domingo, 29 de dezembro de 2013

All the world is green - Tom Waits


"I fell into the ocean
When you became my wife
I risked it all against the sea
To have a better life
Marie you are the wild blue sky
Men do foolish things
You turn kings into beggars
And beggars into kings

Pretend that you owe me nothing
And all the world is green
We can bring back the old days again
When all the world is green



The face forgives the mirror
The worm forgives the plow
The questions begs the answer
Can you forgive me somehow?
Maybe when our story's over
We'll go where it's always spring
The band is playing our song again
And all the world is green (...)"

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Jesus Cristo ... o seu nascimento ... vinte séculos depois


"Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore. com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito da verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo,. Aquele que vê o fenómeno, quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor". (1)

É ainda o seu sonho, um sonho de dois mil anos por cumprir nessa ideia de um símbolo, um belo e feliz símbolo que se extingue no dia seguinte. Uma celebração pelo que devemos fazer, para depois nos esquecermos da nossa responsabilidade, talvez porque não nos vemos ainda ali como sendo nós. E afinal o que comemoramos, dois mil anos depois, é o nascimento de uma mensageiro, que nos quis ensinar, revelar que todos os homens são iguais. Ele próprio, incompreendido no seu tempo, estabeleceu os princípios de um nascimento novo. Nasceu no momento único do solstício de Inverno, deixando-nos palavras e tons de luz, e a promessa do descobrimento de uma manhã nova, a do dia branco de esperança no futuro. 


Sobre os seus princípios, uma ciência de palavras repetidas fundou uma religião. Todos os anos comemoramos em rituais de cerimónia o dever de num dia sermos especiais e de oferecer presentes. Presentes pouco pessoais, distantes dos valores que procurariam dignificar. O dia e o ambiente em que devemos ser o que muitas vezes não somos, em que uma fraternidade universal adocicada pelo ambiente de luzes, anjos e música nos mostram como participamos solidariamente na vida uns dos outros. Um dia e tão aparentemente.


Dois mil anos depois, na Palestina, morrem pessoas em confronto ainda pela posse de uma promessa e de um território, demasiado longe do que se poderia considerar divino e respeitador dos valores revelados há tanto séculos. Dois mil anos depois, a ganância e o lucro fácil e imediato regem um reino de interesses onde os agiotas e os seus princípios especulativos se sobrepõem ao trabalho e aos direitos púbicos da comunidade. Dois mil anos depois, o homem parece ter aprendido pouco.


Dois mil anos depois, vivemos num País que se auto-governa sem ideias. Dois milhões de pobres, velhotes esquecidos, a cultura do dinheiro neste tempo tão fraterno, onde não há espaço para a memória. Vivemos na virtualidade de acções e valores. Neste tempo, até o Templo e os que lá negoceiam parecem ameaçar o próprio mensageiro e a sua existência.O privado em detrimento da causa pública, que é a de todos.


Neste tempo de solstício, sonhemos ainda que tal como a Primavera fará renascer os campos e searas, também garantirá que novas gerações, mais lúcidas saibam concretizar o melhor da dimensão humana. Justamente, «a liberdade e a dignidade do ser», nas palavras iluminadas de Sophia. Concretizar o sentido divino do homem, sem lhe negar a sua humanidade.


É esta uma forma possível de comemorar o nascimento de um homem especial que revelou que o Homem pode-se alargar numa comunidade de boa vontade. Se o Homem à semelhança do Universo é criado da mesma matéria, da mesma energia concentrada nos átomos, esse entendimento não deveria conduzir-nos a uma mais coerente relação entre o pensamento e a acção?


Desde Cícero, a Marco Aurélio e Adriano, na longínqua civilização romana não eram a Humanidade, a Felicidade e a Liberdade os sonhos nesse futuro que ainda hoje se adivinha tão imperfeito?

(1) Sophia de Mello Breyner Andresen, Livro Sexto (Posfácio, pág. 73)

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

John Lennon - Happy Christmas


And so this is Christmas
I hope you have fun
The near and the dear one
The older and the young

A very Merry Christmas
And a Happy New Year
Let's hope it's a good one
Without any fear

And so this is Christmas (war is over...)
For weak and for strong (if you want it...)
The rich and the poor one
The world is so wrong

A very Merry Christmas
And a Happy New Year
Let's hope it's a good one
Without any fear

War is over
If you want it
War is over
Now

Natal

Entremos, apressados, friorentos,
num gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio,
no prédio que amanhã for demolido...

Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos, e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...

Entremos, despojados, mas entremos.
Das mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.



David Mourão-Ferreira, "Natal, e não Dezembro", in Cancioneiro de Natal

domingo, 22 de dezembro de 2013

Memória de Cize

                 "Eu canto por prazer,  não acredito nem em sonhos, nem em destino" (1).

Há dois anos (feitos a 17 de Dezembro) que sentimos na ausência da sua presença física, o andar desajeitado e a voz límpida do mar azul. Nela a explicação da palavra está dispensada. Não existe nenhuma ideia para cumprir, nenhum percurso a atingir, nem um destino a alcançar. Apenas acordar com o raio matinal, correr ao sol, nadar entre o sal e dançar nas noites de luar as nossas sombras, a nossa respiração. O sentimento e a alma ainda são faróis de iluminação, nestes dias onde a solidão se torna sabedora da nossa finitude. Com Cesária Évora apenas importa escutar o silêncio e as palavras respiradas da sua música. Em baixo um pouco da sua graça que nos deixou em tons de grande beleza.

                          (1) Entrevista a Cesária Évora, Mundo Lusíada, 2008

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

As Humanidades

"Tout ceci, je crois, montre bien qu'il y a là quelque chose de profond dans la pensée greque, ou dans l'art grec: ce besoin d'annoncer la fin, de laisser pressentir constamment la fin" (Jacqueline Romilly Ne me dis pas comment cela finit)
...

sábado, 14 de dezembro de 2013

Adormecer a noite - London Calling

video
"London calling see we ain't got no swing
'Cept for the ring of that truncheon thing

"London calling yes I was there too
An' you know what they said? Well some of it was true 
"London calling at the top of the dial
And after all this, won't you give me a smile?" - The Clash

O Douro ... património mundial

«O Doiro sublimado. O prodígio de uma paiagem que deixa de o ser à força de se desmedir. Não é um panorama que se contempla: é um excesso da natureza. Socalcos que são passados de homens titânicos a subir encostas(...) um poema geológico. A beleza absoluta.» (1)

Torga falou dele  como o suporte de um reino de magia. 
O Douro, o seu vale, as suas montanhas são uma ilha profunda onde a grandeza do natural ensinou ao homem o caminho do ser. A determinação numa natureza diversa, entre o xisto e o granito, entre a terra e o céu, um homem lutador construiu uma história humana deslumbrante, o Alto Douro Vinhateiro.

Entre o Atlântico e o interior continental uma síntese dos elementos, permitiu na sua combinação, que o fogo, a terra, o ar e a água se combinassem em encostas escarpadas, onde as palavras, os risos, o sofrimento do homem erigisse um monumento à sua grandeza - o generoso vinho do Porto.

O Douro é certamente isso, mas também é muito mais. Para o compreender é preciso chegar perto, aos seus sinuosos contornos. Em nenhuma outra paisagem deste País, a Natureza e o Homem se souberam dar, numa aprendizagem mútua como no Douro. Foi justamente à volta da vinha que os homens procuraram novos conhecimentos, que a organização social evoluiu ou que o património cultural foi preocupação dos diversos grupos sociais. Preocupação para com o valor cósmico de um vale, que criou no trabalho da uva os seus rituais próprios, os socalcos, as cepas, a vindimas, a navegação.

Hoje, que a mecanização e as barragens forçaram o grande rio a uma domesticação, onde os risos e os abraços já não são tão regulares, importa conhecer conhecer ainda a génese desses vales e da sua vida - a montanha. É na contemplação desses montes austeros, panorâmicos, de uma beleza absoluta numa magia que só a montanha pode revelar que podemos encontrar o horizonte infinito. 

É o Douro do granito, onde a escala humana já não é suportável, mas onde compreendemos que foi ali que nascemos para a imensa novidade de descoberta do mundo. Desde 2001 oficialmente se reconhece o valor único deste reino do maravilhoso. O essencial mora nos caminhos que escondem entre as sombras do sol, a dádiva única de uma paixão do homem por um território - a sua identidade.

(1) Miguel TorgaDiário XII

Imagem: A Caminho do Pinhão
 (Fonte: Douro - Muito mais que um Rio- Evasões)

Roald Amundsen ... a memória de um descobridor


O mundo é hoje um espaço menos infinito que o foi, quando a viagem, a descoberta era uma forma de exprimir uma ideia do mundo, uma conquista às limitações tecnológicas em confronto com o natural vasto e inacessível. Nessa lista de homens que sempre ousaram pelo desconhecido, na ideia sábia de Pascal, de que o Homem sentado, sedentário é uma forma menos aberta de existir, temos de incluir Roald Amundsen.

Roald Amundsen foi o primeiro homem a chegar ao Pólo Sul e conseguiu esse feito a 14 de Dezembro de 1911. Partiu em Agosto, tendo navegado para sul a bordo do navio "Fram" em direção ao Antártico. Estabeleceu o acampamento na Baía das Baleias, a partir do qual toda rota era desconhecida. Partiu da sua base a 19 de Outubro, com quatro companheiros, quatro trenós e cinquenta e dois cães. atingiu o Pólo Sul em dois meses.

Anos mais tarde, a bordo de um hidroavião, conseguiu explorar o Oceano Ártico por via aérea. Em1926 com Ellsworth e Umberto Nobile, Amundsen a bordo de um dirígivel, o "Norge" viajaram de Svalbard sobre o Pólo Norte até ao Alasca, tendo percorrido o último espaço branco ainda não conhecido no mapa do mundo. Acabou por morrer, justamente no Ártico, na busca a uma equipa que se tinha perdido em explorações neste território fascinante e perigoso.
Imagem, in http://www.noruega.org.pt/About_Norway/history/

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

António...na escrita que procura as linhas da vida

O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me

- Abrace-me porque é o último abraço que me dá
durante o abraço

- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento
e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.

Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:
- Estou aqui para lutar
e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido

- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento
porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. 

Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.
O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:
- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.

Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.

Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.


António Lobo Antunes, Visão, Quinta, 12 de Dezembro de 2013

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

Adormecer a noite - I may know the world

Declaração Universal dos Direitos Humanos

«Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos.» - artigo 1º

Cerca de mil milhões de pessoas têm como rendimento diário para si e para a sua família o valor de um dólar. Três milhões sobrevivem em condições de extrema pobreza, tendo como valor diário dois dólares. Dois mil milhões não têm cuidados médicos e todos os dias morrem de fome vinte mil pessoas, estimando-se que cerca de 963 milhões de pessoas não têm o que comer. Deste conjunto a grande maioria é formada por crianças com idade inferior a quinze anos.

Em muitos países do Mundo o acesso a redes de comunicação, energia ou água potável é uma tarefa impossível. A participação em meios de comunicação como jornais, televisão ou simplesmente manifestar as suas opiniões está interdita. Milhões de pessoas, especialmente crianças não frequentam qualquer escola. A prisão e a tortura por reivindicar uma opinião ou ser de uma cor ou cultura diferentes é imensamente frequente em vastas zonas deste Planeta. Pode ser este um retrato de um mundo desenvolvido? Com tantos progressos tecnológicos porque continuamos a assistir a este quadro com tanta frequência? 

Comemora-se hoje os sessenta e quatro anos da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Procura-se chamar à atenção de todos para a importância da vida, do respeito pelos direitos da Humanidade que devem, deveriam ser respeitados em todos os indivíduos. Esta celebração continua, a fazer sentido pelo quadro do mundo actual. O Homem continua a ser o seu maior inimigo pela falta de respeito com que trata o seu semelhante. Desde as Revoluções Americana e Francesa que se tem procurado avançar para formas de sociedade onde a razão e a consciência humanas sejam respeitadas. Infelizmente a crueldade tem marcado uma imensa presença na vida de muitas pessoas que habitam o Planeta.

Num mundo de globalização denunciar (manifestações, cartas, petições)os que oprimem, os que apenas querem ter uma voz, são atitudes que devemos ter. O Darfour ou O Tibete são apenas alguns dos casos desta falta de respeito pela Humanidade da espécie humana. Os Países constroem a sua História, pobre ou grandiosa pela forma como sabem lidar com os Direitos Humanos. A luta pelas causas justas, a construção de uma comunidade humana em que a razão e as ideias possam ser apresentadas livremente só podem ser um património das grandes nações.

O acesso à escolarização e a cuidados de saúde e o trabalho comunitário poderão permitir que daqui, a certamente muitos anos este seja um quadro do passado, e já não tão presente no quotidiano de tantos milhões. Como escreveu Tucídides,historiador grego, a felicidade humana está dependente da liberdade e esta da coragem. A coragem de exigir um mundo diferente. Na semana em que nos despedimos fisicamente de Mandela precisamos lutar pela óbvia decência humana esquecida em muitos faustos palácios de ignorância e esquecimento.

domingo, 8 de dezembro de 2013

Jim...

«Eu sou um velho cantor de blues.
espero a vossa compreensão.
Tenho vindo a cantar blues
desde o princípio do mundo.»
(Doors, Maggie M'Gill, in Morrison Hotel)

O mundo como uma possibilidade de mudança contínua. A poesia, as palavras, para inspirar formas novas de ser, de respirar. A Música como forma de arte para pelo non-sense, pela linguagem, pelas ideias, pelas possibilidades de novas perguntas nos interrogar. Jim, foi um pouco de tudo isso, na liberdade das aves, contra a violência maior, a dos sentados no conformismo. 

...

Florbela...

«(...) que essa coisa tão rara neste mundo - uma alma - se debruce com um pouco de piedade, um pouco de compreensão, em silêncio, sobre o que eu fui ou julguei ser. E realize o que eu não pude: conhecer-me» (1)

Nasceu em Vila Viçosa, a oito de Dezembro de 1894, há  sensivelmente cento e dezanove anos e apesar da vida curta, inquieta, deixou-nos um olhar impressivo na Literatura, mas também sobre as angústias que como mulher sentia num Portugal ainda muito marcado por uma divisão social muito forte. Florbela Espanca foi percursora do movimento feminista em Portugal, das primeiras mulheres a frequentar o ensino secundário, registando na sua poesia plena de sentidos da feminilidade. 

A sua vida marcada por uma infância trágica, onde o pai não a reconhece como filha evoluiu sempre na procura de um afecto que lhe parece ter fugido. Apeles, o seu irmão foi um dos seus raros ombros para uma procura que terminaria tragicamente a oito de Dezembro de 1930. Viveu entre Vila Viçosa, Évora, Lisboa e Matosinhos onde terminaria a sua vida. Os abortos involuntários, a sua memória de infância deram-lhe uma angústia e uma procura que lhe fugiu entre os dedos. 

Deixou diversos livros de poesia, entre os quais podemos destacar O Livro de Mágoas, Soror Saudade ou As Máscaras do Destino. Procurou construir sobre as palavras laços que a enlevassem de um mundo limitado, hipócrita e com pouca dignidade. Subindo acima da realidade procurou no sonho imaginar mil possiblidades para se recompensar de um mundo ideal onde não conseguia chegar. 

A elevação acima do horizonte, a ideia de navegar por sonhos onde a rejeição que bem conhecia aí não entrassem levou à construção de um mundo, de palavras que lhe dessem uma resposta às sua inquietações. A oito de Dezembro de 1930, há pouco mais de setenta anos, deixou de acreditar no papel de fuga que as palavras lhe davam e nas suas frágeis costuras. Nos anos seguintes  a sua obra seria amplamente conhecida. Cristina Silva, escreveu há anos um livro, Bela, publicado pela Ambar, que nos dá sob a forma de romance os passos de uma tragédia e de um assombro pelas palavras.

(1) Florbela EspancaDiário do último ano
Imagem, in aguarelas.bolgs.sapo.pt

Lennon...

"My role in society, as any artist's or poet's role, is to try and expresse what we all feel. Not to tell the people how to feel. Not as a preacher, not as a leader, but as a reflection of us all."

Crescemos com ele e assim aprendemos a apagar as impossibilidades escritas nos manuais do conformismo. Descobrimos palavras e sons novos onde todas as cores eram possíveis apenas pela ideia de reflectir o sonho, o jogo mental de exercitar a imaginação e a inteligência. Com assombro conhecemos linguagens novas, possibilidades maiores que pareciam conquistar o mundo.

Percebemos que o mundo não era o conto justo e encantado de fadas. Mas imaginámos tardes de chuva a comer chocolates onde por campos de morangos, com a música, com a poesia, embalados na palavra se viviam avenidas de sol mais brilhante.

É este o legado de John Lennon, o de ter connosco praticado eternos "mind games" onde a imaginação permitia celebrar um campo de oportunidades onde a paz, o amor e a dignidade dos valores nos permitia conquistadores dos dias. É verdade que no caminho se perdeu tanto que a sua ausência há já trinta e três anos nos faz interrogar o que ele nos diria hoje. Positivamente, reflexivamente sempre o espelho do que somos em cada respiração.

sábado, 7 de dezembro de 2013

Adormecer a noite

Minha laranja amarga e doce
Meu poema feito de gomos de saudade
Minha pena pesada e leve
Secreta e pura
Minha passagem para o breve
Breve instante da loucura
Minha ousadia, meu galope, minha rédia,

Meu potro doido, minha chama,
Minha réstia de luz intensa, de voz aberta...

Tom Waits

video
You can never hold back spring
You can be sure that I will never
Stop believing
The blushing rose will climb
Spring ahead or fall behind
Winter dreams the same dream
Every time


You can never hold back spring
Even though you've lost your way
The world keeps dreaming of spring


So close your eyes
Open you heart
To one who's dreaming of you
You can never hold back spring
Baby


Remember everything that spring
Can bring
You can never hold back spring

Um homem na cidade ... na memória de Ary dos Santos


(...) Eu sou um homem na cidade
que manhã cedo acorda e canta
e por amar a liberdade
com a cidade se levanta.

Vou pela estrada
deslumbrada
da lua cheia de Lisboa
até que a lua apaixonada
cresça na vela da canoa.

Sou a gaivota
que derrota
todo o mau tempo no mar alto
eu sou o homem que transporta
 a maré povo em sobressalto.

E quando agarro a madruga
colho a manhã como uma flor
à beira mágoa desfolhada
um malmequer azul na cor.

O malmequer da Liberdade
que bem me quer como ninguém
o malmequer desta cidade
que me quer bem que me quer bem! (...)

José Carlos Ary dos Santos, «Um Homem na Cidade»
Imagem, ©, in  http://portfolio-da-sara.blogspot.com

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

"Libertas, Felicitas, Humanitas"


"Apesar das ruínas e da morte,
Onde sempre acabou cada ilusão,
A força dos meus sonhos é tão forte,
Que de tudo renasce a exaltação
E nunca as minhas mãos ficam vazias."


Sophia, Apesar das ruínas e da morte, "I", in Poesia

A sua vida preencheu o que o Imperador Adriano disse nos longínquos anos do século I, "as intermitentes formas de eternidade" que buscamos entre homens que compreendem com formas novas as pedras caídas das estátuas e das cidades que adormeceram. Os homens que percebem o valor e o significado dessa imensa forma de beleza e de dádiva que é "Libertas, Felicitas, Humanitas". 

Sendo a sua vida um exemplo maior, muitos escreverão a evidência da sua entrega, a luta por um ideal, a infinita capacidade de se conduzir nesta respiração que ambiciona outorgar em cada um o seu infinito valor humano. É verdade que há muito se temia, a sua perda material, mas ele é já há algum tempo um património de memória, de inspiração e de dignificação do que cada homem pode ser.

Num tempo de ruído, saberemos todos compreender o valor do seu amor pela Humanidade, o significado que cada um pode ter nos outros? Mandiba confirma-nos que todo o impossível se pode alimentar da esforço e de luta e que mesmo os que marcham com o poder, os que recusam o papel da memória e da identidade cultural, também podem e devem ser combatidos em nome de uma decência e dignidade humanas. 

A ideia maior que Yourcenar consagrou na voz de Adriano, "Toda a miséria, toda a brutalidade deviam ser interditas como insultos ao belo corpo da humanidade. Toda a iniquidade era uma nota falsa a evitar na harmonia das esferas. (...) Toda a felicidade é uma obra-prima: o menor erro falseia-a, a menor hesitação altera-a. A menor deselegância desfeia-a, a menor estupidez embrutece-a". Acreditemos, pois que os impossíveis são-no apenas enquanto não lhe dedicámos a nossa entrega em comunhão com os outros.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Leituras - mar me quer

"O coração é uma praia." (1)

De uma obra notável em originalidade, muitos são os testemunhos seus de um património humano de grande valor, por onde a palavra se escuta em infinitos planos. Os sonhos, sempre eles, nessa viagem, onde se definem gestos de encontros e desafios de aventuras. Mar me quer, um pequeno livro sobre esse território de fascínio, onde as palavras se vestem para o dia, onde a emoção se constrói nas nossas memórias, nas histórias que nos embalam.

Mia Couto dá-nos neste livro a simplicidade da vida, o que se procura nos sonhos para embalar a vida, o caminho vivido nas ondas do tempo, no futuro que tanto queremos e não podemos vestir. Mar me quer é um pequeno livro sobre esse chamamento das histórias, do património oral, que nos desfia no tempo, por onde procuramos sempre ver novas manhãs a nascer, do tempo em que é possível despertar um sorriso. 

Ilustrado por João Nasi Pereira, é uma pequena maravilha, um encantamento sobre o caminho do sonho, nessa respiração do mar, no seu silêncio de maresia que é a pele de todas as manhãs amadas do vento. O sonho e a beleza que se encanta e maravilha no universo para o sentir, nesse caminho claro e diáfano com que o céu nos enche o horizonte.

"- E, pois, me diga: qual o serviço que tem o arco-íris?
 - Nem sei lá.
 - Tem o serviço só de fantasiar, de ensinar o céu a sonhar." (2)

(1), (2) Mia Couto, Mar me quer, - Páginas 56 e 23.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Hannah Arendt

...

Uma cidade no bolso...

Tenho uma cidade inteira
no livro de bolso.

Uma esquina de segredos que eram a meias
e se escapavam num rasgão,
naquele desencontro ou noutro. Tenho
uma cidade inteira no bolso e levo escondidas
no casaco noites como aquela em que à conta de
atravessarmos as árvores e arrancarmos raízes,
trocámos os cheiros da terra por histórias
que não precisam de chão. Passámos a ter janelas
para dentro
no lugar dos botões.

Tenho uma cidade de costuras
pouco urbanas,
de buracos remendados com má caligrafia. Tenho
vírgulas gastas, travessões que ninguém quer
a pontuar os encontros nas ruas, quando
destas ruas ainda se faziam margens
para nos esperarmos uns aos outros.
Tenho uma aldeia que se ergue à altura dos olhos
e contorna rotundas com alfinetes de betão.

Tenho uma cidade no bolso
de contrabando.

Minês CastanheiraInter-cidades, Letras e Coisas
Imagem, in Pinzelladasalmón

Memória de Sá Carneiro

"A democracia económica postula a intervenção de todos na determinação dos modos e dos objectivos de produção, o predomínio do interesse público sobre os interesses privados, a intervenção do Estado na vida económica e a propriedade colectiva de determinados sectores produtivos; pressupõe ainda a intervenção dos trabalhadores na gestão das unidades de produção. A democracia social impõe que sejam assegurados efectivamente os direitos fundamentais de todos à saúde, à habitação, ao bem-estar e à segurança social; exige a abolição das distinções entre classes sociais diversas e a redistribuição dos rendimentos, pela utilização de uma fiscalidade justa e progressiva". (Via Abrupto)

Os gurus que pelos media definem a excelência do pensamento, o valor utilitário da democracia e do progresso, em livros, jornais e blogs, no sentido da grande frase, da linguagem de indecência pela vida, os que proclamam com piadas sonoras a inutilidade da História e da memória, esquecem-se do valor humano dos que por aqui souberem respeitar um território e a sua identidade.

Existem pessoas que passaram por nós e emergem como uma onda que pretende marcar na praia sossegada e previsível dos dias algo de diferente, qualquer ideia de mudança, uma paixão pelo confronto com a realidade estática.Existem pessoas que emergem como alimento de um movimento maior, original, criativo, arriscando as convicções no seu objectivo de alimentar a confiança e o entusiasmo.

Existem pessoas que parecem ter uma áurea significativa para impulsionar os movimentos de mudança, acreditando vigorosamente nas suas convicções, como se elas assegurassem sempre um ganho em qualquer contexto, apesar das dificuldades. Convicções com respeito pelos outros, onde a palavra e a acção se comprometem com um quotidiano.

Existem pessoas que parecem ter uma dádiva de conquista pelo seu carisma, pela luta intransigente, pela ruptura, sem concessões por uma quietude mais calma. Ruptura alimentada por ideias, por aquelas que na sociedade permitem construir oportunidades e da vida que se alimenta apenas de si própria.

Apesar de ainda só terem passado trinta e três anos, o que em História é uma ninharia, não é difícil entregar a Sá Carneiro esse papel com que arriscou os dias. O que teria sido nunca o saberemos. Foi uma figura de primeiro plano na conjuntura dos anos setenta do século passado. No adormecimento de valores que o País vive há duas décadas, Sá Carneiro deixou-nos a interrogação de sabermos até onde iria a sua convicção pelo afrontamento, pela criação de rupturas para algo diferenciado nos dias.