terça-feira, 30 de abril de 2013

Adormecer a noite

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I've been chasing ghosts and I don't like it
I wish someone would show me where to draw the line
I'd lay down my sword if you would take it
And tell everyone back home I'm doing fine

I was with you down in Acapulco
Trading clothing for some wine
Smelling like an old adobe woman
Or a William Burroughs playing for lost time

I was thinking about my mother
I was thinking about what's mine
I was living my life like a Hollywood
But I was dying on the vine

Who could sleep through all that noisy chatter
The troops, the celebrations in the sun
The authorities say my papers are all in order
And if I wasn't such a coward I would run

I'll see you me when all the shooting's over
Meet me on the other side of town
Yes, you can bring all your friends along for protection
It's always nice to have them hanging around

I was thinking about my mother
I was thinking about what's mine
I was living my life like a Hollywood
But I was dying, dying on the vine - John Cale, Dying on the Vine

domingo, 28 de abril de 2013

A casa desmedida I

Pela palavra descobrimos memórias, cores, sons, imagens, figuras que se eternizaram pelos momentos distantes no tempo com que os vivemos, mas são pelo excercício da memória, pelas letras experiências de construção do presente. Em alguns posts deixamos um inédito de Sophia, nessa dimensão única do passado reconhecido com o seu olhar.

No Porto a minha vida passsava-se entre duas casas: a casa de meu pai e da minha mãe, onde nasci e vivia, e a casa da minha avó, que ficava ao longo da rua, e onde durante os longos, longos anos de infância, adolescência e juventude eu ia quase todos os dias. 

Ou melhor: não era propriamente a casa da minha avó que eu ia mas à quinta que a rodeava - os maravilhosos jardins, os buxos, as rosas, as camélias, as glicínias, os muguets - os altíssimos plátanos do parque e os seus troncos onde estavam escritas iniciais e datas e, às vezes, desenhados os corações de todos os namorados da família, as suas penumbras verdes na Primavera e no Verão, a luz doirada do outono e o chão juncado de folhas, o desenho dos ramos nus no céu frio de Inverno, o cheiro intenso e húmido da terra, do lago  e dos musgos - o pomar, o ténis, as hortas, os tanques, o pinhal, os campos - tudo isso era para mim um mundo inesgotável de contínua descoberta.

Nas clareiras do pinhal cresciam cerrados os fetos que em pequena me chegavam aos ombros e formavam uma grande massa verde ondulada, onde eu e os meus irmãos pretendíamos tomar banho de mar. Mergulhávamos nos fetos como em ondas, fingíamos nadar, o que nos divertia infinitamente e me punha em grande estado de euforia - saltávamos, ríamos, mergulhávamos entre as folhas ásperas dos fetos, rente ao perfume da terra.

Lé em cima baloiçavam as grandes copas dos pinheiros mansos. De repente passavam bandos de pássaros. Estalavam ramos, tudo estava cheio de múrmurios. Ao longe avistava-se o mar brilhante e o friso branco das espumas. Tomar banho nos fetos do pinhal como tomar banho de mar na praia, era a nossa união com a felicidade do terrestre.

(Excerto inicial de "A casa desmedida", integrado nos inéditos que a BN abrirá oa público em 2016).

sábado, 27 de abril de 2013

Viver a Viagem

"Uma paisagem só pode suscitar a emoção do sublime quendo sugere força, uma força maior que a dos humanos e que os ameaça. Os lugares sublimes encarnam um desafio à nossa vontade". (1)

Alain de Botton, dá-nos em A Arte de Viajar um conjunto de referências sobre algo constante na dimensão humana, a busca da felicidade e a apreensão íntima da beleza. Isto é o plano maior dessa construção, de que os Gregos chamavam a Plenitude Humana, ou seja o modo como na viagem tentamos superar a rotina e o quotidiano.

A viagem se é para alguns, um momento regular de libretação e de conhecimento de outras geografias, é para outros a tarefa essencial da vida. Pensar a viagem, entre o desejo, o sonho e as imagens criadas, a curiosidade por buscar noutras culturas o complemento do que somos são alguns dos tópicos abordados pelo autor.

 A viagem e os seus locais por onde alguns se aventuraram em formas de construir uma intimidade solitária e que buscava o outro, a natureza, o sublime que nos transporta a momentos de trancendência e à verificação da nossa frágil efemeridade. A viagem, como descoberta do que mais intímo mora em nós, da capacidade de ver o mundo e de o representar com significado no que será o mais perene da experiência humana conduz-nos à Arte.

A viagem dá-nos assim pela sua iniciação nas palavras, os significados que todos os passos souberam registar no olhar atento do real. Um livro sobre paisagens, escritores, poetas, visionários, viajantes que fizeram da viagem uma fonte de energia criativa e um caminho alternativo, na descoberta mais próxima da realidade que nos envolve.


(1) Alain de Botton, A Arte de Viajar, Dom Quixote

sexta-feira, 26 de abril de 2013

A viagem...

"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as sua próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sobre o próprio teto. Um homem precisa de viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos , e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver".

Amyr Klink, Mar sem fim 

quinta-feira, 25 de abril de 2013

Nos sons dos verdes anos

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Na esperança do dia novo, entre os sonhos mais generosos, as tonalidades de quem de nós emitiu a mais sagrada das ambições, a dignidade do ser. Paredes, deu-nos essa beleza acordada das manhãs de todas as viagens, quando os desencontros eram ainda uma forma impensável de abrir os olhos. Poucos nos deram tanto, pois revelaram a nossa respiração acabada de nascer.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Na Alvorada do ser...

És tu a Primavera que eu esperava,
A vida multiplicada e brilhante,
Em que é pleno e perfeito cada instant
e. (1)

Vinte e cinco de Abril de 1974 é uma data em que se recorda o movimento de um grupo de militares que decidiram colocar fim num regime cinzento e velho, espelho de um País pequeno. Movimento inaugurador de uma esperança em dias novos, promissores de outros sorrisos.

Neste movimento que procurou encerrar um regime medíocre, construtor de um País analfabeto onde o presente era uma prisão de todos os dias, alguém sonhou mudar as possibilidades, transformar o «estado das coisas». Alguém sonhou ser possível restaurar a dignidade das pessoas, permitir a construção de uma comunidade mais justa.

Alguém imaginou lutar sem saber o que perdia, apenas preocupado com a determinação, a força do espírito em contribuir para mudar o horizonte de vida. Sem plano para usufruir do seu gesto, ingenuamente, digamos quase romanticamnete quis ser apenas o que serve uma causa, a da liberdade.

Alguém sem qualquer ideologia, soube até quando lidava com Ditadores ser nobre e gentil, numa atitude superior, de quem luta apenas contra o vazio das ideias e a violência da opressão. Alguém que depois de executar a tarefa, resposta a liberdade, sai com um sorriso não querendo quaiquer privilégios. Alguém que sabia que não pertence à espuma dos dias em que o carreirismo emergiria contra a sua sublime dádiva.

Alguém que sabia que «revolução» é essa luta por «um dia inicial e limpo» onde se constrói o próprio tempo, como o expressou Sophia. Neste dia de gestos repetidos, de imagens em que o passado parece ser ainda um crédito para um presente por construir, recordemos a coragem do Ser de um homem muito especial.

No vinte e cinco de Abril, deixemos-lhe um agradecimento vivo. E saibamos compreender o gesto maior de fazer, de lutar, de ser só porque isso é o que está certo, independentemente das consequências. Nesta data um aplauso vivo a Salgueiro Maia.

(1) Sophia, «Promessa», in Coral
Os Jacarandás, num dos passeios pela Boavista, Porto

terça-feira, 23 de abril de 2013

Dia Mundial do Livro

«Os livros também respiram,
e o ar que lhes enche as páginas
tem o aroma intenso das viagens
que eles nos convidam a fazer,
sempre à espera que a magia
daquilo que nos contam
possa realmente acontecer.

Os livros são a metade
dos sonhos que tu tens,
são a tua liberdade
e o maior dos teus bens,
porque tendo a tua idade
têm tudo o que tu tens.

Os livros poêm nas capas,
como as pessoas no rosto,
aquilo que nos querem mostrar,
aquilo que dá mais gosto
a quem os vai encontar.
E é assim que atraem
dos leitores a atenção
e lhes prendem o afecto,
que é meio caminho andado
para chegar ao coração.» (1)


(1) José Jorge Letria, Ler Doce Ler, Terramar


Imagens Marylin Monroe, 1955/Verónica Cendoya, poesia/Penelope Dullagham, Shambala

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Celebrar o Dia Mundial da Terra

É preciso nos quarenta e três anos da celebração do Dia da Terra entender, alertar, denunciar a degradação dos ecosistemas, a destruição de vastas zonas do planeta, vítimas de um consumismo impossível de continuar e desajustado às necessidades essenciais da comunidade humana que habita o Planeta.

É fundamental reflectir sobre um caminho sem regresso para imensos locais que são a memória geológica e botância que assim se perdem.
É indispensvel compreender os limites que a utilização dos recursos permitem e não ficar indiferente à morte de rios, ao desaparecimento de espécies vegetais, animais e rejeitar a oferta que alguns nos querem dar, de museus amorfos de qualquer coisa que existiu. Não é verdade que uma montanha, um vale, se possam aprisionar em quatro paredes. Não é verdade que ao desaparecerem formas de vida se possa estar a defender a biodiversidade.

Importa pois desenvolver uma consciência ecológica que permita construir uma sociedade humana mais perto do essencial, mais de acordo com as verdadeiras necessidades dos que aqui habitam e mais perto das possibilidades de cada País em utilizar recursos e em produzir resíduos. É essencial que a sociedade seja menos assimétrica entre os que muito têm e os que pouco têm e sobretudo o luxo como sinónimo de ter, seja mais racional, mais coerente.

O presente, sinónimo de um presente possível, necessita de uma atitude global que seja activa por limitar desperdícios, por aceitar as possibilidades de desenvolvimento de todos e não apenas de alguns, que no altar da modernidade impoêm gestos e atitudes não creditadas pelo bom senso e de consequências muitas vezes irreparáveis. Só o empenho de todos poderá fazer melhorar o Habitat da Terr
a das ameaças que sofre em escala cada vez maior.

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Dia Internacional dos Monumentos e Sítios


«Havia um tempo em que, por estas colinas (sobretudo acompanhando o derradeiro fio de água do Tua, a caminho do Douro), descia um comboio vagaroso e pobre, sujo, com as madeiras ressequidas a desfazerem-se, os varandis das carruagens enferrujados, os tectos corroídos pelo tempo. Chovia lá dentro. Os vidros, em muitas composições, tinham sido quebrados - ou, pura e simplesmente, quebraram-se com o tempo, o uso, a idade. Nos carris, o comboio chiava até encontrar as primeiras vinhas do Douro, relembrando ainda a última paisagem do planalto.

Quando o crepúsculo se despedia em Bragança, partia o derradeiro comboio que chegava ao Tua já noite alta, a tempo do transbordo para a linha do Douro, na direcção de Barca D'Alva. O percurso que desenhara no mapa, de Bragança a Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Cachão e Tua, só era conhecido por esse traçado ronceiro, lento, demorado (...) entre uma paisagem de oliveiras, azinheiras e falésias caindo sobre o que restava do rio. (...) O caso da linha do Tua evoca tragédias recentes; mais do que «tragédias», no entanto, evoca o isolamento da região.

Nada disto interessa em Lisboa, tirando excepções muito localizadas. A indústria do asfalto que tomou conta do País, acompanhada pela indústria da camionagem, pela indústria das portagens e pela indústria do esquecimento, não tem a ver com as velhas linhas férreas que desenharam a geografaia de um país onde os carris acompanhavam rios, fronteiras de província, planaltos áridos e solitários - e uma enumeração caótica de designações fora de moda. Ao longo dos anos, destruindo metódica e paulatinamente os comboios, desprezando as populações que os utilizavam e beneficiando os intersses da camionagem e dos combustíveis, o Estado preparou este cenário contra o qual há, hoje, pouco a fazer.

Uns, mais conformados, recordam; outros, menos conformados, resistem e combatem o quase inevitável fim destas linhas perdidas. Um resto de dignidade e de memória devia fazer-nos correr até onde o último comboio regional ainda corre - para o defender. O País - o Estado, os empresários, a indústria - dá o assunto como encerrado e abre auto-estradas, suja a paisagem, promove o grande progresso (...). Por isso, defender o último comboio regional, seja onde for, é combater este país abjecto que destruiu a nossa paisagem, a nossa memória e a geografia do tempo».

Francisco José Viegas, in Revista Ler Maio de 2010

(No Dia Internacional dos Monumentos e Sítios há que despertar contra este desprezo e este esquecimento que afasta tanto património, do coração dos que sabem ser aquele um Reino de cores e silêncio tranquilos. Importa que as efemérides promovidas pelo Estado tenham real significado. Um livro que nos devolve a estupidez reinante, a que provoca o nosso atraso civilizacional.



segunda-feira, 8 de abril de 2013

Picasso...

O século XX, os seus acontecimentos e formas marcaram com extrema violência a vida de milhões de pessoas. A História do século XX não pode ser compreendida sem a Arte, e as formas que ela assumiu. O século passado inaugurou de forma massiva a comunicação como meio de exprimir uma ideia. A pintura deixou de depender da noção clássica dos renascentistas da noção de perspectiva, assim como deixou de representar uma figura ou um quadro natural.
O quadro tornou-se a própria realidade, o meio de criar uma mensagem.

Neste sentido a arte em geral e a pintura em concreto poderia dar a conhecer uma ideia de realidade, uma proposta de sociedade, indicando uma visão do mundo. A perspectiva aparecia como um ponto de observação, dando-nos uma ideia, um quadro, uma descrição do real. Ora, a História do Século XX, pelas suas contradições e angústias mereciam que a perspectiva fosse fragmantada, dividida em secções, como a própria realidade.

A arte e apintura deveriam não dar representações idílicas da natureza, mas mostrar, revelar a natureza humana nos seus aspectos mais visíveis. O feio, a violência, a realidade sofrida por cidadãos em tão variados locais por onde a Guerra fez as suas vítimas. A vida moderna deveria ser expressa na sua angústia, limitações e estado de caos. A arte deveria apresentar o mundo, já distante nas formas sociais e culturais do século anterior. A este movimento iniciado em 1908 por Georges Braque e Picasso deu-se o nome de cubismo.

Foi com Picasso que a ideia da fragmentação da imagem foi levada mais longe. O nome de cubismo vem-lhe da utilização de pirâmides, cubos, cones que utilizava na diferente perspectiva dos objectos. A utilização de máscaras africanas e a utilização das suas cores vivas fez dele um artista muito importante na Arte Europeia e Mundial. Não é excessivo dizer que Picasso é um dos marcos da Arte Ocidental.

Faz hoje justamente um pouco mais de quarenta anos que desaparecia fisicamente um dos criadores do cubismo e que deu à arte e à pintura uma ideia nova e transformadora da representação da realidade e da vida. O Museu Picasso em Barcelona disponibiliza um conjunto de recursos on-line interessantes. Aqui.

Jacques Brel...



(Não sei bem porquê, mas sempre lhe achei na voz terna e doce, amarga e revoltada uma ternura capaz de fazer nascer dias novos. Abril e o renascimento primaveril, os sonhos e as desilusões, a construção que nos é dada a nós como possibilidade sempre me pareceu nele capaz de nos fazer redimir a nós próprios. Todos nós fomos em alguns momentos Brel, no sentido em que ele nos cantou nos nossos mais precários sonhos, no cansaço dos westerns perdidos. "Dieu sont tous les hommes", é um manifesto antes de todas as "revoluções", as que partem da página em branco para olhar a humanidade de frente. Que saudade deste artista fascinante e deste homem único!
«Com certeza existem as guerras da Irlanda
e também povos sem música...
Com certeza, com toda esta falta de carinho (...)
Com certeza andamos sobre as flores...
Mas ver um amigo chorar! (...)

Com certeza as cidades se esgotaram
para estas crianças de cinquenta anos
Nossa incapacidade de ajudar (...)
Claro que o tempo passa muito depressa
estes subterrâneos cheios de afogados
É a verdade que nos evita...
Porém ver um amigo a chorar! (...)

E todos estes homens são nossos irmãos
Com certeza estamos assombrados
pelo amor que nos dilacera...
Mas ver um amigo chorar!» (1)

Jacques Brel, Voir un ami pleurer

(No Nascimento de Brel, oitenta e quatro anos depois, a voz de uma palavra intensa e inesquecível.)

domingo, 7 de abril de 2013

Billie na voz das estrelas



Há largas décadas, justamente a  sete de Abril de 1915, que se celebra mais um ano sobre o nascimento de uma voz única e indescrítivel em palavras. Uma voz plena de emoção que nos dá uma ideia de voo sobre os sonhos, alicerces numa vida em que tantas vezes não se atinge aquilo que imaginámos.


Billie, com uma voz levemente rouca, de um timbre pleno de sensualidade, capaz de nos fazer dar os quadros etéreos entre a felicidade que se procura e a desilusão que tantas vezes sofremos. Ela própria, vítima em criança da extrema pobreza, do abandono, dos maus tratos, foi sem dúvida com a sua voz de anjo um ícone de todas as incompreensões e lutas que travou num tempo em que ser negro era mais uma dificuldade.


Com Lester Young, criou um conjunto de emoções de uma natureza poética sublime, onde a grande altura nos deu o sorriso triste e doce de uma melancolia generosa. Na sua breve vida, encantou mais do que qualquer outra voz o fascínio do encontro e a amargura da desilusão, sempre emocionada e verdadeira numa alegria de entrega pela arte e pela vida. Abaixo um exemplo da sua arte.

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Porto, a cidade onde me sonhei...

Quantos que por aqui nasceram não gostariam de escrever este texto que é um inédito de Sophia? Aqui fica para uma dedicação sentida à cidade das camélias e do granito.

 "Nasci no Porto.
Ali estão as tílias enormes, as manhãs de nevoeiro, as praias saturadas de maresia, os rochedos cobertos de algas e anémonas, as Primaveras botticellianas, os plátanos, a cerejeira, as camélias. Ali o rio, as casas em cascata, os barcos deslizando rente à rua nas tardes cor de frio do Inverno. Ali, o cais da Ribeira, os rostos, as vozes, os gritos, os gestos. Uma beleza funda, grave, rude e rouca. Escadas, arcadas, ruelas abrindo um rosto emergindo do fundo do mar da vida. Porque ali é a cidade onde pela primeira vez encontrei os rostos de silêncio e de paciência cuja interrogação permanece. Porque ali é o lugar onde para mim começam todos os maravilhamentos e angústias.

Cidade onde sonhei as cidades distantes, cidade que habitei e percorri na ilimitada disponibilidade  interior da adolescência. Descia pelo Campo Alegre, passava a Igreja do Lordelo, seguia entre muros de jardins fechados. Através das grades de ferro dos portões viam-se redodendros, buxos, cameleiras. Depois surgia o rio e ao longo do rio caminhava sobre a balaustrada de pedra, até à barra até aos rochedos onde saltam as ondas. (...)

E o Porto onde vivi a adolescência e, em parte a juventude foi também a cidade onde encontrei uma cultura que não vivia ao sabor do tempo e da moda. Ouvíamos Mahler muito antes de Mahler estar na moda. Estávamos longe de grupos literários. Falávamos pouco ou nada de avant-garde. Líamos tanto o Proust. Líamos as Canções de Amigo, Horácio, Goethe, Rilke, Lorca. Os concertos eram longamente escutados, religiosamente recordados.

Sem dúvida a cidade tinha as suas convenções, estreitezas e praxes. Mas em contrapartida o cabonitismo e o arrivismo eram coisas raras. Porque nasci no Porto sei o nome das flores e das árvores e não escapo a um certo bairrismo, mas escapei ao provincianismo da capital".

Sophia, Do espólio a abrir ao público em 2016 (cedido pela família e publicado na Ler)   


Imagem, de José Paulo Andrade, "As duas pontes"
in http://www.pbase.com/jandrade/image/96569584

sábado, 6 de abril de 2013

Na memória dos dias

Passaram quase décadas e estes sons, estas palavras pareciam ecoar como um renascimento de possibilidades. Seria daí a dias uma senha para uma alvorada que parece se ter perdido, entre a passividade das ambições mais conformistas. Remete-nos hoje para uma solidão nova, ainda mais difícil, pois a esperança na causa pública é um devaneio sem heróis, num país esquecido de si.

sexta-feira, 5 de abril de 2013

No jardim das estátuas

A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua.

Hélia Correia in A Terceira Miséria

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Mário...


 Foi o maior actor da sua geração. As palavras tiveram no seu rosto, expressões, formas, brilhos de encontros, entre a voz e a imaginação do possível, entre o espanto do sonho e o cansaço do incumprido. Com as suas lágrimas, os seus sorrisos, a sua indómita vontade, as palavras tiveram oportunidades novas. E tinha aquele ar encantado de miúdo sempre à descoberta de um sonho.          
 
De Mário Viegas as palavras serão sempre poucas, raras, marginais para descrever a entrega a elas e à poesia. Raras para o assombro da voz, a plasticidade do rosto, a expressão dos olhos, a fúria por aquilo que consome o actor e o que o faz amar, em múltiplas cabeças, o que o torna humano e universal, quando "ornamenta Deus com simplicidades silvestres". (Herberto Helder, "O Actor")

Dele ficará sempre a doçura e a raiva na voz contra o que desejamos e não sabemos ser, contra o conformismo perante o verniz que destoa a claridade do dia e o perfume das maçãs. Fomos com ele um sonho de manhã silvestre, por onde hoje caminhos efémeros se diluem, ainda que tenhamos nos olhos o mês de Maio. Acreditemos que esta é a melhor mentira do dia 1 de Abril e que ele ainda todas as manhãs sonha connosco o nascer de todas as palavras.

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