domingo, 31 de agosto de 2014

Leituras - Uma poética da geografia

«Se escavarmos as nossas memórias de infância lembramos primeiro caminhos, e depois coisas e pessoas - carreiros no jardim. O caminho para a escola, o percurso em volta da casa, áleas por entre fetos e erva verde.» (1)

Toda a nossa história humana se construiu em redor desta escolha, que todos fazemos, entre o desconhecido, a miragem da geografia, o cansaço do corpo nos trilhos do vento e o lugar fixo, sedentário. Entre pastores e camponeses, entre a Geografia e a História, a dúvida no amanhecer e a certeza em todos os dias, eis a escolha que a condição humana tem feito. No essencial, a viagem.

Ela é a marca impressiva, o pergaminho que nos dá o reconhecimento do que somos, a verificação das capacidades individuais nos momentos em que o real, o quotidiano é desordenado pelo azul do céu, o verde das florestas ou o castanho poente do deserto. Poucas coisas, raras, são as que nos dão a oportunidade de fazer a descoberta interior, como as que encontramos nos tons da aurora e do crepúsculo, na brancura das nuvens, na descida de um rio ou na subida íngreme de um trilho de montanha.

É na Geografia que descobrimos a multiplicidade do que somos, tão difícil de explicar. É ela que nos permite o nosso irregular talento por criar a originalidade humana. Perante a dimensão do natural conseguimos exprimir melhor as emoções que numa sociedade civilizada tem demasiados obstáculos ao sentido do ser.

Michael Onfray escreveu um livro fascinante sobre a viagem, as motivações dos viajantes, o desejo de encontro nos vastos espaços, a cartografia do mundo no encontro com a memória e com a palavra.

Um livro que nos faz descobrir como o viajante encerra em si uma liberdade capaz de discutir as certezas dos que vivem instalados num real conhecido, previsível e domesticado pela razão e pelo conforto. As culturas, os homens que na História ousaram construir sob o tempo social, um outro, mais individual, subjectivo, emocional, guiados pela Natureza e seus ritmos conseguiram chegar ao encontro único. Aquele que podemos fazer com nós próprios, num movimento finito, que apesar da mortalidade nos permita comportar como «fragmentos da eternidade» (2)

(1) Bruce ChatwinAnatomia da Errância
(2) Michael OnfrayTeoria da Viagem

Leituras - Os Maias


"Ega queixou-se do país, da sua indiferença pela arte. Que espírito original não esmorecia, vendo em torno de si esta espessa massa de burgueses, amodorrada e crassa, desdenhando a inteligência, incapaz de se interessar por uma ideia nobre, por uma frase bem feita?
- Não vale a pena, Srº Afonso da Maia. Neste país, no meio desta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano..."  (pág. 326) 

Leituras - Sonhos azuis pelas esquinas

venho dizer destas ruas que o sol aperta, e as sombras e os panos e as tranças nas meninas que passam - crianças que olham o mar com a simplicidade das pedras, aqui onde todas as varandas penduram ausências de gentes por regressar. os pássaros voam parados, suspensos e próximos, dando sombra às árvores e graças ao céu azul. 

vejo telhados sobre as pedras e pedras sobre a ilha, mas o chão respira uma frescura humana, os panos vestem as pessoas e as pessoas buscam negócios de regateio. chega um barco cheio de palavras caladas. (...) mais tarde a noite dará voz às sombras, as sombras serão calmaria e escuridão. as árvores beijarão os pássaros. os dedos hão de alcançar um torpor de mansidão. (...)

o apito de partida é o sinal de chegada àqueles que decidem ficar.
é de tarde ainda e quase noite: são os pássaros que o dizem. no céu não existem lágrimas; chegou a lua; as árvores adormeceram e sinto no ar, nos restos desta tarde senegalesa, um arfar de madeiras. não vejo canoas, sinto apenas a sua dança, um embalar de braços e ondulações, uma cantoria de remos, um poema molhado no sal.

quero a lua sobre a mesa - junto ao peixe, ao molho, ao arroz que devolve à minha refeição o branco do luar. quero conchas rumando ao meu quarto vazio, quero lençóis plenos de uma maresia fresca - para que a noite resulte e, depois dela, nas frestas do meu lençol branco, a madrugada possa vir sorrateira aprisionar-me em mim.

quero um grilo calado, um pirilampo em sereno apagamento. vozes para voos rasantes, ou uma luz negra que, sem acordar, acabasse por adormecer. (...)

pela manhã, vi o sol no mar e as ondas do meu olhar. uma saudade amarela abateu-se sonre mim e eu ri - porque era cedo e porque as nuvens não tinham chegado ainda. havia um anzol no meu sorriso.
vi os homens perto do cais e as ondas por trás e os imbondeiros erto das crianças que esquivam as pedras de sorriso aberto.

(Os lugares que habitamos nem sempre são o que queremos ser e vamos por cidades onde queremos ser mais perto de nós, ver a luz distante em cada porto e os sonhos azuis, na cor imensa que faz recordar as possibilidades de todas as histórias. Uma viagem por cidades e por aquilo que mais precisamos, estar dentro de nós com o sonho na respiração).
Ondjaki, "Gorée", in Sonhos azuis pelas esquinas

sábado, 30 de agosto de 2014

Leituras - A pomba

"E só a consciência deste poder simbólico, que o imbuía de orgulho e dignidade, que lhe dava força e resistência, que o protegia melhor do que a atenção, a arma ou o vidro blindado, só esta consciência permitira a Jonathan Noel conservar-se de pé nos degraus de mármore, à porta do banco, e exercer a sua vigilância sem medo, sem duvidar de si próprio, sem a menor sombra de descontentamento e sem uma expressão enfastiada no rosto durante trinta anos, até esse dia. (...)

Aquela arrogância e aquela segurança sólidas que antes adivinhara na pessoa do vagabundo tinham-se insinuado nele como metal líquido, tinhamendurecido e formado uma armadura interior e tinham-no tornado mais pesado. Doravante já nada o poderia abalar, já nenhuma dúvida o poderia fazer hesitar. Atingira a serenidade esfíngica. Em relaçao ao vagabundo - quando o encontrava ou o via sentado em qualquer sítio -, experimentava apenas aquele sentimento a que geralmente se chama tolerância: um misto muito vago de repugnância, desprezo e compaixão. O homem já não o perturbava. O homem er-lhe indiferente. (...)

Sim, pode dizer-se que através dos seus olhos Jonathan já não recebia uma verdadeira imagem do mundo exterior, era como se os raios luminosos seguissem o caminho inverso, e os olhos só lhe servissem de portão de saída, para projectar no mundo as suas alucinações grotescas. (...) Como se ele Jonathan - o u oque dele restava -, não passasse de um minúsculo gnomo engelhado, metido na gigantesca carcaça de um corpo estranho, não passasse de um anão indefeso, preso no interior de uma máquina humana demasiado complicada e que já não conseguia dominar e governar à sua vontade, mas que era governada por si mesma ou por quaisquer outras forças, se é que alguma coisa a governava. "

(Uma fábula sobre os aparentes alicerces da vida das pessoas, das instituições e do poder simbólico que decorre da consciência e da forma como se assume uma função de esfinge ou de marioneta. Um pequeno livro sobre as armadilhas constantes com que o quotidiano nos absorve e a fragilidade em contacto muito íntimo sobre como o mundo nos olha e como o quotidiano está cheio de ilusões).

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Perfeito sentido

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"(...) He said Mama
The President's a fool
Why do I have to keep reading
These technical manuals
And the joint chiefs of staff
And the brokers on Wall Street said
Don't make us laugh
You're a smart kid
Time is linear
Memory is a stranger
History is for fools
Man is a tool in the hands
Of the great God Almighty
And they gave him command
Of a nuclear submarine
Sent him back in search of
The Garden of Eden
 
 
Can't you see 
It all makes perfect sense
expressed in dollars and cents
Pounds, shillings and pence

 
Oh, can't you see 
It all makes perfect sense
expressed in dollars and cents
Pounds, shillings and pence. " - Roger Waters - "Perfect Sense"


Goethe

."..quando vejo que toda a actividade se esgota na satisfação de necessidades, cujo único propósito é prolongar a nossa pobre existência e, ainda, que toda a tranquilidade em relação a certas questões não passa de uma resignação sonhadora, pois as paredes que nos aprisionam estão cobertas de formas coloridas e perspectivas luminosas… isso tudo, (…), me deixa mudo. Volto-me para dentro de mim mesmo e encontro um mundo! Mais pressentimentos e desejos do que de raciocínios e forças vitais. E, então, tudo flutua ante meus olhos, sorrio e, sonhando, penetro ainda mais neste mundo…" (1)

Johann Wolfgang von Goethe é um dos marcos fundamentais da literatura contemporânea que atravessa a passagem do século XVIII e XIX. Goethe desenvolveu uma obra de grande valor cultural, tendo feito uma síntese feliz e essencial entre o iluminismo e o romantismo. 

Nasceu a vinte e oito de Agosto em Frankfurt, tendo desenvolvido uma obra de escrita e de pensamento, tendo produzido, romances, peças de teatro, poemas, escritas autobiográficas e reflexões diversas sobre a arte, a literatura e as ciências. Goethe é com Schiller um dos grandes representantes do classicismo como movimento cultural, mas também como princípio gerador de possibilidades de vida. 

Nascido numa família abastada, estudou em Leipzig Direito, tendo optado por se dedicar ao desenho e à gravura. No regresso a Frankfurt volta ao estudo de Direito, onde recebe influências diversas, com destaque para Johann Gottfried Herder que o introduz em autores diversos e no estudo da literatura.  Em 1771 focaliza-se na poesia e em 1774 publica Werther, que é um sucesso em toda a Europa e que reflecte episódios pessoais. Publica Os anos de aprendizagem de Wihlem Meister. A partir de 1786 viaja pela Itália e os valores do classicismo e da antiguidade irão influenciar a sua obra. Já no século XIX publica As afinidades Electivas, Fausto e a Teoria das cores.

Em Goethe assiste-se ao desenvolvimento de um conceito essencial da cultura alemã que se perderia na euforia de medo do século XX - "O bildung". Conceito que explora a ideia de "auto-formação", no sentido de que cada um deve aperfeiçoar a sua personalidade, não apenas num conceito enciclopédico, como o pensavam os iluministas, mas procurando uma elevação espiritual, fazendo aperfeiçoar as nossas emoções contribuindo para um indivíduo mais consistente do ponto de vista moral. 

A formação consistente do ser humano, no sentido que o que nos tornamos individualmente contribui para uma responsabilidade social. Visa-se a procura de uma pureza em clara oposição ao puro utilitarismo do quotidiano. As ideias de Gothe que Thomas Mann desenvolveu em A montanha Mágica e que deu continuidade na ideia de nobreza de espírito é um dos fundamentos de uma sociedade civilizada que o século XX ignorou e que presentemente assistimos a formas pavorosas de continuidade, sem qualquer brilho de dignidade humanas.
(1) Gothe, Werther, Guimarãe Editores.
Imagem (Jardim em Viena - via Goethe - Institut)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Memória de Lorca

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Now in Vienna there's ten pretty women
There's a shoulder where Death comes to cry
There's a lobby with nine hundred windows
There's a tree where the doves go to die
There's a piece that was torn from the morning

This waltz, this waltz, this waltz
With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea.

There's an attic where children are playing
Where I've got to lie down with you soon
In a dream of Hungarian lanterns
In the mist of some sweet afternoon
And I'll see what you've chained to your sorrow
All your sheep and your lilies of snow

Leonard Cohen - Take this waltz


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Um governo de medo e mentira (IV)

"O poder não é um meio, é um fim em si mesmo". (George Orwell, 1984)

Três informações revelam-nos de como a base do governo de sua majestade, o presidente da república, um governo de interesses calculados entre a finança sem critérios de regulação e um poder político de privilégios de uma minoria se alicerça no essencial, o poder como forma de dominar uma sociedade, escravizando-a nas suas possibilidades.

1. 17.07.2014 - A ministra das finanças com a verdade com que costuma falar nas suas declarações garante: "Não estamos a preparar nada, nem temos qualquer indicação que isso possa ser necessário".

2. 21.07.2014 - O garante da Lei em referências de um país de liluputianos com a reverência à profundidade profunda com que decanta as palavras, o presidente da república: " De acordo com a informação que tenho do próprio Banco de Portugal, considero que a sua actuação tem sido muito, muito corrcta".

3. 06.09.2014 - O ministro da economia, na postura do grande sábio, revelou que o desastre é lamentável, mas nós não sabemos explicar no grande exercício de cidadania de que somos como sociedade parte de um grupo de incapazes: "Os acontecimentos relativos ao BES são inexplicáveis". (1)

Os actores políticos e económicos que se autopromovem estão no presente momento de decadência moral sem nenhuma ideia de boa vontade, apenas a de favorecer os negócios que permitem o essencial - manter o poder. Não existem mecanismos de regulação. Em Janeiro de 2010, os excelsos empresários da banca renunciaram a um código de ética na gestão bancária e a autorização do banco de Portugal a negócios de um banco há muito em suspeita só revela que aquele se comporta sem nenhuma ética de regulação.

 É é apenas isto em que o País se tornou, um conjunto de pessoas que enriquecem à custa do trabalho de uma sociedade, revelando um desprezo por toda a decência. As instituições de soberania não escapam. Não é possível chamar a isto Democracia. Pena que quem utiliza o espaço mediático não saiba na sua grande maioria exercer um papel de cidadania. É preciso lutar, denunciar contra os privilegiados, os senhores do momento, um novo Big Brother de campos sociais destruídos. Um exemplo que importa seguir. Aqui.

(1) - Fonte - Jornal Expresso

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

A desigualdade como princípio da sociedade

A questão que se segue pode ter um tratamento jurídico, mas não é esse tratamento que me interessa. Pode ter um tratamento de ciência política, mas não é esse tratamento académico que me interessa. O único tratamento que me interessa é um tratamento que se pode chamar "civilizacional", cultural no sentido lato, político no sentido restrito, de escolha, visto que prefiro viver numa sociedade assente em contratos, confiança e boa-fé, do que numa selvajaria em que impera a lei do mais forte.

Este é portanto um artigo muito conservador, contra o "revolucionarismo" desleixado e impensado do Governo e do poder actual, que semeia tempestades que deviam repugnar qualquer cidadão que prefere viver numa democracia onde impera a lei e o direito e onde não há "estados de excepção" unilateralmente proclamados pelo poder executivo contra o poder judicial.  

A questão tem a ver com a "confiança" e tem sido discutida à volta da decisão do Tribunal Constitucional. Chamam-lhe "o princípio da confiança", e os juristas diriam que está implícita na noção latina de que pacta sunt servanda, os contratos são para cumprir, a que eu acrescentaria a noção de que essa é também uma base do funcionamento de uma sociedade democrática e de uma economia de mercado. 

A ideia de que os pactos devem ser cumpridos, ou seja que a lei os deve proteger, foi um dos grandes adquiridos na Holanda, que permitiu o aparecimento dessa grande invenção que foi a "companhia", ou seja, o capitalismo moderno. A tempestade originada pela decisão do Tribunal Constitucional equipara a "confiança" a um "direito adquirido", uma expressão que ganhou hoje, na linguagem do poder, a forma de um qualquer vilipêndio.

 Segundo essa linguagem, repetida por muito pensamento débil na comunicação social, os "direitos adquiridos" não são mais do que privilégios inaceitáveis, que põem em causa a "equidade". Se parassem para pensar veriam que não há equidade nenhuma, e meditariam um pouco sobre por que razão se fala de equidade e não de igualdade. 

José Pacheco Pereira, "Contratos para cumprir e contratos para violar" - 1ª parte
in Público. 07.09.2013 
Imagem - copyright - Richard Byres, (un) lucky day. (Via http://1x.com/)

O novo velho comissário

O mundo em que nascemos e crescemos está a terminar, no pior sentido, naquele em que não se realiza uma transformação sustentável de uma sociedade, onde os valores humanos tenham significado, mas de uma ruptura com os princípios da dignidade e da ética social. Até há duas gerações pensar a realidade vivida, ler o património cultural e geracional da humanidade, participar na construção do mundo era um desejo, uma missão de significado na  vida das pessoas, no seu desejo de participação, de ligação a uma comunidade.

A luta por ideais de valorização pessoal, de crescimento social e valorização cultural, de contribuir para a definição de opções de vida era uma dignificação espititual das pessoas e um enobrecimento funcional da sociedade. A vida intelectual, a política, a criação artística servia o propósito de valorização de uma comunidade. Cada um podia ser um elemento de uma construção comunitária como pertença a um património de identidade. Este mundo está a desaparecer e com ele a decência do valor humano na gestão dos bens públicos, pois os novos imperadores desconhecem que uma sociedade mais não é que um conjunto humanizado de bens públicos.

O desprezo pelos estudos clássicos, a ausência real do conhecimento e utilização competente da língua, na desvalorização da memória, da marginalização da arte, na destruição do pensamento científico como forma crítica do real fez nascer em universidades assépticas, uma nova casta de imperadores. Os media estão cheios deles, tal como a política. O srº Moedas, recente comissário é um dos mais ilustres desta formatação acima do valor real do conhecimento e da cidadania.

A Gestão, irrelevante como escolha há trinta anos é hoje um dos cursos de eleição e vemos nele e em formações afins uma formatação por um mundo feito de abstrações, onde cada indivíduo não tem significado. A Economia, definida como ciência da aproximação, onde as previsões são defendidas como unidades coerentes com a plasticidade que o real se assume na física quântica, tece uma rede de ligações ao mercado financeiro, predominantemente especulativo e apoiado numa classe política sem responsabilidade cívica.

A política e a economia servem-se mutuamente no dálogo brilhante de garantir todas as operações possíveis àquela e de a financiar do modo que mantenha os privilégios de uma minoria. Os novos sábios existem apenas para justificar a plenitude do novo império. Entre política e economia tudo ém justificável em nome da pura gestão material. Não limites há imaginação. Dominando as instituições de soberania nacional, por castings alimentados nos media e na recrutação partidária, o ideal de transformação social morreu nos caminhos de uma dominação da maioria pelos interesses estratégicos dos mais poderosos.

É neste mundo novo, admirável mundo que concilia uma nova casta de imperadores do material, onde cada palavra é insignificante. O comissário distinto agora nomeado numa instituição que vive para si como uma grandeza histórica e de nulidade civilizacional responde ao domínio dos financeiros. É essa a grande função comissário Moedas. Aplicar as regras que a casta de financeiros que dominam a União mais lhe convém. Neste novo mundo, de regressão civilizacional, são estes os esteios dum mundo representado por pessoas sem nenhuma ligação a um território, a uma cultura, a uma língua.

Memória do coração das trevas


segunda-feira, 4 de agosto de 2014

Governar entre o medo e a mentira (III)

Na incorporação da culpa feita aos mais fracos, e na sua ausência no aparelho de Estado e aos socialmente mais favorecidos, que relação existe com o que poderíamos chamar a circulação do poder. E aí, qual é  a penalização que há?
 Um dos mais importantes banqueiros esqueceu-se de declarar cinco milhões de euros ao fisco. Acaso o ministro deixou de jantar com le? Pelo contrário.

 Revolta-me sempre penalizar os mais fracos, sempre interiorizar a culpa aos mais fracos. Mesmo que eles tenham alguma culpa, socialmente há um enorme desiquílibrio emquem tomou as principais responsabilidades e sobretudo não culpabilizar retrospectivamente as gerações porque usaram as oportunidades que tiveram na sua vida e não foram elas que decidiram como era o crédito bancário, não foram elas que decidiram de forma tão desiquilibrada porque elas tinham algum provento material que lhes garantia que isso não lhes destruía a sua vida.

O que aconteceu é que passamos de uma nação de pessoas solventes para uma nação de pessoas insolventes. Porquê? Pelo fisco. Têm a culpa de ser insolventes? Têm a culpa de serem eles a pagar o custo de uma crise que efectivamente atinge desigualmente a sociedade portuguesa? Há desigualdade na penalização pela crise, enorme desigualdade e isso é socialmente inaceitável. 

A interiorização da culpa teve sucesso neste processo de desagregação dos laços sociais, feita de um modo em que os mais velhos estão a prejudiacrt os mais novos, que os empregados estão a prejudicar os desempregados. Nada disto é provavel em estatísticamente. São os patrões que dizem que a legislação laboral não é um obstáculo nas empresas. É o governo que diz que é. É um dos aspectos que tem a ver com a desagregação do sentimento nacional. Muita gente come tudo o que lhe põem no prato.

E depois o assédio ao pódium público, com meia dúzia de excepções, foi dominado por uma linguagem política em nome da economia, do economês, que é uma preversão da linguagem política. Essa linguagem que se tornou dominante leva as pessos a interiorizarem a culpa e acharem que não há alternativa e quando por qualquer motivo se propõem alternativas, imediatamente se lhes diz, que numa semana não há dinheiro para salários, isto após três anos com os sacrifícios impostos, impliva que alguma coisa correu terrivelmente mal.

O que verdadeiramente não há dinheiro para pagar é a enorme dimensão da dívida pública que aumentou nos últimos anos. Esse é que é o problema. E sem economia, dificilmente será pago. Vivemos num reino de logro, realmente. O défice previsto era de 3,5%, estamos em 5%. Como é que foi um sucesso? O desemprego subiu para lá do previsto. É um sucesso!?

E com a ideia de distinção entre recuperação económica e social. O discurso é, estamos em pleno çilagre económico, mas ele não se vai reflectir na vida das pessoas tão cedo. Isto não tem sentido em democracia, o que significa que os resultados desse milagre económico não são distribuídos como deviam ser. E não são, porque nos últimos dois anos, os canais que permitiam essa distribuição foram destruídos. 

Ou seja, a desigualdade cresce também porque os mecanismos reguladores redistributivos em qual assenta uma sociedade como a nossa, esses mecanismos foram afunilados para os debaixo  e alargados para os de cima. E é por isso que esta injustiça dos dias de hoje, que a injustiça é onome que temos lhe dar é de facto eticamente inaceitável. E por isso eu tenho muita dificuldade em que de facto me tomem por parvo. Não só por uma questão subjectiva de eu não gostar; eu não gosto realmente. Poderia ser só eu. Não! Infelizmente acho que são vocês todos que estão a ser tomados por parvos. E também tenho a certeza quase absoluta que vocês também não gostam.

"O sentido do fim ou o fim consentido?", Porto, Serralves, 02.04.2014
(parte de uma intervenção de José Pacheco Pereira)

As insuspeitas instituições

" Pois a gente que tem / O rosto desenhado / Por paciência e fome / É a gente em quem / Um país ocupado / Escreve o seu nome.

E em frente desta gente / Ignorada e pisada / Como a pedra do chão / E mais do que a pedra / Humilhada e calcada.(...) - Sophia, "Esta Gente" - Antologia
 
A economia não sendo uma ciência exacta tem regras que permitem que suporte o que pode ser a evolução da gestão do "bem público" e uma sociedade organiza-se, se não tivermos o totalitarismo como chave ideológica das nossas acções por uma ideia de decência. A gestão da água, do ar, das vias de comunicação, dos meios tecnológicos de comunicação, a própria estabilidade económica, social e gestão política integram o que podemos considerar "bens públicos". São elementos de uma sociedade que se regulados contribuem para o desenvolvimento social e crescimento económico. A confiança, nos reguladores e agentes políticos e financeiros depende de um grau de independência que o recente caso BES revela não existir em Portugal.

A linguagem é uma das formas de comprender como os valores do bem público ou da decência são relevantes numa sociedade. O discurso da direita que governa o País usa uma terminologia que não é verdadeira, introduz um valor de culpa nas pessoas, mas não nos socialmente favorecidos, utilizando conceitos como ajustamento financeiro, desempregados em longa duração, apenas para camuflar a realidade. O caso BES introduz mais uma vez esta forma de enganar as pessoas.

O regulador esteve a dormir. Os dados até para leigos são de monta significativa. As notícias vindas do exterior há muito referenciavam uma gestão de ligação a interesses políticos muito definifos, a irregularidades nos mercados de capitais e a sanções noutros países. A luta pelo poder no controle do banco, a entrada do eminente banqueiro nas reuniões do conselho de ministro mostra toda a promiscuidade de um poder apenas regulado para a sobrevivência dos privilegiados. As doações da PT e as ligações ao democrático e regulado mercado angolano davam a conhecer a corrupção a todos, os que não nasceram cegos.

A solução criada, a divisão entre o banco bom e mau é mais uma mentira de um poder que respeita apenas a sobrevivência dos mecanismos de domínio sobre a sociedade. O Fundo de resolução de onde vem a capitalização do "banco bom" é alimentada pelo fundo financiado pela Troika, o que quer dizer que se trata de dívida pública, ou seja dos contribuintes. Ou seja, quem está a capitalizar o "Banco novo" são os contribuintes. É uma nacionalização sem o assumir formalmente.

O Estado, este governo empresta dinheiro a privados e não regula esse empréstimo, não coloca critérios de gestão. O exemplo e a solução são um desastre dando-nos a conhecer que os portugueses não podem participar numa sociedade em que cada um com confiança dê o seu melhor, participe para o bem público. As instituições de soberania jogam tudo no poder político dos instalados, o presidente da república não assume a distinção de poderes que qualquer principiante em Direito saberia explicar e o que ontem o governador e o governo afirmaram é que neste País a mobilidade de capitais apenas respeita regras de poder, não de decência. A fraude é uma continuidade de partidos que são como maçonarias, sem vinculação ao interesse público.

O país liberto, justo e limpo de que falava Sophia está não só mais distante, como impossível num espaço onde o lixo de um poder, regido pela ganância se subscreve num país ocupado por fome e miséria humanas. Novos folhetins explicados pelos doutores do costumes nos dirão que a grandeza do momento será compreendida no futuro. Certamente nos que são esquecidos pela Lei, o que faz dos seus autores na ideia de um velho, como Marco Aurélio, da longínqua Roma, exclusivamente "desertores da decência" (1). 


(1) Marco Aurélio, "Livro IX", in Pensamentos
 (Imagem - copyright: Runway - Huib Limberg, via  http://1x.com/)
   

Penso

"Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor:
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste".

Nuno Júdice in 'Pedro, Lembrando Inês'
Imagem de Craig Jodrell
(Via Patrícia Reis - http://vaocombate.blogs.sapo.pt)

sábado, 2 de agosto de 2014

O Porto...

«O Porto é uma cidade muito diferente de Lisboa, é diferente crescer e viver no Porto ou em Lisboa. As pessoas em Lisboa não têm consciência disso, as do Porto admito que tenham outro tipo de consciência. Poderia ter sido uma cidade do Thomas Mann, muito parecida com as cidades hanseáticas, como Lübeck, onde ele viveu. É uma cidade burguesa no verdadeiro sentido do termo. Tem valores muito parecidos com as cidades do Norte, onde os comerciantes eram liberais e se interessavam pela cultura. 

Sempre foi um mundo que valorizou o trabalho de uma forma diferente do que acontecia em Lisboa. Era a cidade das grandes fábricas. As grandes fábricas têxteis estavam no Norte, deram o nome a clubes de futebol – Paranhos, Boavista. Falo de fábricas com milhares de trabalhadores, típicas do período de crescimento da Revolução Industrial. O Porto é uma cidade do trabalho, quer nas antigas corporações quer nas antigas tradições, ainda muito marcadas pelos nomes nas ruas. Muitas igrejas, muitas instituições têm a marca do trabalho corporativo, mas a cidade também teve esse papel. O Ramalho Ortigão escreveu que no Porto não se conseguia andar meia dúzia de metros sem encontrar uma tabuleta de uma associação mutualista.


 Na própria conjugação do movimento operário, é uma cidade muito mais socialista do que anarquista, enquanto em Lisboa havia uma tradição forte de anarcossindicalismo. Acima de tudo, tem uma burguesia liberal que esteve no cerne de todo o processo do liberalismo novecentista. Não foi por acaso que D. Pedro deixou lá o coração. Quem conheça a História do Porto sabe que é uma cidade que resistiu violentamente ao Estado Novo, como os grandes combates de 1927. Foram no Porto os grandes comícios da oposição: o comício do Norton de Matos [janeiro de 1949] e a receção ao Humberto Delgado [maio de 1958] que é gigantesca, a cidade sai à rua. Não há paralelo, esse comício mudou toda a história da campanha do Delgado, mudou toda a história política a partir de 1958.  

É uma cidade com as suas instituições, os seus clubes, o Ateneu, um certo tipo de tradições culturais de uma elite fabril, industrial e ligada à imprensa – O Primeiro de Janeiro e O Comércio do Porto têm essa origem. Muito da vida da cidade faz-se de cima para baixo e de baixo para cima. Isso leva a que o Porto tenha uma respiração de liberdade que não veio com o telégrafo nem veio de França. Ainda hoje, é a cidade que tem o trabalho e o sacrifício pelo País no nome e no símbolo de tripeiro, e que se reconhece nesses valores. Durante o salazarismo, muitas instituições universitárias do Porto fecharam e as que sobreviveram tiveram uma vida muito difícil. Mas havia escolas com uma grande repercussão nacional – Engenharia, Medicina, Ciências, Arquitetura, Belas-Artes. 

No Porto estão alguns dos primeiros edifícios de arquitetura moderna, muitas vezes feitos por pessoas que ganhavam dinheiro na indústria e que eram mecenas de artistas. Nos anos 1920, construíram-se cópias da arquitetura social de Viena. Junto da casa do Eugénio de Andrade, quando ele morava no 111 da rua Duque de Loulé, havia um grande bairro feito a partir das ideias da arquitetura socialista, uma espécie de falanstério. E havia vários desses. E depois havia as “ilhas”, outra realidade muito associada à industrialização rápida, aí sim, mais pobres. Eram uma solução de emergência, especulativa, em relação à pressão industrial, para albergar um número muito significativo de operários que vinham das zonas rurais do interior. Algumas epidemias de cólera e de tifo tiveram aí o seu desenvolvimento e o salazarismo viu-se na necessidade de criar os bairros sociais que reproduzem o fenómeno das “ilhas” para os dias de hoje. 

O Porto é uma cidade liberal mas não jacobina. Lisboa é mais jacobina do que liberal, na sua história política e social. Eu nunca deixei o Porto. Havia umas personagens do teatro japonês que andavam sem nunca levantar os pés porque se o fizessem era sinal de que perdiam o contacto. E eu também: os meus pés estão lá sempre, sempre em cima daquela terra, é lá que me sinto bem.»

José Pacheco Pereira, "O Porto poderia ser uma cidade de Thomas Mann"
 Revista Ler - Julho/Agosto de 2013
(Imagem - copyright: Ah! Porto 2011)
 

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

Dos cadernos de Sophia

«As imagens eram próximas
Como coladas sobre os olhos
O que nos dava um rosto justo e liso
Os gestos circulavam sem choque nem ruído
As estrelas eram maduras como frutos
E os homens eram bons sem dar por isso(...)» (1) 


A Grécia e a sua cultura lançou-nos uma imensa luz sobre o conhecimento humano em explosão de formas, cores e possibilidades. A Grécia influenciou muito as palavras de Sophia. Os seus cadernos revelam-nos a simplicidade pelos braços, onde os deuses deram corpo a sonhos e viagens com que nos maravilhamos num real entre o caos e a claridade

(1) Espólio de Sophia, da Exposição da BN

Recortes (1)


 «É tempo de serem desmistificadas algumas mentiras descardas que a comunicação social tem divulgado acerca do antigo presidente do BES. Por exemplo. tem sido dito que Salgado recebeu uma prenda de 14 milhões de euros. Não é preciso investigar muito para saber que é falso. De uma vez por todas, as pessoas da classe social a que Ricardo Salgado pertence não recebem prendas, recebem presentes. Também não é verdade que a credibilidade do BES tenha ido pela sanita abaixo. Foi pela retrete. Sejam rigorosos.»

 Ricardo Araújo Pereira, Santos Alves dos Reis

 «A falência do Grupo Espírito Santo, cujos interesses se espalham por múltiplos sectores de actividade económica e financeira, desde a saúde ao turismo, do imobiliário aos diamantes, da construção civil às obras públicas, levanta a dúvida sobre a sacrossanta tese neoliberal, segundo a qual "os privados estão mais vocacionados e são mais competentes para gerir as empresas do que o Estado". Esta tese, que parece ter pés de barro, tem levado à última sanha de privatizações, muitas vezes de empresas do Estado que apresentavam lucros, como os CTT ou a ANA. Até a Caixa Geral de Depósitos esteve nesta lista de património público a passar para as mãos da "iniciativa privada". (...) Responderão os aficionados neoliberais: as decisões das empresas privadas não prejudicam o Estado, nem os contribuintes, mas apenas os accionistas. Este argumento é, pelos vistos, falacioso, sobretudo depois das consequências da presente crise europeia.»

Tomás Vasques, O mito da gestão privada

«O BES foi seguramente, nos últimos dez anos, o banco que mais investiu em publicidade na comunicação social. Essa estratégia nunca foi inocente. Na sua mão tinha sempre a espada de Dâmocles que levava o director de qualquer rádio, jornal ou televisão a pensar duas vezes antes de publicar algo desagradável para o banco verde. A esta actuação aliava uma outra: o convite a jornalistas para irem a conferências de uma semana em estâncias de neve na Suiça ou em França, onde de manhã se ministravam cursos de esqui na neve e à tarde se ouviam especialistas na área económica e financeira. E no Verão repetia-se a dose: uma semana num barco algures no Mediterrâneo, acompanhando a Regata do Rei, até que num dos dias se subia a bordo do veleiro (ou será iate?) onde estava Ricardo Salgado para uma conversa descontraída sobre o banco.»  

  Nicolau Santos, Duas ou três coisas ...

«Como bem refere o Professor Pedro Lains não faltam por aí fascinados da finança e apologistas da propaganda. E como andam eles a lidar com o caso? Resposta: a inverter as setas causais e a tapar o elefante com lenços de assoar! Veja-se o caso do investigador e colunista Rui Ramos. Diz que o BES tem sido "um dos principais braços financeiros do poder político democrático, um dos meios através dos quais os governos controlaram a economia". Bom: é precisamente o contrário. Vá... é pelo menos muito mais plausível argumentar que tem sido o poder oligárquico que tem instrumentalizado o poder democrático! Certo?! E veja-se o caso do colunista João Pereira Coutinho. Como se poder dizer taxativamente que " Quem confunde BES com o BPN deve fazer exames à cabeça"?! E será que quando é um privadoa entrar em incumprimento está tudo bem mas quando é o público a reestruturar a dívida está tudo mal?! .... Isto é, e em suma: os media são "comunicação social" ou "comunicação anti-social"?! Será tudo apenas má informação ou, afinal, contra-informação?"

Sandro Mendonça, DesBESificar o País

«É por isto tudo que não aceito a culpabilização sistemática dos mais pobres e mais fracos e da classe média, por terem vivido “acima das suas posses”, mesmo quando não o fizeram. E mesmo quando havia uma casa a mais, um carro a mais, um ecrã plano a mais, um sofá a mais, um vestido ou um fato a mais, umas férias a mais, uma viagem a mais, recuso-me a colocar estes “excessos” no mesmo plano moral dos “outros”. Algum moralismo salomónico, que coloca no mesmo plano a corrupção dos poderosos e dos de cima com os pequenos vícios dos de baixo e do meio, tem como objectivo legitimar sempre a penalização punitiva de milhões para desculpar as dezenas. É por isto que esta crise corrompe a sociedade e vai deixar muitas marcas..."

(Imagem - Copyright: www.bigstock.com)

Governar entre o medo e a mentira (II)

"Este discurso [do consumismo desenfreado dos portugueses] à direita e à esquerda mistura-se e há uma crítica de esquerda ao consumismo que acabou por ser recuperado pela direita. É natural que as pessoas na melhoria da sua vida procurem obter gadgets. Quem menospreza o acesso a estes bens não faz ideia do que era a vida antes de existirem máquinas de lavar. E uma certa esquerda tem uma crítica do consumismo que não tem em conta a circunstância de que muitos electrodomésticos facilitaram a vida a muitas pessoas, em particular às mulheres. Não se pode ter esta espécie de desprezo no celibato, que a esquerda muitas vezes tinha em relação ao consumismo. É preciso ter prudência.

A nossa memória da pobreza é um fenómeno social importante. As pessoas que há três gerações conheceram a profunda miséria e essas pessoas não tinham um grande dinamismo social, porque quando conseguiam obter alguma coisa poupavam até ao fim  da vida para se protegerem das contigências do mundo e são os seus filhos que vão ter o dinamismo que não têm. A memória da pobreza é castradora numa sociedade. Normalmente, a 1ª geração num processo de transformação não muda, mas os seus filhos mudam, porque já não estão presos pela memória dessa pobreza, tão drástica como estavam os seus avós. Houve aqui aspectos positivos e negativos.

Os pais pouparam mais, os seus filhos pouparam menos, mas ainda o suficiente para dar uma educação universitária aos seus filhos, para tentar encontrar melhoria através da educação, que são coisas importantes do ponto de vista simbólico e nacional. Os processos sociais não são higiénicos, não são  a preto e branco, são complexos e não podem ser demonizados, nem transformados em coisas positivas. E o que está a acontecer nos nossos dias é um falso inimigo que é fazer incorporar uma culpa que na realidade pode existir para um certo número de pessoas, mas não é socializável, nem para o grupo, nem para o conjunto da sociedade.

Porque quando nós analisamos o endividamento das famílias e das empresas que é igualmente muito significativo e nunca há penalização ao endividamento das empresas, como não há verdadeira penalização ao endividamento do Estado, porque apesar do discurso contra o esbanjamento, verdadeiramente o peso social da culpa não vai para aí. Tanto assim que as mesmas pessoas que fizeram contratos SWAP podem ir para ogoverno, não há aí nenhuma penalização social. Nenhuma! Nenhuma!

Eu conheço muita boa gente que fez os contratos das PPP, blindou-os em escritórios de advogados e depois foi para o governo negociar a desblindagem. Houve aqui alguma incorporação social ou profissional de culpa como aos mais fracos? Não, nenhuma!"

"O sentido do fim ou o fim consentido?", Porto, Serralves, 02.04.2014
(parte de uma intervenção de José Pacheco Pereira)