de 2011, e permitir a gloriosa entrada punitiva da troika. Tudo o que aconteceu desde o 25 de Abril, a “classe política” hoje vilipendiada nos “velhos” para ser redimida pelos “jovens” como Maçães, foi apenas uma e a mesma coisa, “hegemonia socialista”.


Por isso, eles têm de rasoirar a história e as suas múltiplas possibilidades virtuais, a luta pela democracia e liberdade de 1975, a lenta construção de um Estado democrático com o afastamento do MFA do poder, o combate por uma economia de mercado, desde os governos PS-CDS, até à revisão constitucional que permitiu as privatizações, a melhoria da qualidade de vida dos portugueses, as revoluções na mortalidade infantil, na saúde pública, na democratização do ensino, a conquista difícil de direitos sociais e políticos, ou seja, tudo equívocos, tudo assente no despesismo, tudo socialismo. Não houve história, houve puro determinismo que culminou na actual revelação que o tweet de Maçães denuncia em tom bíblico, “esses dias acabaram”. Chegou o Salvador. Aleluia!

José Pacheco Pereira, Jornal Público. 07.08.2015

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Hiroshima - quando o sol caiu


O céu estava claro e sem nuvens e a manhã anunciava-se ensolarada na aldeia de Yokohama; a pouco mais de um quilómetro de Hiroshima, no lado oposto da baía do mesmo nome. Frequentava o quarto ano da instrução primária e já poderia estar de férias se a guerra, que parecia não ter fim, não nos obrigasse a permanecer nas aulas no início de Agosto. Passava pouco das 8 horas da manhã e o professor falava calmamente, quando de repente um clarão enorme inundou a sala de aula. 
Era uma luz azul tão intensa que por momentos fiquei encandeado e não consegui ver nada. Apesar disso, corri para a janela e vi uma bola de fogo no cimo do monte. Seguiu-se um estrondo enorme e, por instinto, saltei pela janela. Depois ficou tudo escuro e um vento muito forte e quente abateu-se sobre nós, as janelas estilhaçaram-se e os vidros foram projectados em pedacinhos por todos os lados, as colunas contorceram-se e a escola ficou torta. O pânico foi total. Alguns dos meus colegas ficaram deitados no chão e os seus choros tornaram-se angustiantes. Senti um formigueiro percorrer-me o corpo e a boca secar. Naquele instante pensei: o Sol caiu.
Enquanto uma nuvem de fumo ia devorando o céu, pude verificar que aquele vento que se seguira ao estrondo tinha destroçado grande parte da aldeia. Com as pernas a tremer e sem perceber o que se estava a passar, corri em direcção a casa. Ao chegar perto dela reparei que o jardim tinha sido arrancado, as colunas que suportavam a casa esta tortas e o telhado partido, mas, apesar disso, a casa ficara de pé. Lá dentro, nada estava no mesmo sítio. A minha mãe tentava pôr um pouco de ordem nas coisas e o meu pai, que pertencia a um grupo de protecção civil, já tinha partido para Hiroshima. Corri em direcção ao monte que ficava sobranceiro à casa, esgueirando-me por entre os destroços. Senti as pernas a fraquejar e o coração a bater cada vez mais depressa. O calor era intenso e caía uma chuva preta que se misturava com as lágrimas que me escorriam pela cara. Quando cheguei ao cimo do monte, pensei que o Inferno tinha descido à Terra. Lá em baixo, na baía, os pescadores atiravam- se à água para escapar ao vento que os queimava e uma coluna de fumo subia pelo céu até perder de vista. Não queria acreditar no que os meus olhos viam, Hiroshima tinha desaparecido.
Os edifícios ou tinham caído ou as paredes que lhes restavam balouçavam como se fossem de cartão. As chamas brotavam dos escombros e começavam a propagar-se, impelidas pelo vento ameaçador. Aterrado, desci novamente até à aldeia e comecei a vislumbrar, formas humanas que se moviam como numa procissão de fantasmas. Vinham de braços erguidos, afastados do corpo, as mãos em frente ao peito e gemiam. Compreendi, então, que eram pessoas queimadas a procurar evitar que os braços lhes tocassem nos corpos. Vinham nus ou cobertos por pedaços de roupas que se confundiam com as peles queimadas e penduradas. Os rostos esta contraídos pela dor, mas os seus lábios já não articulavam uma palavra, faziam apenas alguns gestos em silêncio.
A minha escola, ou o que restava dela, serviu para acolher os feridos e transformou-se numa espécie de hospital. A ajuda para aliviar dores não era muito eficaz porque ninguém sabia ainda do que se tratava, apenas se dizia que tinha sido lançado um novo tipo de bomba. Não havia medicamentos para tratar aquelas pessoas que iam chegando cada vez mais e mais. Muitas acabaram por morrer nas horas seguintes. Durante todo o dia um cogumelo de fumo pairou no céu e a chuva preta não cessou de cair. Essa foi a noite mais longa da minha vida. Fiquei sozinho em casa. O meu pai continuava em Hiroshima em missão de salvamento e a minha mãe dava assistência aos feridos no hospital. Encolhi-me num canto do que restava do meu quarto. Na escuridão da noite sentia apenas o corpo a tremer e as lágrimas a correrem-me pelo rosto. E, apesar do cansaço, tinha medo de adormecer.
No dia 9 de Agosto, fui a Hiroshima com os meus pais e a equipa de salvamento. Ia procurar ajudar a encontrar os nossos familiares e amigos desaparecidos. Quando lá cheguei, vi a cidade de uma ponta à outra. Estava toda destruída e apenas algumas, poucas, estruturas de betão teimavam em manter-se de pé. A imagem era desoladora. Os corpos queimados amontoavam-se pelas ruas destruídas e nós tínhamos de os desviar com os pés para podermos passar. Ao fim de algum tempo já estava completamente anestesiado e não me assustava quando levantava os destroços e deparava com mais um morto dizia simplesmente ao meu pai ou à minha mãe: aqui está mais um.
As buscas para encontrar sobreviventes eram na maioria dos casos infrutíferas. Uma das pessoas que encontrámos com vida era uma senhora conhecida do meu pai, uma rapariga muito bonita que à primeira vista parecia não estar ferida, mas que quando se voltou verifiquei que tinha só metade da cara, a outra metade tinha desaparecido, era apenas carne viva. A cada passo deparava com uma cena de horror. Ao percorrer uma das ruas, tropecei numa metade de um cavalo. A palha saía do que restava da barriga do animal e a outra parte tinha, pura e simplesmente, desaparecido. Nas paredes em ruínas viam-se silhuetas de corpos que se tinham desintegrado. Os corpos haviam desaparecido e apenas restavam as imagens do que aquelas pessoas tinham sido. Pareciam radiografias gravadas nas paredes. Um cheiro nauseabundo e insuportável espalhou-se por toda a região. Durante semanas deram à costa inúmeros cadáveres de pessoas que se tinham lançado à água para fugir às consequências da explosão. Por isso, vimos milhares de corpos inchados a flutuar na baía de Hiroshima.
Entretanto, a escola de Yokohama continuava a funcionar como hospital, e os meus pais sem ir a casa, nem para dormir. A prioridade máxima era ajudar as vítimas que, na maior parte dos casos, acabavam por morrer. Podiam durar horas, dias, até semanas, mas acabavam por não resistir. Mesmo àquelas que pensavam que não tinham sofrido nada surgia-lhes, algum tempo depois, uma pequena ferida que crescia rapidamente e se espalhava por todo o corpo. As chagas pareciam cobertas de um pó branco, mas quando as observávamos mais de perto percebíamos que o branco pertencia, afinal, a larvas minúsculas que se contorciam na carne já apodrecida. E, como se tal não bastasse, as moscas colavam-se pegajosamente às feridas. Era horrível ver morrer as pessoas e não saber como as ajudar, porque ainda era desconhecida a causa de toda aquela calamidade.
Também muitas das pessoas que integraram missões de salvamento acabaram por morrer. Naturalmente, também eu e os meus pais fomos atingidos pelas radiações e ficámos fracos. Senti-me sem forças e durante muitos meses não consegui endireitar-me completamente, nem ficar muito tempo de pé. Sangrava das gengivas e o cabelo caía-me abundantemente. O meu pai foi aquele que durou mais de toda a equipa de salvamento de que fazia parte, mas mesmo assim morreu cedo, aos 57 anos. A minha mãe e eu conseguimos sobreviver, mas somos vigiados por médicos e ficámos com um cartão que ainda hoje nos acompanha e identifica como pessoas que foram sujeitas a radiações.
Na altura, os homens eram educados de forma a não sentir medo e nunca chorar, e eu sempre fiz um esforço enorme para mostrar a minha força. Como já tinha assistido a algumas destruições e mortes provocadas pelos ataques aéreos, pensava que estava preparado para tudo, mas afinal, nem as imagens mais terríveis da nossa imaginação podem ser comparadas com as que foram provocadas pela bomba atómica. Apesar dos meus nove anos, nunca mais vou esquecer aqueles dias em Hiroshima.

Testemunho de Shintaro Yokochi, criança com nove anos, no dia 06.08.1945, quando a loucura suprema, o horror absoluto se configurou nessa demência da história humana. Via Revista Expresso, 05.08.2000.