quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Um bom ano

   Um bom ano de 2015 com as cores possíveis e imaginadas por cada um de nós!


Leituras - A cidade de Ulisses

   "Um motivo, portanto, pessoal. 
  Como sabe, é provavelmente sempre assim que surgem as obras de arte: a partir de motivações pessoais, em geral egoístas, para prazer do criador, para que ele possa exercer o seu domínio sobre o real, forçando-o a moldar-se ao seu desejo.
   Sorrio portanto e vejo-o sorrir também a si, a o escrever estas linhas. As pessoas entram nas salas de exposição e vêem coisas na aparência objectivas. Mas os criadores estão dentro delas, inteiros, vida, corpo, alma, tudo - embora sob camuflagem. Expor-se é também esconder-se. E também no disfarce os criadores são mestres, como é aliás do seu conhecimento. 
   Não irei portanto expor-me. Os artistas expõem, mas não se expõem. Fingem sempre".

Leituras - Stoner

“Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequidos como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de uma prateleira e segurava-o um instante com as suas mão grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, de capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os seus dedos hirtos virando as páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitadas, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.” (Pág. 18);

“Por vezes, imerso nos seus livros, tomava consciência de tudo o que não sabia, que não lera, e a serenidade à qual aspirava estilhaçava-se, quando percebia o pouco tempo de que dispunha na vida para ler tanta coisa, para aprender o que queria.” (Pág. 28);

“Esse amor à literatura, à língua, aos mistérios da mente e do coração que se revelavam nas ínfimas, estranhas e inesperadas combinações de letras e palavras, na tinta mais negra e fria… esse amor que escondera como se fosse ilícito e perigoso começou ele então a mostrar, hesitantemente a princípio e depois com ousadia e, por fim, com orgulho.” (Pág. 104).

Publicado em 1964, passou despercebido até uma editora francesa o reeditar nos anos oitenta e termos tido acesso a um grande, imenso livro. Um homem calado, trabalhador agrícola,vivendo no mais passivo dos mundos, entre tarefas rurais programadas, descobre o fascínio pela Filosofia e sobretudo pela Literatura. Na verdade a uNiversidade fez nascer um homem para as palavras, para os seus significados, numa vida familiar vazia e triste. É no estudo dos clássicos, que vê uma oportunidade de ser alguém diferente, um professor de Literatura, um entusiasma pelas palavras, pelo que medem no mundo. No seu gabinete redime-se e encontra a felicidade.

Stoner é sobre o nascimento de um homem, alguém que descobre um sentido humano, mesmo na infelicidade conjugal, e nos livros encontra um refúgio. Magnificamente escrito, de uma certa tristeza pungente alberga as fontes por onde descobre o seu caminho. É um livro fascinante sobre o peso das Palavras, esse universo de mundos distantes e próximos que nos faz renascer em novas possibilidades. Um grande livro.

Leituras - Um dia esta dor vai ser útil

"Sê paciente e resistente; um dia, esta dor ser-te-á-util"
 (Ovídeo)

"Quando se deseja com todo o coração que alguém nos ame, nasce uma loucura tal que deixa as árvores, as águas e a terra desprovidas de sentido. Nada vive excepto nós, excepto aquele longo, profundo e amargo desejo. É isto que toda a gente sente, desde que nasce até que morre".

Denton Welch, Diário, 8 de Maio de 1944, 11h 15 da noite

"Quem me dera que todo o dia fosse como o pequeno-almoço, quando as pessoas ainda estão ligadas aos seus sonhos, concentradas no interior e sem estarem ainda prontas para se relacionarem com o mundo que as rodeia. Apercebi-me de que era assim que eu era durante todo o dia; para mim, ao contrário de outras pessoas, não há um momento a seguir a uma chávena de café, a um duche ou a qualquer outra coisa, no qual me sinta subitamente vivo e um pequeno-almoço, ia dar-me bem." (pag. 116)

"A maior parte das pessoas acha que as coisas não são reais a não ser que sejam verbalizadas, que é a pronunciação de alguma coisa, e não o pensamento, que a legitima. Acho que deve ser por isso que as pessoas querem sempre que as outras digam que as amam. Eu penso exactamente o oposto - que os pensamentos são mais reais quando são apenas pensados, que exprimi-los os distorce e os dilui, que é melhor para eles ficarem no compartimento escuro e climatizado da nossa mente, que se forem libertados para o ar e para a luz serão afectados de um modo que os altera, como as películas de filme expostos acidentalmente." (pág. 184)

Os jornais do mundo anglo-saxónico deram-lhe a adjectivação "Um dos melhores romances de sempre" (o que sendo  um exagero) revela de algum modo as questões que o livro do americano Peter Cameron. A ideia base do livro é que existem pessoas que têm pelo seu nascimento e crescimento, pelas suas descobertas, muitas dúvidas, de como se integrar o Mundo. E a decisiva questão se por aqui se coloca, é se demos estar o mais silenciosamente possível neste universo social, feito de normas sociais e de comportamentos pouco éticos. É uma viagem que fazemos com James, pois também nos vemos nós nessa posição, sobretudo, os que por diferentes motivos consideram o Mundo um lugar pouco recomendável.

É um livro também sobre as famílias americanas no pós 11 de Setembro, uma certa disfunção nas emoções, a preocupação pela imagem, a cidade como devoradora dos sonhos iniciais de tantas pessoas que a viram como a construção do seu universo mais sentido. É um livro que nos remete para a dimensão do que pensamos e das oportunidades que temos para as fazer ouvir, num mundo individual, sempre mais verdadeiro que as maiorias de circunstância. Um dia esta dor vai ser útil é uma narrativa sensível e de inteligência sobre as contradições de uma sociedade de massas. É em definitivo um grande livro para nos interrogarmos e darmos alicerces a esse caminho, por onde a solidão nos faz questionar a nossa existência.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Leituras - Uma vida sem princípios

"Se alguém tiver o hábito de passear nos bosques metade dos seus dias, porque gosta deles,  corre logo o risco de ser considerado como um vagabundo; mas, se passar todos os seus dias como especulador, arrasando os bosques e tornando a terra baldia antes do seu tempo, será louvado como um cidadão empreendedor e habilidoso. (...) 

"Que sentido tem o termos nascido livres se não vivermos livres? Qual é o valor de qualquer liberdade política, a não ser o de fazer possível a liberdade moral? Afinal, de que é que nós nos orgulhamos? Será que nos vangloriamos de ter liberdade para sermos escravos, ou de termos liberdade, para sermos livres?" (págs. 30 e 54).

Henry David Thoreau é um dos nomes essenciais da cultura americana dos séculos XIX e XX, o que quer dizer da nossa própria vivência de contemporaneidade. Thoreau conduziu a sua breve vida pela procura no real do que de mais belo ela nos pode fazer descobrir. A beleza das coisas simples. 

Thoreau percebeu antes de todos os movimentos ecologistas que a vida em sociedade, encostada a chavões de economia, sem real valor pelo que mais significado dá ao seu quotidiano, como ser detentor de uma liberdade moral, deveria encontrar no Universo esse diálogo com o mais interior, a beleza suprema. Não é possível falar de qualquer movimento de luta pelos direitos de minorias, ou de direitos civis, sem pensar na obra de Thoreau. Não é possível abordar os fundamentos dos movimentos não violentos, contra as diferentes tiranias do século XX sem pensar em Thoreau.

A palavra como conceito foi arrastada para significados impróprios, mas o que cada um é no seu melhor, em contraposição contra o Estado dominador precisa de cultivar e com isso contribuir para a comunidade, é justamente a ideia de individualidade. É com ela que Thoreau se debruçou sobre a poesia, a escrita científica, cultivando um inconformismo, nem sempre compreendido, mas absolutamente revolucionário. 

Thoreau ensinou-nos, acima das ideologias e das crenças políticas, que esta é uma área onde encontramos o superficial e inumano com relativa frequência, tendo num tempo de jornais e media sem a dimensão actual, percebido que neles pode morar formas ocultas de governo. E por isso também de focos ilegítimos de poderes económicos, sem legitimação democrática. 

Thoreau falou em textos diversos, para os colocados à margem, para os que olhando para os que lutam arduamente em espelhos  ocasionais, puros de enfermidade, onde a rara decência é tão difícil de encontrar. Uma vida sem princípios, é tal como Walden, ou A vida nos bosques, ou A desobediência civil obras de referência absoluta, sobretudo em tempos de decadência moral profunda.

Leituras - Histórias falsas

Disse-o Santo Agostinho: "O que mais interessa não é o que sofre, mas como o sofre cada um." Dos filósofos, mais do que dos homens comuns, esperamos um sofrimento distinto; sofrer com a calma e intensidade justas e atingir o sublime por essa via, é isto que se exige aos filósofos. Mas de ideias o mundo encheu-se rapidamente; enquanto de santos não. O seu aparecimento é bem mais lento: pedra preciosa.

De Zenão conheciam-se já as ideias: era o Negador das Coisas Evidentes. Dizia e repetia: o espaço não existe, o tempo não existe, o movimento não existe. O mundo inteiro tinha para Zenão o mesmo som: se os nossos ouvidos são incapazes de escutar a unidade não culpemos o Músico, o Grande Músico, não o julguemos inexistente, culpemos, sim, os ouvidos, a degradação terrestre dos órgãos que nos foram oferecidos.

O problema foi então um: negar a realidade é negar também as hierarquias. É negar o escravo e negar o rei. Se com este raciocínio, o primeiro pode entusiasmar-se, o segundo, esse, pode não perdoar. Assim foi: o tirano ouviu e não gostou. Zenão negava o seu poder?

É preciso que admita publicamente o seu erro, ou então que não mais o possa cometer, forma exacta de afirmar: então que morra! Porém como o poeta, Zenão, perante o poder tinha um lema: "Resistir muito, obedecer pouco." Lema tanto audaz quanto perigoso. É que aos tiranos podemos dividi-los em duas espécies: os que admiram mais a audácia do que a temem, e os outros. Em definitivo: o tirano que se cruzou com a vida de Zenão era dos outros. (...)

O que se disse de um povo poderia dizer-se assim de Zenão: o que ele deve ter sofrido para conseguir ser tão sábio. Pelas ideias, durante a vida, tornara-se filósofo. Pela resistência à dor, próximo da morte, tornara-se um quase-deus; um sábio. Antes de terminar uma última nota. Que não se confunda: esta não é a biografia de Zenão, mas sim a biografia do tirano responsável pela sua tortura e, por fim, pela sua morte. O nome? Que importa? Todos os tiranos têm o mesmo nome. (pág. 

Gonçalo M. Tavares, "A  história dos tiranos". Histórias Falsas. Caminho. 2014.

domingo, 28 de dezembro de 2014

Leituras - Cartas a uma jovem amiga

Somos, a maioria de nós, criaturas inconstantes, de humores opostos. Poucos são os que escapam a isso. Para alguns, a causa é física, para outros, é uma condição mental. Gostamos da instabilidade emocional, pensamos que o movimento dos estados de espírito faz parte da existência; mudamos facilmente de um estado para o outro. Mas há poucos seres que não sejam apanhados nesse movimento, que estejam libertos da luta para "vir a ser"; neles há uma estabilidade interior não gerada pela vontade, uma firmeza que não é cultivada, que não tem a ver com um interesse pessoal nem é produto de nenhuma dessas actividades. Essa liberdade acontece quando a acção da vontade cessa.

O dinheiro destrói as pessoas. Há uma arrogância própria dos ricos. Com poucas excepções, em todos os países os ricos mostram essa peculiar imagem de se sentirem com poder para alterar o que quer que seja, até os deuses, podem até comprar os seus deuses. Riquezas não são apenas as materiais mas também as que vêm da possibilidade de se fazerem coisas. Essa possibilidade dá ao homem um falso sentido de liberdade. Ele sente que está acima dos outros homens, que é diferente. Tudo isso lhe transmite um sentido de superioridade; ele distancia-se e olha de longe o mal-estar dos outros; ele não se apercebe da sua própria ignorância, da escuridão da sua mente.

Dinheiro e possibilidade oferecem um óptimo escape para se fugir dessa escuridão. Afinal, a fuga é uma forma de resistência, que alimenta os seus próprios problemas. A vida é uma coisa estranha. Feliz, o homem que é nada. (págs. 34-35)

(Krishnamurti foi um desses homens raros que os tempos passados deram na Índia a formulação de um misticismo que sempre nos fascina. Companheiro de algumas das iniciativas de Gandhi, formulou para estes tempos de cegueira o essencial, a criação por cada um de nós de uma realidade paralela à que já existe. Num tempo de gestação de pessoas de excelência, de formatação econométrica, em escolas de desigualdade, o velho misticismo indiano ainda nos responde, que o egocentrismo, o consumismo, a procura da glória vã, como um dos pilares da infelicidade humana).

Leituras - História de um caracol que descobriu a importância da lentidão

"O caracol que desejava conhecer os motivos da lentidão também não possuía um nome (tal como os restantes caracóis) e isso causava-lhe uma grande preocupação. Parecia-lhe injusto não ter um nome, e quando algum dos caracóis mais velhos lhe perguntava  porque o queria, igualmente sem erguer a voz, respondia:

- Porque o calicanto se chama assim, calicanto, e por isso quando chove, por exemplo, dizemos que nos vamos refugiar sob as folhas do calicanto. Também o saboroso dente-de-leão se chama assim, dente-de-leão, e, por isso, quando dizemos que vamos comer umas folhas de dente-de-leão, já não comemos urtigas por engano.

Mas os argumentos do caracol que desejava conhecer os motivos da lentidão não despertavam grande interesse nos outros caracóis. Entre eles murmuravam que as coisas estavam bem assim, que bastavam saber o nome do calicanto, do dente-de-leão, do esquilo e da gralha, do prado a que chamamos País do Dente-de-Leão, e que não precisavam de mais nada para serem felizes sendo como eram, caracóis lentos e silenciosos, decididos a conservar a humidade dos seus corpos e a engordar para suportarem o longo inverno".

(As perguntas são sempre a mais original forma de aprender, de descobrir, de viajar pelo que não conhecemos. Em História de um caracol que descobriu a importância da lentidão, Luís Sepúlveda criou uma narrativa simples que procura encontrar respostas para questões simples. Paulo Galindro deu corpo a uma história simpática com um conjunto de ilustrações que dão muita plasticidade a um caracol ávido de respostas, para compreender o mundo em que vive).

sábado, 27 de dezembro de 2014

Leituras - Pequenos poemas em prosa

É um dos autores da modernidade, no seu sentido mais contemporâneo, naquilo que um mundo de contrastes e de racionalidade procurou emergir após as revoluções industriais, com todas as suas alterações na arte e na sociedade. É um dos grandes poetas da literatura francesa e teve no século XIX uma imensa influência. Conhecido sobretudo por uma obra, As flores do mal, publicada em 1857, onde a sua poesia questiona os elementos capazes de subverter uma ordem que se transforme e ilumine melhor o coração do homem.

Pequenos poemas em prosa, obra que não foi terminada, foi escrita nos últimos anos de vida e teve a sua publicação inicial em revistas literárias e periódicos da época. Com Pequenos poemas em prosa o poeta procura abolir as fronteiras muito marcadas entre a poesia e a prosa, apresentando uma sensibilidade profundamente revolucionária para o século XIX e que excede em muito esse século. Baudelaire deixou-nos nesta obra algumas das suas ideias marcantes, a relação entre o mundo visível e o que construímos com os sentidos, o que sabemos definir pela observação de objectos, o que se esconde desse mundo real. As sensações, os cheiros, as visões, o simbolismo oculto que cada um pode descobrir.

Poeta marcado por um desprendimento social, pela procura no natural de formas de amar significativas, onde a desilusão, a solidão, o desencontro das pessoas possa ser ultrapassado. A noite, como refúgio, as nuvens, como perpétuo, movimento, as máquinas, o vapor, o caminho-de-ferro como equipamentos para a viagem essencial, a de procurara sempre outros locais, outras sensações, permitindo conhecer outras realidades. O poeta da procura do espanto, pelo sentido mais decadente. A embriagues como forma de superar o Tempo, numa atitude de com a poesia, com o vinho, com a virtude, com o bem, encontrar as respostas que nos façam trazer em cada célula a portabilidade de algo de essencial.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

Leituras - O breve sentimento do eterno

Vou buscar uma das estrelas que caiu
do céu, esta noite. Ficou presa a um
ramo de árvore, mas só ela brilha,
único fruto luminoso do verão passado.
---
Ponho-a num frasco, para não se
oxidar; e vejo-a apagar-se, contra
o vidro, à medida que o dia se
aproxima, e o mundo desperta da noite.
---
Não se pode guardar uma estrela. O
seu lugar é no meio de constelações
e nuvens, onde o sonho a protege.
---
Por isso, tirei a estrela do frasco e
meti-a no poema, onde voltou a brilhar,
no meio de palavras, de versos, de imagens.


Nuno Júdice, "Astronomia", in O Breve Sentimento do Eterno 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Celebrar o nascimento de uma mensagem

«Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito da verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno, quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor» (1)

Comemoramos, dois mil anos depois, o nascimento de um mensageiro, de um profeta que nos quis ensinar, revelar que todos os homens são iguais, que a compaixão é um valor absolutamente humano. Ele próprio, incompreendido no seu tempo, estabeleceu os princípios de um nascimento novo. Nasceu no momento único do solstício de Inverno, deixando-nos palavras e tons de luz, e a promessa do descobrimento de uma manhã nova, a do dia branco de esperança no futuro. Sobre os seus princípios, uma ciência de palavras repetidas fundou uma religião. Todos os anos comemoramos em rituais de cerimónia o dever de num dia sermos especiais e de oferecer presentes.

Presentes pouco pessoais, distantes dos valores que procurariam dignificar. O dia e o ambiente em que devemos ser o que muitas vezes não somos, em que uma fraternidade universal adocicada pelo ambiente de luzes, anjos e música nos mostram como participamos solidariamente na vida uns dos outros. Um dia e tão aparentemente. Dois mil anos depois, na Palestina, morrem pessoas em confronto ainda pela posse de uma promessa e de um território, demasiado longe do que se poderia considerar divino e respeitador dos valores revelados há tantos séculos. Dois mil anos depois, a ganância e o lucro fácil e imediato regem um reino de interesses onde os agiotas e os seus princípios especulativos se sobrepõem ao trabalho e aos direitos púbicos da comunidade. Dois mil anos depois, o homem parece ter aprendido pouco.

 Dois mil anos depois, vivemos num País que se auto-governa sem ideias. Dois milhões de pobres, velhotes esquecidos, a cultura do dinheiro neste tempo tão fraterno, onde não há espaço para a memória. Vivemos na virtualidade de acções e valores. Neste tempo, até o Templo e os que lá negoceiam parecem ameaçar o próprio mensageiro e a sua existência. O privado em detrimento da causa pública, que é a de todos. Neste tempo de solstício, sonhemos ainda que tal como a Primavera fará renascer os campos e searas, também garantirá que novas gerações, mais lúcidas saibam concretizar o melhor da dimensão humana. 

Justamente, «a liberdade e a dignidade do ser», nas palavras iluminadas de Sophia. Concretizar o sentido divino do homem, sem lhe negar a sua humanidade. É esta uma forma possível de comemorar o nascimento de um homem especial que revelou que o Homem pode-se alargar numa comunidade de boa vontade. Se o Homem à semelhança do Universo é criado da mesma matéria, da mesma energia concentrada nos átomos, esse entendimento não deveria conduzir-nos a uma mais coerente relação entre o pensamento e a acção? Desde Cícero, a Marco Aurélio e Adriano, na longínqua civilização romana não eram a Humanidade, a Felicidade e a Liberdade os sonhos nesse futuro que ainda hoje se adivinha tão imperfeito?

(1) Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (Posfácio, pág. 73)

domingo, 23 de novembro de 2014

A aparência dos dias

"(...) estou sempre a refletir, a ponderar, a tentar ver para lá das aparências. Não me deixo levar  epifenómenos". (José Medeiros Ferreira)

O país vive das pequenas figuras, dos políticos criados nos media, nas televisão cor-de-rosa que alimentam o sistema político, fundamentado nos comentadores que embalam a população na amnésia que as "instituições" tão bem propõem nos seus gestos sem símbolos. O ex-primeiro ministro à chegada ao aeroporto foi preso. As televisões estavam lá, as informações circulam já.

O ex-primeiro ministro, a qualquer indígena com um nível mínimo de inteligência ia percebendo, em longos meses os erros sucessivos, a iconografia da imagem, o apelo maquiavélico de nós e os outros, o bem e os interesses, mesmo quando eram defendidos pelos pobres cidadãos, pelas pessoas indefesas na luta pela sua dignidade. O ex-primeiro ministro foi mais uma figura irrelevante, da longa irrelevância que é a história política do século XX.

Quando saiu, alguns ingénuos acreditaram que a falta do rigor simbólico, a utilização do poder como forma de privilégio, a gestão do bem público neste país, verdadeira caricatura de um sítio apenas, era ainda uma possibilidade. Afinal o país tinha viabilidade, pois existiam os critérios e as instituições para o fundar algo de decente.

A procissão que se anunciou na regência política e na grande maioria, quase exclusiva dos media, suportada nas instituições organizou a maior descrença possível,  a má-fé como instrumento político. Restava a Justiça, esse instrumento de salvaguarda da verdade e do desenvolvimento. A Justiça deu mais um triste exemplo. Também ela vive angustiada sem o protagonismo dos media, como se os seus actos não fossem no silêncio da sua soberania que devessem ser anunciados. 

A Justiça deu mais um contributo para que o país seja só um somatório de vazios, de epifenómenos, de espuma que os do costume, na sua eterna sabedoria anunciarão. O País é pois isto, a incapacidade de integrar as opiniões alheias, por isso se perde em epifenómenos. José Medeiros Ferreira que pensava e sabia o que dizia, ele que poderia ter sido um instrumento de sabedoria na gestão política, se os aparelhos políticos não fossem apenas conservação de poder e ambições.O país é um eterno game over de personalidades sem luz. Existir só e apenas.

Imagem - © Victoria Ivanova

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Leituras - O Irmão Lobo

The tast of love is sweet
When hearts like ours meet
I fell for you like a child
      Oh, but the fire went wild. (1)

Somos continentes à deriva num espaço planetário, onde respiramos, vivemos e emergimos em territórios mergulhados na memória e em marés de ocasos. Criamos mundos em oceanos de desencontros, na ameaça "rudimentar" dos caçadores de metal amarelo e nos espelhos grotescos dos homens-mocho. 

Somos ilhas de afectos à procura do mar azul no horizonte, à espera de contornos de luz que realize dias, onde sejamos um território de fraternidade. No mar que nos envolve por quanto tempo seremos uma unidade, um sorriso aberto capaz de suster um abrigo de memórias?

Irmão Lobo é uma narrativa sobre os fragmentos que a tempestade a que somos sujeitos tantas vezes, nos faz percorrer em novos territórios, desabrigados e desamparados. E neste processo em que somos arrastados, para longe das nossas referências, da nossa respiração, do nosso oceano e afecto, que valor comum usaremos para construirmos o quotidiano?

Irmão Lobo é um livro fascinante, uma proposta de leitura para pensarmos como reconstruir o que liga as pessoas num espaço comum. Que imagem, que artefacto, que memória, que valor seguro para alimentar no coração, a esperança, que na vida ainda permita esse momento único - flutuar sempre, como as algas suspensas no azul.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Um governo de medo e mentira (V)

A linguagem é uma das formas de dominar e manipular a informação.Quem não o compreende, nada sabe das sociedades contemporâneas e do que foi o século XX. Os senhores do irrevogável e os seus fiéis apoiantes definem uma linguagem que associa "direito adquirido" a uma forma de um qualquer vilipêndio. Nessa linguagem, repetida por muito pensamento débil, "os direitos adquiridos" não são mais do que privilégios inaceitáveis, que poêm, segundo dizem a "equidade".

(Se parassem para pensar veriam que não há equidade nenhuma, e meditariam um pouco sobre por que razão se fala de equidade e não de igualdade. (...) Claro que os "direitos adquiridos" são essencialmente do domínio do trabalho, dos direitos do trabalho e dos trabalhadores, activos e na reforma, e não se aplicam a outros "direitos" que esses são considerados intangíveis na sua essência. Por exemplo, os contratos com as PPP e os swaps, ou a relação credor-devedor, são tudo contratos que implicam a seu modo "direitos adquiridos", mas que, pelos vistos, não podem ser postos em causa.

O meu ponto neste artigo é que o Governo e os seus propagandistas, ao porem em causa os "direitos adquiridos" quando eles se referem a pensões, salários, direitos laborais e emprego, estão também a deslegitimar os outros contratos e a semear a "revolução".  Assim mesmo, a "revolução", defendendo uma sociedade em que o Estado e, mais importante, a lei ou a ausência de lei em nome da "emergência financeira", não assegura qualquer "princípio de confiança", ou seja, os pactos feitos na sociedade, pelo Estado, pelas empresas, pelas famílias, pelos indivíduos. 

Esta lei da selva é, espantem-se ó defensores da ordem, outro nome para a "revolução", a substituição do Estado de direito e da lei pela força, seja a da rua, seja a do poder sem controlo, seja a da imposição arbitrária assente em decisões conjunturais que passam por cima da "confiança" contratual que permite uma sociedade equilibrada, pacífica, com institucionalização dos conflitos, com mediação dos interesses, e com o funcionamento... de uma economia de mercado.

 Ao porem em causa o cumprimento dos contratos com os mais fracos, os que menos defesa têm, eliminando qualquer "princípio de confiança" ou "direito" livremente adquirido entre as partes, abrem o caminho para que se pergunte por que razão é que os contratos das PPP são "blindados" (ou seja são "direitos adquiridos") e não podem ser pura e simplesmente expropriados, em nome da "emergência financeira".  Eu não estou a defender essa expropriação, mas apenas a dizer que se o Governo e a sua máquina de repetidores entende que pode confiscar salários, empregos, carreiras, horas de trabalho, e direitos legalmente adquiridos pelas partes, e aí não se preocupa com a "blindagem" (que foi o que o Tribunal Constitucional garantiu, mesmo que precariamente), torna igualmente legítimo que se defenda o confisco da propriedade e dos contratos, a começar por aqueles que unem credores e devedores, ou partes num swap ou numa PPP. Ou seja, um governo que assim actua para os mais fracos comporta-se do mesmo modo dos que querem "rasgar o memorando".

 Ora, eu sou a favor de que se cumpra o memorando, realisticamente adaptado à mudança de circunstâncias, que se negoceiem e não se confisquem as PPP, mas que ao mesmo tempo se tenha a mesma atitude em relação aos outros contratos, procedendo também aí a verdadeiras negociações e não a diktats, e procurando soluções que possam manter a "confiança", como seja, por exemplo, encontrar modos de transição, diferenciações entre os contratos do passado e do presente, avaliação de custos e situações. Ora é isto que o Governo desde o dia um do seu mandato nunca fez, por ignorância, incompetência, dolo e ideologia.
  
Tomou um caminho único, defendeu-o como único, acrescentou problemas novos aos que já tinha, começou arrogante e acabou a andar para trás, para a frente, para o meio e para cima, tentando remediar o que tinha estragado. Sempre que contrariado quis vingar-se, garantindo que os que uma decisão constitucional protegia iriam pagar um preço ainda maior, se possível, ou servir de pretexto para punir todos. E desde sempre mostrou desprezo pela lei constitucional, porque isso lhe permitia soluções mais fáceis, mais imediatas, até porque os seus alvos eram os que menos poder tinham.

O resultado foi romper o tecido social como ele nunca tinha sido rompido desde o 25 de Abril, semeando a discórdia e a divisão, sem qualquer resultado adquirido e sustentável. Eu ouço o rumor das objecções. Que não são a mesma coisa, que se trata de coisas de natureza diferente, propriedade e salários, emprego e contratos, que os tribunais decidiriam contra o Estado, levando a indemnizações muito maiores do que os ganhos, de que secariam as fontes de financiamento externo, etc., etc. Tudo verdade, mas tudo também verdade para o direito de não ser despedido sem justa causa, ou de não ver a sua reforma cortada retroactivamente.

 É por isso que os nossos semeadores de cizânia e de "revolução", da força, de uma sociedade dúplice em relação aos contratos que cumpre ou não cumpre, deviam ponderar nas palavras que originaram o pequeno escândalo, habitual nas redes sociais, vindas de um jovem deputado comunista que ainda não aprendeu a "linguagem de madeira" dos comunistas actuais: "A corja que despreza a Constituição que se ponha a pau. É que se o meu direito à saúde, educação, pensão, trabalho, habitação, não vale nada, então também os seus direitos à propriedade privada, ao lucro, à integridade física e moral deixam de valer! E nós somos mais que eles". O homem foi tratado de "besta", "hitleriano", "aspirante a ditador", "parecido com os fascistas", tudo isto ipsis verbis.

 Mas o que incomodou na frase foi que ela contém implicitamente uma enorme verdade: é que o "vale tudo" só para alguns é infeccioso para os outros.  Ou seja, por que razão é que tenho que aceitar que o Governo me pode confiscar o meu salário e despedir sem direitos, por livre arbítrio de um chefe de uma repartição, ou diminuir drasticamente a minha pensão, agora que já não existo para o "mercado de trabalho" e sou completamente dependente, ou condenar-me ao eufemismo do "desemprego de longa duração", ou seja tirar-me muito mais do que 60% ou 70% da minha "propriedade", que não são acções, nem terras, nem casas, nem depósitos bancários, e quem tem tudo isso não pode ver a sua propriedade confiscada num valor semelhante ao que eu perco?

E aí, ironia das ironias, teríamos o Tribunal Constitucional, com os aplausos do outro lado, a defender a propriedade e a condenar o confisco, como deve fazer.  

José Pacheco Pereira, "Contratos para cumprir e contratos para violar" - 2ª parte
in Público. 07.09.2013 

domingo, 31 de agosto de 2014

Leituras - Uma poética da geografia

«Se escavarmos as nossas memórias de infância lembramos primeiro caminhos, e depois coisas e pessoas - carreiros no jardim. O caminho para a escola, o percurso em volta da casa, áleas por entre fetos e erva verde.» (1)

Toda a nossa história humana se construiu em redor desta escolha, que todos fazemos, entre o desconhecido, a miragem da geografia, o cansaço do corpo nos trilhos do vento e o lugar fixo, sedentário. Entre pastores e camponeses, entre a Geografia e a História, a dúvida no amanhecer e a certeza em todos os dias, eis a escolha que a condição humana tem feito. No essencial, a viagem.

Ela é a marca impressiva, o pergaminho que nos dá o reconhecimento do que somos, a verificação das capacidades individuais nos momentos em que o real, o quotidiano é desordenado pelo azul do céu, o verde das florestas ou o castanho poente do deserto. Poucas coisas, raras, são as que nos dão a oportunidade de fazer a descoberta interior, como as que encontramos nos tons da aurora e do crepúsculo, na brancura das nuvens, na descida de um rio ou na subida íngreme de um trilho de montanha.

É na Geografia que descobrimos a multiplicidade do que somos, tão difícil de explicar. É ela que nos permite o nosso irregular talento por criar a originalidade humana. Perante a dimensão do natural conseguimos exprimir melhor as emoções que numa sociedade civilizada tem demasiados obstáculos ao sentido do ser.

Michael Onfray escreveu um livro fascinante sobre a viagem, as motivações dos viajantes, o desejo de encontro nos vastos espaços, a cartografia do mundo no encontro com a memória e com a palavra.

Um livro que nos faz descobrir como o viajante encerra em si uma liberdade capaz de discutir as certezas dos que vivem instalados num real conhecido, previsível e domesticado pela razão e pelo conforto. As culturas, os homens que na História ousaram construir sob o tempo social, um outro, mais individual, subjectivo, emocional, guiados pela Natureza e seus ritmos conseguiram chegar ao encontro único. Aquele que podemos fazer com nós próprios, num movimento finito, que apesar da mortalidade nos permita comportar como «fragmentos da eternidade» (2)

(1) Bruce ChatwinAnatomia da Errância
(2) Michael OnfrayTeoria da Viagem

Leituras - Os Maias


"Ega queixou-se do país, da sua indiferença pela arte. Que espírito original não esmorecia, vendo em torno de si esta espessa massa de burgueses, amodorrada e crassa, desdenhando a inteligência, incapaz de se interessar por uma ideia nobre, por uma frase bem feita?
- Não vale a pena, Srº Afonso da Maia. Neste país, no meio desta prodigiosa imbecilidade nacional, o homem de senso e de gosto deve limitar-se a plantar com cuidado os seus legumes. Olhe o Herculano..."  (pág. 326) 

Leituras - Sonhos azuis pelas esquinas

venho dizer destas ruas que o sol aperta, e as sombras e os panos e as tranças nas meninas que passam - crianças que olham o mar com a simplicidade das pedras, aqui onde todas as varandas penduram ausências de gentes por regressar. os pássaros voam parados, suspensos e próximos, dando sombra às árvores e graças ao céu azul. 

vejo telhados sobre as pedras e pedras sobre a ilha, mas o chão respira uma frescura humana, os panos vestem as pessoas e as pessoas buscam negócios de regateio. chega um barco cheio de palavras caladas. (...) mais tarde a noite dará voz às sombras, as sombras serão calmaria e escuridão. as árvores beijarão os pássaros. os dedos hão de alcançar um torpor de mansidão. (...)

o apito de partida é o sinal de chegada àqueles que decidem ficar.
é de tarde ainda e quase noite: são os pássaros que o dizem. no céu não existem lágrimas; chegou a lua; as árvores adormeceram e sinto no ar, nos restos desta tarde senegalesa, um arfar de madeiras. não vejo canoas, sinto apenas a sua dança, um embalar de braços e ondulações, uma cantoria de remos, um poema molhado no sal.

quero a lua sobre a mesa - junto ao peixe, ao molho, ao arroz que devolve à minha refeição o branco do luar. quero conchas rumando ao meu quarto vazio, quero lençóis plenos de uma maresia fresca - para que a noite resulte e, depois dela, nas frestas do meu lençol branco, a madrugada possa vir sorrateira aprisionar-me em mim.

quero um grilo calado, um pirilampo em sereno apagamento. vozes para voos rasantes, ou uma luz negra que, sem acordar, acabasse por adormecer. (...)

pela manhã, vi o sol no mar e as ondas do meu olhar. uma saudade amarela abateu-se sonre mim e eu ri - porque era cedo e porque as nuvens não tinham chegado ainda. havia um anzol no meu sorriso.
vi os homens perto do cais e as ondas por trás e os imbondeiros erto das crianças que esquivam as pedras de sorriso aberto.

(Os lugares que habitamos nem sempre são o que queremos ser e vamos por cidades onde queremos ser mais perto de nós, ver a luz distante em cada porto e os sonhos azuis, na cor imensa que faz recordar as possibilidades de todas as histórias. Uma viagem por cidades e por aquilo que mais precisamos, estar dentro de nós com o sonho na respiração).
Ondjaki, "Gorée", in Sonhos azuis pelas esquinas

sábado, 30 de agosto de 2014

Leituras - A pomba

"E só a consciência deste poder simbólico, que o imbuía de orgulho e dignidade, que lhe dava força e resistência, que o protegia melhor do que a atenção, a arma ou o vidro blindado, só esta consciência permitira a Jonathan Noel conservar-se de pé nos degraus de mármore, à porta do banco, e exercer a sua vigilância sem medo, sem duvidar de si próprio, sem a menor sombra de descontentamento e sem uma expressão enfastiada no rosto durante trinta anos, até esse dia. (...)

Aquela arrogância e aquela segurança sólidas que antes adivinhara na pessoa do vagabundo tinham-se insinuado nele como metal líquido, tinhamendurecido e formado uma armadura interior e tinham-no tornado mais pesado. Doravante já nada o poderia abalar, já nenhuma dúvida o poderia fazer hesitar. Atingira a serenidade esfíngica. Em relaçao ao vagabundo - quando o encontrava ou o via sentado em qualquer sítio -, experimentava apenas aquele sentimento a que geralmente se chama tolerância: um misto muito vago de repugnância, desprezo e compaixão. O homem já não o perturbava. O homem er-lhe indiferente. (...)

Sim, pode dizer-se que através dos seus olhos Jonathan já não recebia uma verdadeira imagem do mundo exterior, era como se os raios luminosos seguissem o caminho inverso, e os olhos só lhe servissem de portão de saída, para projectar no mundo as suas alucinações grotescas. (...) Como se ele Jonathan - o u oque dele restava -, não passasse de um minúsculo gnomo engelhado, metido na gigantesca carcaça de um corpo estranho, não passasse de um anão indefeso, preso no interior de uma máquina humana demasiado complicada e que já não conseguia dominar e governar à sua vontade, mas que era governada por si mesma ou por quaisquer outras forças, se é que alguma coisa a governava. "

(Uma fábula sobre os aparentes alicerces da vida das pessoas, das instituições e do poder simbólico que decorre da consciência e da forma como se assume uma função de esfinge ou de marioneta. Um pequeno livro sobre as armadilhas constantes com que o quotidiano nos absorve e a fragilidade em contacto muito íntimo sobre como o mundo nos olha e como o quotidiano está cheio de ilusões).

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

O Perfeito sentido

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"(...) He said Mama
The President's a fool
Why do I have to keep reading
These technical manuals
And the joint chiefs of staff
And the brokers on Wall Street said
Don't make us laugh
You're a smart kid
Time is linear
Memory is a stranger
History is for fools
Man is a tool in the hands
Of the great God Almighty
And they gave him command
Of a nuclear submarine
Sent him back in search of
The Garden of Eden
 
 
Can't you see 
It all makes perfect sense
expressed in dollars and cents
Pounds, shillings and pence

 
Oh, can't you see 
It all makes perfect sense
expressed in dollars and cents
Pounds, shillings and pence. " - Roger Waters - "Perfect Sense"


Goethe

."..quando vejo que toda a actividade se esgota na satisfação de necessidades, cujo único propósito é prolongar a nossa pobre existência e, ainda, que toda a tranquilidade em relação a certas questões não passa de uma resignação sonhadora, pois as paredes que nos aprisionam estão cobertas de formas coloridas e perspectivas luminosas… isso tudo, (…), me deixa mudo. Volto-me para dentro de mim mesmo e encontro um mundo! Mais pressentimentos e desejos do que de raciocínios e forças vitais. E, então, tudo flutua ante meus olhos, sorrio e, sonhando, penetro ainda mais neste mundo…" (1)

Johann Wolfgang von Goethe é um dos marcos fundamentais da literatura contemporânea que atravessa a passagem do século XVIII e XIX. Goethe desenvolveu uma obra de grande valor cultural, tendo feito uma síntese feliz e essencial entre o iluminismo e o romantismo. 

Nasceu a vinte e oito de Agosto em Frankfurt, tendo desenvolvido uma obra de escrita e de pensamento, tendo produzido, romances, peças de teatro, poemas, escritas autobiográficas e reflexões diversas sobre a arte, a literatura e as ciências. Goethe é com Schiller um dos grandes representantes do classicismo como movimento cultural, mas também como princípio gerador de possibilidades de vida. 

Nascido numa família abastada, estudou em Leipzig Direito, tendo optado por se dedicar ao desenho e à gravura. No regresso a Frankfurt volta ao estudo de Direito, onde recebe influências diversas, com destaque para Johann Gottfried Herder que o introduz em autores diversos e no estudo da literatura.  Em 1771 focaliza-se na poesia e em 1774 publica Werther, que é um sucesso em toda a Europa e que reflecte episódios pessoais. Publica Os anos de aprendizagem de Wihlem Meister. A partir de 1786 viaja pela Itália e os valores do classicismo e da antiguidade irão influenciar a sua obra. Já no século XIX publica As afinidades Electivas, Fausto e a Teoria das cores.

Em Goethe assiste-se ao desenvolvimento de um conceito essencial da cultura alemã que se perderia na euforia de medo do século XX - "O bildung". Conceito que explora a ideia de "auto-formação", no sentido de que cada um deve aperfeiçoar a sua personalidade, não apenas num conceito enciclopédico, como o pensavam os iluministas, mas procurando uma elevação espiritual, fazendo aperfeiçoar as nossas emoções contribuindo para um indivíduo mais consistente do ponto de vista moral. 

A formação consistente do ser humano, no sentido que o que nos tornamos individualmente contribui para uma responsabilidade social. Visa-se a procura de uma pureza em clara oposição ao puro utilitarismo do quotidiano. As ideias de Gothe que Thomas Mann desenvolveu em A montanha Mágica e que deu continuidade na ideia de nobreza de espírito é um dos fundamentos de uma sociedade civilizada que o século XX ignorou e que presentemente assistimos a formas pavorosas de continuidade, sem qualquer brilho de dignidade humanas.
(1) Gothe, Werther, Guimarãe Editores.
Imagem (Jardim em Viena - via Goethe - Institut)

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Memória de Lorca

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Now in Vienna there's ten pretty women
There's a shoulder where Death comes to cry
There's a lobby with nine hundred windows
There's a tree where the doves go to die
There's a piece that was torn from the morning

This waltz, this waltz, this waltz
With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea.

There's an attic where children are playing
Where I've got to lie down with you soon
In a dream of Hungarian lanterns
In the mist of some sweet afternoon
And I'll see what you've chained to your sorrow
All your sheep and your lilies of snow

Leonard Cohen - Take this waltz


quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Um governo de medo e mentira (IV)

"O poder não é um meio, é um fim em si mesmo". (George Orwell, 1984)

Três informações revelam-nos de como a base do governo de sua majestade, o presidente da república, um governo de interesses calculados entre a finança sem critérios de regulação e um poder político de privilégios de uma minoria se alicerça no essencial, o poder como forma de dominar uma sociedade, escravizando-a nas suas possibilidades.

1. 17.07.2014 - A ministra das finanças com a verdade com que costuma falar nas suas declarações garante: "Não estamos a preparar nada, nem temos qualquer indicação que isso possa ser necessário".

2. 21.07.2014 - O garante da Lei em referências de um país de liluputianos com a reverência à profundidade profunda com que decanta as palavras, o presidente da república: " De acordo com a informação que tenho do próprio Banco de Portugal, considero que a sua actuação tem sido muito, muito corrcta".

3. 06.09.2014 - O ministro da economia, na postura do grande sábio, revelou que o desastre é lamentável, mas nós não sabemos explicar no grande exercício de cidadania de que somos como sociedade parte de um grupo de incapazes: "Os acontecimentos relativos ao BES são inexplicáveis". (1)

Os actores políticos e económicos que se autopromovem estão no presente momento de decadência moral sem nenhuma ideia de boa vontade, apenas a de favorecer os negócios que permitem o essencial - manter o poder. Não existem mecanismos de regulação. Em Janeiro de 2010, os excelsos empresários da banca renunciaram a um código de ética na gestão bancária e a autorização do banco de Portugal a negócios de um banco há muito em suspeita só revela que aquele se comporta sem nenhuma ética de regulação.

 É é apenas isto em que o País se tornou, um conjunto de pessoas que enriquecem à custa do trabalho de uma sociedade, revelando um desprezo por toda a decência. As instituições de soberania não escapam. Não é possível chamar a isto Democracia. Pena que quem utiliza o espaço mediático não saiba na sua grande maioria exercer um papel de cidadania. É preciso lutar, denunciar contra os privilegiados, os senhores do momento, um novo Big Brother de campos sociais destruídos. Um exemplo que importa seguir. Aqui.

(1) - Fonte - Jornal Expresso